CIÊNCIA VIVA – Geologia, um pilar sobre que assenta a sociedade

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Com
exceções, que sempre convém ressalvar, a Geologia não faz ainda parte das
preocupações dos portugueses e, aí, estão muitos dos nossos agentes económicos
e de cultura, jornalistas e decisores políticos. Há, pois que inverter esta
situação e essa tarefa tem de ser feita na escola, onde não me canso de
denunciar a pouca importância que sempre foi dada a esta disciplina.

Lado
a lado com a Biologia, a Oceanografia e a Climatologia, a Geologia é uma parte
importante das Ciências da Terra, que se ocupa do mundo não vivo ou inorgânico,
formado não só pelas rochas e os seus minerais, mas também, pelos testemunhos
petrificados das incontáveis formas de vida que povoaram a Terra, desde as
muito antigas, com mais de 3800 milhões de anos, às muito recentes, com apenas
alguns milhares.

As
rochas formam a parte rígida do nosso planeta a que chamamos litosfera. Afloram
à superfície dos continentes e formam o substrato dos oceanos, nos quais tem
lugar um dos processos mais importantes da dinâmica global, isto é, a expansão
dos seus fundos, num alastramento que determina a hoje inegável deriva dos continentes.

Em
terra e em condições favoráveis de humidade e temperatura, a capa externa das
rochas transforma-se em solo por ação dos agentes atmosféricos, de certas
bactérias, das plantas que nele fixam as suas raízes e de alguns animais, como
vermes e insetos que nele habitam. Muita gente anda esquecida e não repara que,
sem os solos, não haveria vida sobre as terras emersas. Num esquema
particularmente simplificado, basta lembrar que se não houvesse solo, não havia
plantas, sem plantas não havia herbívoros e, sem estes, não haveria carnívoros
nem esta espécie Homo dita sapiens que somos nós.

A
atmosfera que atualmente nos rodeia e nos assegura a vida é o resultado de uma
interação constante e contínua que existiu, desde há uns 2700 milhões de anos,
entre organismos muito simples, como cianobactérias, e a cobertura gasosa do planeta. Muito
diferente da atual, a atmosfera primitiva não tinha oxigénio.

Foram
esses seres “descobridores” da clorofila (um pigmento verde contido no seu
organismo) que produziram, por fotossíntese,
o oxigénio necessário à respiração dos animais. Trata-se de um processo que
continua a ser assegurado por todas as plantas que nos rodeiam.

É
por isso que dizemos que os parques arborizados, no interior das cidades, são
os seus pulmões. E é por isso que lutamos pela defesa da Amazónia e de todas as
florestas de quaisquer latitudes, pois são elas que fornecem a parte mais
importante, cerca de 21%, do ar que respiramos.

As
rochas, a água, o ar e os seres vivos conviveram, entre si, ao longo da maior
parte da história do “Planeta Azul”. Deste modo, a biodiversidade que hoje nos
rodeia é uma consequência dessa interação durante a já referida imensidade de
tempo, sendo a espécie humana o mais recente e complexo resultado desse
convívio.

A
Terra no seu conjunto, os fundos marinhos, as rochas, os minerais, os fósseis e
os solos são temas de estudo da Geologia. Mas há outros, não menos importantes,
como são a erosão e a subsequente formação das rochas sedimentares, os
glaciares, os rios e os desertos, o nascimento e a elevação das montanhas e o
rasoirar das imensas planícies, os vulcões, os sismos e a deriva dos
continentes. Nestes estudos, a Geologia não
dispensa os ensinamentos de outras ciências, com destaque para a Biologia, a
Química, a Física e alguns domínios da Matemática.

Os
recursos minerais, nomeadamente, os minérios de ferro, de alumínio, cobre, ouro
e muitos outros, bem como as fontes energéticas, sejam elas petróleo, gás
natural, carvão, geotermia ou nuclear, foram e são determinantes na História da
Humanidade. As águas subterrâneas e o conhecimento dos terrenos, com vista à
construção de barragens, pontes, estradas e outras grandes obras de engenharia,
são suportes fundamentais da civilização. Todos estes domínios e, ainda, a
defesa do ambiente natural e a preservação do património geológico e
paleontológico representam aspetos práticos da Geologia ao serviço da sociedade
em desenvolvimento sustentado, com profundas implicações económicas, sociais e
políticas, à escala local, regional e global. Acresce ainda, e é bom não esquecer,
que a Geologia, como ciência fundamental, sempre teve a maior importância no
pensamento filosófico, desde a Antiguidade aos nossos dias.

A. M. Galopim de Carvalho

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