MEDRONHALVA – A chuva chegou e a terra já está a brotar

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Em
São Pedro de Alva, no único medronhal certificado do mundo começam agora a
nascer os primeiros rebentos. O fruto só mesmo daqui a três anos. Quem visitar
a Praia Fluvial do Vimieiro, com o seu turismo rural e restaurante, verá como
uma espécie autóctone e espontânea pode fazer tanto por uma região
A
chuva forte da noite passada trouxe novamente o cheiro da madeira queimada.
Quando acordou, Américo Diniz deu logo conta. As lembranças vieram de novo à
tona só porque a água, finalmente, desceu à terra. Ainda há pouco mais de um
mês, o mecânico e filho do antigo moleiro da Praia Fluvial do Vimieiro andou
sozinho, mais a mulher, a combater o fogo que teimou em vir desde o sopé da
Serra da Lousã até ao sopé da Serra do Caramulo, destruindo perto de
80 quilómetros. Ao
lado, n’O Medronheiro, uma casa rústica de alojamento local, também Carlos
Fonseca andou com a mangueira a afastar as labaredas com dezenas de metros de
altura. São dois andares, preparados para receber até cinco pessoas, sendo o
ideal para um casal com dois filhos. Uma casinha de pedra com lareira no piso
de baixo e salamandra no andar de cima, onde ficam os quartos com o teto
forrado de cortiça. A kitchenette completa torna a casa autónoma, quase não
sendo preciso sair de lá.
Depois
dos fogos de Pedrógão Grande, em junho, nunca pensou que o mesmo fosse ali
acontecer. Ainda três dias antes, a 12 de outubro, Carlos tinha terminado o
relatório da Comissão Técnica Independente, criada pela Assembleia da
República, no qual 12 especialistas analisaram a situação.
O
biólogo, professor e investigador da Universidade de Aveiro, 43 anos, foi um
dos técnicos escolhidos pelo Conselho de Reitores das Universidades
Portuguesas. Em parte por ser especializado em gestão florestal e conservação
de recursos silvestres, mas o facto de conhecer o território ao pormenor e de
ter uma relação sentimental com a região também foram tidas em conta.
APROVEITAR O MATERIAL QUEIMADO
Carlos
Fonseca é dos poucos a tratar da terra. “Não vejo ninguém com uma motosserra a
limpar os terrenos. O abandono é garantido, essa é a grande ameaça”, lamenta. Logo
após os incêndios, com a ajuda de amigos e voluntários puseram-se a limpar o
medronhal certificado,
20
hectares
na envolvente de toda a Praia Fluvial do
Vimieiro, este verão pela primeira vez distinguida com a Bandeira Azul o que
levou a dias de grandes enchentes.
O
material lenhoso queimado serviu para fazer barreiras, pois o declive muito
acentuado do terreno era propício à queda de cinzas e matéria orgânica quando
começasse a chover. Essas estão também sustentadas por palha (mulching), uma
técnica usada na proteção e estabilização dos solos.

cinco dias, da terra começaram a brotar pequeninas folhas verdes, encostadas às
hastes dos medronheiros que não arderam, mas que devido às temperaturas muito
elevadas também ficaram queimados. Em 2013, Carlos Fonseca, que ficou com uma
das quatro casas da praia fluvial, resolveu tornar a terra mais rentável,
pensando nos aspetos ambientais, sociais e económicos. Sendo o medronho uma
planta autóctone, porque não plantar dez hectares e recuperar outros dez onde
nasce de forma espontânea, nos socalcos onde já houve vinha.
SEM MÁQUINAS, SÓ À MÃO
Nessa
altura, pegou em 120 quilos de fruto maduro (a que chamam morangueiro), de
vários tamanhos, e num viveiro usou para germinar a semente. O resultado foram
30 mil pés de medronheiro. Depois de os ter plantado, em janeiro de 2015, um
ano que também foi seco, teve uma taxa de mortalidade de cerca de 20 por cento,
o que para uma espécie replantada nesta situação é bastante baixa.
Neste
medronhal não há mecanização, e este ano, já estava a evoluir para o modo de
produção biológico. Além de ser vendido como fruto fresco, o medronho serviria
também para fazer aguardente (até já tinham um rótulo para a garrafa), licores
e compotas.
Agora
são precisos mais de três anos para nos medronheiros espontâneos voltar a haver
fruto. Nas várias toiças que ficaram, as raízes à superfície, em breve vão
brotar novas pernadas, depois é ir fazendo a poda. Três anos será o mesmo tempo
que a cinza e a matéria orgânica levarão para desaparecer. Por enquanto, o
contraste de cores ainda é muito forte, com o preto a vencer o verde.
A
descer para a praia fluvial, à nossa esquerda fica a Ribeira do Vale da Cereja
– a única réstia de verde por esta zona. É preciso deixar a Natureza fazer o
seu trabalho, naturalmente.
Vamos
ter uma redação itinerante no Centro do país durante todo o mês de Novembro,
para ver, ouvir e reportar. Diariamente, vamos contar os casos de quem perdeu
tudo, mas também as histórias inspiradoras da recuperação. Queremos mostrar os
esforços destas comunidades para se levantarem das cinzas e dar voz às pessoas
que se estão a mobilizar para ajudar. Olhar o outro lado do drama, mostrar a
solidariedade e o lado humano de uma tragédia. Para que o Centro de Portugal
não fique esquecido. Porque grande jornalismo e grandes causas fazem parte do
nosso ADN.
Texto
de Sónia
Calheiros
e fotos de Rui Duarte
Silva