INCÊNDIOS – Proprietários florestais temem o destino da madeira queimada

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Os proprietários das zonas
da região Centro afetadas pelos incêndios esperam que as medidas do controlo do
preço da madeira cheguem rapidamente ao terreno, mas acreditam que serão
insuficientes.

Em Pedrógão Grande, as
serrações não têm mãos a medir para tantas toneladas de pinheiro que tem de ser
cortado na zona queimada – ainda há muito por cortar e a madeira desvaloriza a
cada dia que passa, ganhando uma cor azulada e furos de insetos.


nos concelhos afetados pelos incêndios de 15 de outubro, o trabalho mal começou
e a maioria dos proprietários aguarda que as medidas previstas pelo Governo
cheguem ao terreno.

No entanto, o anúncio de uma
linha de crédito para o parqueamento da madeira queimada de resinosas e um
sistema simplificado de cotações de mercado de produtos florestais poderão não
ser suficientes.

O que está previsto é apoiar os madeireiros, os operadores florestais,
na compra da madeira, desde que comprem a um preço mínimo estabelecido. Mas que
garantia depois têm de que a madeira vai ser vendida a um preço superior a esse
preço mínimo estabelecido de forma que possam ganhar a sua margem?
“,
afirmou à agência Lusa o presidente da CAULE – Associação Florestal da Beira
Serra, Vasco Campos, que representa seis concelhos afetados pelos incêndios de
15 de outubro, onde se estima haver mais de 6.500 proprietários.

Vasco Campos sublinha ainda
que há quatro fábricas na região que recebiam madeira e que ficaram “
profundamente afetadas” pelos
fogos, para além dos vários madeireiros com equipamento destruído.

Ou seja, há uma menor
capacidade para cortar madeira e uma maior dificuldade em escoá-la, o que já
tem levado a uma redução do preço na região.

Para o presidente da CAULE,
o Estado deveria incentivar os madeireiros “
a comprar a madeira a um determinado preço“, com a garantia de
que a madeira comprada “
a esse
preço seria vendida pelo próprio Estado às fábricas
“, permitindo uma
margem de lucro para os madeireiros.
Numa serração de Pedrógão
Grande, há cerca de cinco mil toneladas armazenadas de pinheiro queimado do
incêndio de junho.

Não há mãos a medir“, sublinha Joaquim António Caetano,
sócio-gerente da empresa, referindo que por ali tentam lutar contra o tempo – o
pior inimigo da madeira queimada.

Joaquim vai apontando para a
madeira azulada e furada por insetos que vai aparecendo com cada vez maior
frequência para explicar o porquê de não poder pagar um preço mais elevado.

Em três toneladas, fazíamos um metro cúbico [de madeira boa]. Agora,
tirando a madeira furada e a madeira azul para fora, é preciso quase quatro
toneladas para fazer um metro cúbico ou até cinco toneladas
“, realça,
referindo que também a casca, que era exportada, perde todo o seu valor estando
queimada.

O preço que oferecemos aos proprietários é diferente, porque também não
recebemos o que recebíamos. Comprava a madeira a 40 euros a tonelada. Hoje,
estou a comprá-la a 30 e mesmo assim tiramos menos do que nos 40 euros de
madeira verde
“, explica.

José Costa, presidente da
União de Freguesias de Cepos e Teixeira, em Arganil, ainda não vendeu qualquer
madeira ardida dos baldios de Cepos e Casal Novo – cerca de 500 hectares
povoados por pinheiro bravo com 150 compartes.

Estamos à espera e a aguardar que o Estado ponha algum controlo
nisso”, contou à Lusa José Costa, acreditando que a única saída é garantir
“um preço justo por metro
” cúbico.

Em Oliveira do Hospital,
Luís Brito, proprietário florestal, diz que as medidas são bem-vindas, mas
acredita que não haverá capacidade da indústria “para tanta madeira”.
Não vejo solução. Não sei qual será a solução. Penso que toda esta
madeira vai apodrecer no terreno
“, conta.

Luís Brito tinha 70 hectares
de pinheiro bravo e manso, carvalhos, freixos e cerejeiras bravas espalhados
por Tábua, Nelas e Oliveira do Hospital, que tratava como se fossem “
um
autêntico jardim
“.

Andava a plantar para os meus filhos e os meus netos cortarem e agora
não vou retirar rendimento nenhum do que ardeu
“, constata o
proprietário, que está a tentar “
desesperadamente
vender a madeira
“, mas, com o fecho temporário das grandes fábricas,
os madeireiros estão a recusar-se a comprar.

Para Luís Brito, a solução
não poderá passar somente pela garantia de um preço justo pela madeira, mas por
uma abordagem que entenda a floresta como algo mais que madeira para ser
cortada.

O ambiente terá de ser pago por todos nós, pelos nossos impostos, pelas
pessoas que não vivem aqui, que vivem nas cidades, mas que precisam de
oxigénio, que precisam da floresta para viver
“, disse.