GUERRA COLONIAL – Relatos de um ex-combatente em Angola – capítulo II

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Capítulo
II – A viagem de ida & A chegada ao terreno de combate

Três horas da manhã e eu estava
já deitado na cama do meu camarote a pensar. Não conseguia dormir. Felizmente,
naquele dia, o mar estava mais calmo, mas apanhámos dias de autêntico terror…
Tempestades marítimas que traziam consigo ondas gigantes que quase engoliam o
barco, quando se atiravam acima dele enfurecidas. Ouviam-se choros e muitos de
nós ficavam bastante agoniados. E quando chegava a hora da refeição?! Nem os
nossos pratos com comida escapavam… Baloiçavam e estilhaçavam-se no chão.
Senti que o pesadelo já tinha começado e, por mais que o meu coração me puxasse
para trás, de volta ao meu país, o Vera Cruz inisistia dias e noites a fio, sem
parar, em levar-me para uma guerra sem sentido!… Nem sequer sabia as
verdadeiras razões que tinham levado àquilo. Não estava sozinho, bem sabia
disso… Mas sentia um vazio dentro de mim inexplicável.
Perdia-me frequentemente nos
meus pensamentos. E, naquela noite, mais uma vez me encontrava de barriga para
cima a olhar aquela escuridão, relembrando que também assim estava pintado o
meu destino… Negro.
De repente, ouvi um grande
alarido no exterior e saltei imediatamente da cama, assustado. Via toda a gente
numa correria, bastante apressados. Não sabia ao certo o que se estava a
passar, mas fiquei aflito. Entretanto, ouvi alguém a gritar para irmos formar
no convés, porque o barco estava prestes a afundar-se. Teríamos que vestir os
coletes salva-vidas e entrar nos botes o mais rápido possível. Automaticamente,
ao ouvir aquilo, gelei e obedeci de imediato ao que me pediam. Todos nós
estávamos aterrorizados com a hipótese de virmos a ser engolidos por aquela
imensidão de negrume e água.
Estava já em sentido, pronto a
receber novas ordens  e a sentir aquele
cheiro a água salgada, a brisa fria na cara e os lábios a ficarem secos. Notei
que a minha respiração estava ofegante e o meu coração aos pulos, anisoso para
me tirar dali. O comandante do pelotão falou para nós. Olhei-o e escutei com
bastante atenção, porque apenas queria sair dali e sobreviver (mal sabendo eu
que aquilo que me esperava em terreno africano seria mil vezes pior). Estagnei
ao ouvir aquelas palavras… Estávamos apenas num simulacro. O barco estava
intacto e não iria afundar. Posso dizer que senti um misto de alívio e frustração
que se tranformaram num pequenina lágrima que teimava em escorrer, mas eu não
deixei. Não podia mostrar fraqueza e mantive-me direito, sem perder a
compostura, tentando transparecer calma. Fiquei inquieto com todo aquele
aparato e apercebi-me de que, se não estava preparado para lidar com uma
situação daquelas, como me poderia safar em combate?! Senti-me fraco e isso
revoltou-me. Toda gente se dispersou e eu sentei-me lá num canto junto de uns
camaradas, para fumar um cigarro… Talvez isso me aliviasse o stress. Ficámos
ali a conversar um bocado, de tudo o que passáramos naqueles dias de viagem e
daquilo que o destino nos reservaria.
Aquela situação não passou de
um teste à nossa reação, mas eu não sei se era devido ao facto de já ir nervoso
(com toda a tensão e ansiedade do que iria encontrar durante a guerra), ou por
ir mais sensível (com todos os medos e ideias sombrias)… O que é certo é que
aquele teste marcou-me bastante, pois mexeu muito comigo.


A viagem até Luanda demorou
doze dias. Começámos a avistar terra durante as primeiras horas da manhã do dia
23 de janeiro de 1969. Aproximámo-nos aos poucos, até termos de parar, à espera
que uns barcos mais pequenos viessem até nós com o intuito de nos darem
autorização para atracar. E, quando o fizemos, tendo oportunidade de sair do
barco e pisar solo africano pela primeira vez, olhei ao meu redor, chamando-me
à atenção umas mulheres locais que vendiam fruta e o barulho de muitas vozes em
conjunto. Não consegui ver mais nada com atenção, porque não podíamos parar. A
nossa viagem não ficaria por ali.
Então, seguimos viagem num
comboio muito velho, até Grafanil, que ficava perto de Luanda. Era aí que
ficava um centro de concentração por onde todos os militares tinham de passar. Ficámos
lá um dia, dormindo cada um para seu lado no chão, e a ter que comer ração de combate,
já para nos habituarmos. No dia em que partiríamos dali, ordenaram para que
todos os pelotões se deitassem no chão, de costas para o ar. Eu assim o fiz,
sentindo aquela dureza e desconforto do chão, perguntando-me o porquê daquele
pedido… Até que tive de levar com uma injeção na coluna, que me doeu
bastante. Não nos explicaram para que é que aquilo serviria e nós jamais
ousaríamos perguntar. Tínhamos de a levar e simplesmente obedecer.
Depois disso, seguimos até
Vila Luso, onde saímos do comboio para entrármos em carros militares, que nos
levavam ao próximo destino por estradas de terra batida. Aí sim… Já comecei a
sentir arrepios e o clima de tensão era evidente. Todos nós já íamos
desconfiados de que a qualquer momento poderia haver combate. Os meus dedos das
mãos íam gelados e todo eu transpirava com aquela ansiedade. Suspirava
silenciosa e frequentemente numa tentativa de não deixar que os nervos me
controlassem. Continuámos viagem até uma aldeia (ou sanzala, na língua
angolana), no distrito de Moxico, onde havia umas palhotas que eram as casas
dos locais. A partir daquele momento, estávamos efetivamente em terreno de
combate.
Acampámos aí, onde tínhamos
sentinelas que eram rendidos de hora a hora, mais ou menos. Contudo, a primeira
noite não me correu nada bem… Dormi numa tarimba, que era uma espécie de cama
muito dura e desconfortável, dentro de uma casa abandonada, enquanto outros
tinham mesmo de dormir nos panos de tenda, porque a casa não chegava para
todos. Eu não dormi nada, para dizer a verdade… Tal era o barulho que vinha
da rua, por causa dos militares que passavam ali a última noite, pois iriam
embora, ficando nós no seu lugar. Andavam todos contentes, a cantar, a dançar e
a beber. Eu não. Estava desesperado e aquilo irritava-me… Mal sabia o dia de
amanhã, ou se estaria ali amanhã à mesma hora! Estava demasiado confuso,
nervoso e frustrado por ali estar e aquele barulho não ajudava em nada para me
tentar acalmar. Aliás, ainda me deixava mais tenso.
Como se isso não bastasse,
quando chegou a manhã, apercebi-me de que tinha sido roubado! Levaram-me o meu
pano de tenda (que teríamos de trazer connosco no combate, para poder pernoitar),
o meu dólman (o colete militar) e até as minhas botas! Fiquei tremendamente
zagando e inquieto… Os azares já tinham começado a bater-me à porta!…
Mariana Assunção
Através do testemunho
de Fernando da Conceição


Nota: Os factos aqui relatados são verídicos e
provenientes do testemunho real de um ex-combatente da Guerra do Ultramar: o
meu avô, Fernando da Conceição, que gentilmente se disponibilizou para os
relatar, assim como para partilhar algumas das suas recordações desse período
em que esteve na Guerra.
Com esta partilha dá-se a
conhecer algumas das experiências que, assim como o meu avô, tantos outros
homens viveram e que os marcaram para o resto das suas vidas.
Pretendo, deste modo, prestar
uma sentida homenagem a todos estes grandes heróis, que são muitas vezes
esquecidos, sobretudo pelo passar do tempo que vai deixando essa época cada vez
mais longínqua.
Contudo, todos estes homens
não deixaram de ser grandes lutadores. Não foi por regressarem do combate que
deixaram de lutar, porque ainda hoje todos lutam contra as memórias sangrentas
dessa altura! Todos eles são, ainda hoje, os mesmos heróis de antigamente!

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei da história. Parece a história da carochinha. Porque não contam como realmente tudo se passou? Porque é que muitos combatentes da guerra colonial se expõem desta maneira. Também passei por lá Angola, talvez numa das piores zonas de combate ( DEMBOS) e não encaixo estas histórias