CIÊNCIA VIVA – 2019, Ano Internacional das Línguas Indígenas

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“Durante a noite, veio o homem branco…”, diziam as
legendas. Eram indígenas, apenas um casal de velhos de ar assustado, rodeado de
câmaras, de luzes, de linguistas e antropólogos chamados em cima da hora.
Encontrados a vaguear pela floresta, do que se julgava ser a sua aldeia na
Amazónia restavam cinzas e imagens de madeireiros atarefados. Estava tudo no
noticiário da TV e foi notícia de pouca monta, com direito a ser visível
durante uns dois dias.

Digamos que se tratou de mais uma daquelas evidências sobre
as muitas ilegalidades naturalizadas cuja violência e desumanidade há muito se
desfamiliarizaram, tudo digerido entre duas garfadas ao jantar. Digamos que a
TV nos entra assim pela casa e pela viagem, como se tudo se reduzisse a um
modelo de representação aceitável e comummente reconhecido e digerido. Digamos
que a presença desse “fazer” (desse acto de representar) se revela na
objectividade fantasma com que, através dele, tomamos consciência do mundo, uma
fantasmagoria que nos passa ao lado — a menos que, qual membro amputado, nos
doa no olhar para o écran.

Não houve antropólogos ou linguistas que soubessem
exactamente o que diziam aqueles dois. Qual o modelo de representação que
usavam? Não se sabia e, repare-se, a pergunta não apontava sequer o problema etnopoético
da impossibilidade de traduzir uma mundivisão outra em modelo de representação
de “homens brancos”. Era a raiz do modelo, a língua mesma, que se desconhecia.
Os especialistas passaram assim apenas “a deduzir” a partir
das línguas daquela região, já conhecidas e já estudadas. Com aqueles dois
seres se perdia toda uma língua e, com ela, toda a presença de uma história e
de uma cultura, todo um saber — todas as formas de um “fazer” que deram forma
àquela comunidade e que, certamente nos poderia iluminar o mundo de modo outro.

Em 2019, assinala-se, nas Nações Unidas, o Ano
Internacional das Línguas Indígenas. Digamos que isso deveria devolver-nos à
grande questão social e política que é a poética — aquela arte que Aristóteles,
vendo-a sem nome, chamou simplesmente “fazer” (poiein).

Digamos que o que hoje se passa com as Línguas Indígenas é
o epítome da dor do membro amputado, dessa fantasmagoria que nos dói quando
afinal percebemos que a representação do mundo não está na natureza, mas antes
se revela como insuportável ausência dos sentidos que reconhecemos.

Nesse caminho, digamos que a poesia, também celebrada no
dia 21 de Março, continuará a ser o território que resta à nossa humanidade —
com ela e nela existe a infinita e permanente possibilidade de (re)fazer todas
as representações do mundo e/ou de todos os sentidos outros — o não-dito, o
inaudito e o interdito. Aos poetas, esses legisladores do mundo
não-reconhecidos, cabe-lhes guardar a voz de todos e de todas aquelas que não a
têm — como aquele velho casal que, em toda a sua tragédia, viu cair sobre si
essa enorme responsabilidade que é a de todos os bardos: ser os indivíduos
representativos da comunidade, guardar a sua história, a sua experiência, o seu
“fazer” do mundo.

Digamos assim que, neste ano e neste dia que ora
celebramos, há que esperar o dia em que a poesia seja entendida como algo muito
mais interessante do que a TV. E muito mais surpreendente.

Graça Capinha (Centro de Estudos Sociais) 

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva