A Lampreia não pode justificar tudo!

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Acabei de chegar de França, mais propriamente da região de
Bordéus, onde se encontra sediada a Confrérie de La Lamproie de Saint Terre.

Esta Confraria – com a qual a Confraria da Lampreia de
Penacova tem um acordo de geminação – centra muito a sua actividade numa
perspectiva de grande defesa dos Rios (Riviéres) e seus habitats e, também, dos
seus Pescadores…

Saint Terre, que é uma comunidade do tamanho de Lorvão
freguesia, tem “Le jardin de la lamproie
e o respectivo museu.

Quando aqui refiro estas questões é porque me recordo dos
tempos em que, em Penacova, nossa terra, existiam Pescadores que faziam vida
dessa nobre actividade, o que hoje já não acontece.

Por esse motivo, estou certo, a nossa Confraria, nos seus
estatutos, nem sequer tem a palavra “pescador”; do mesmo modo que também ali
não tem a palavra “ambiente”!

Na realidade, “a
Confraria tem como fim a defesa e divulgação do património gastronómico do
concelho de Penacova em geral e, em especial, da lampreia e da doçaria
conventual
”.

Independentemente disso, FACTO é que a Confraria tem na sua
matriz de pensamento – e ação – a defesa da espécie e, logicamente, a defesa do
ambiente na perspectiva de que a lampreia é um produto gastronómico de
excelência mas, se não se defender a subsistência da espécie, em ambiente
saudável, despolido, sem barreiras – que é como quem diz em rios íntegros – não
haverá gastronomia.

Para nós Confrades – e eu penso poder falar por todos – não
é o mesmo degustar a lampreia dos nossos rios ou degustar a lampreia que nem
sabemos de onde vem…nem em que condições foi “apanhada”, nem em que condições
de salubridade se desenvolveu, nem como cá chegou.

E esta matriz de “educação
confrádica
” é a que faz – e fará – a diferença no futuro:

– defender a gastronomia, SIM;
– defendê-la a qualquer custo, NÃO.

Aqui chegados, perdoem-me relembrar a minha intervenção no
Seminário Mondego Vivo, de boa memória, numa apresentação que designei por
“Penacova: afinal quem somos…e o que é que pretendemos”.

Aí eu tive a oportunidade de fazer a caracterização
sócio-econômica da nossa terra na perspectiva social e demográfica, na
perspectiva económica e empresarial e, ainda, na perspectiva do desenvolvimento
e sustentabilidade.

Apontei a debilidade do nosso concelho:

– reduzida projecção da imagem;
– dificuldades na fixação da população;
– deficit de empreendorismo;
– não complementaridade regional;
– dependência de
transferências públicas!

E, como Estratégia de Desenvolvimento Local, apontei os
Vectores de Desenvolvimento:

– Gastronomia;
– Águas Minerais Naturais;
– Turismo;
– Pesca e Desporto (aventura e lazer);
– Agricultura Biológica;
– Plataforma Logística!

Conclui, então, que as nossas Âncoras de Desenvolvimento
eram: o IP3, a Montanha e o Rio Mondego!

Ousei, também, designar a Lampreia como ex-libris!

Daí para cá, honras sejam feitas, a nossa Autarquia tem
dado passos importantes no caminho certo e eu louvo muito mais do que se possa
pensar esta actuação, difícil mas acertada.

…mas, na minha modesta opinião, ainda não confrontou os
poderes instituídos com a necessidade de um controlo apertado no ambiente dos
nossos rios e, também, na circulação e securizacão do produto gastronómico
“lampreia”!

Dentro da Estratégia de Desenvolvimento Local que tem vindo
a ser seguida, há que “investir”, sim senhor, numa Penacova onde existe boa
lampreia, gastronomicamente falando, mas tudo fazer para ela peixe existir
mesmo por cá…e para se lhe guardar a memória!

Fora dessa perspectiva estamos só a defender o sector da
restauração que, por si próprio, sejamos sinceros, pouco tem feito, a pontos de
pouco ou nada lhe interessar donde é que a lampreia vem!

Há que ter em atenção, também, os processos críticos, ou
seja, o que se identifica em cada momento como handicap a uma determinada
solução:

Recursos (organização, distribuição e reinvestimento
local); ..Inovação;
…Capital social (capacidade de cooperação entre
indivíduos, grupos, organizações e instituições);
…. Governance/ como capacidade institucional para
controlar, fortalecer os mercados existentes ou criar novos mercados;
…. Cooperação institucional e sustentabilidade.

Daí eu
afirmar:

A lampreia não pode justificar tudo.

Penacova, enquanto marca, a sua apreensão pelo exterior, a
sua imagem, as suas memórias, a sua identidade e o seu desenvolvimento, sim.

Não só pode, como deve!


Luís Pais Amante – Mordomo Mor da Confraria da Lampreia de Penacova