CIÊNCIA VIVA – Abril, águas mil

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Sem essa molécula, H2O, sem as propriedades que apresenta
nos diversos estados físicos que se lhe conhecem (líquido, gasoso, sólido), nas
condições de temperatura e pressão características dos vários locais onde a
vida foi encontrada no nosso planeta, sem essa molécula não estaríamos aqui.
Nem eu teria escrito este texto, nem o leitor o está, por ventura, a ler!

Na geringonça cíclica em que a substância água faz mover
informação e energia no nosso planeta, a chuva desde sempre foi necessária para
fertilizar com vida as rochas e terrenos emersos dos continentes, penínsulas,
istmos e ilhas.
No regresso aos oceanos, a água corrente dos rios finais
beija o mar com aromas, compostos, matéria e vida que recolheu e transporta
desde as suas fontes nascentes, desde o local a montante onde brota e nasce
despida, fresca, promessa de vida a jusante.

Logo que a Humanidade se fixou na ideia da “urbe”, assentou
os alicerces junto a cursos de água. Todas as antigas civilizações se semearam,
cultivaram, disseminaram para junto, ou entre grandes rios (Tigre, Eufrates,
Ganges, Nilo, Danúbio, Guadalquivir, Douro, Tejo, Mondego).

Mas sem chuva a trazer de volta água à terra que pisamos, a
miséria instala-se. Se tarda, se demora, se se ausenta quebrando os ritmos
sazonais anuais, seculares, logo se instalam severas preocupações com a morte a
substituir o mar a jusante.
Quase todos ouvimos o ditado popular “em Abril, águas mil”.
Quase nenhum de nós o questiona. É um saber feito de tempo, saber tácito feito
de regularidade passada que teima em se repetir anualmente, pouco tempo depois
do equinócio (da primavera) em regiões acima da nossa latitude até ao círculo
polar árctico.  

Aquele ditado, não existe só em terras lusas. Que se
encontre também em Espanha não é de espantar. Mas que faça parte da “sabedoria
popular” por essa Europa acima, isso já levanta algum espanto (e pede ciência).

Encontramos
o proverbio em França – “les giboulées de Mars” -, no Reino Unido e
Irlanda – “April showers”, “April showers bring May flowers” – e,
exemplo nórdico, até na Noruega – “April bygger”.

O fenómeno meteorológico que alimenta o provérbio assenta
no aumento do período de luminosidade solar incidente de forma progressivamente
mais perpendicular a partir do equinócio da primavera (no hemisfério norte).
Isto provoca um aumento progressivo da temperatura do solo o que causa
evaporação da água (mesmo que pouca devido a outonos e invernos menos chuvosos
– como foi o caso este ano) retida e presente nos interstícios da terra.

Correntes de ar quente e vapor de água ascendem, aumentando
a humidade relativa do ar. Como a temperatura média do ar também subiu, maior
quantidade de água passa e fica na atmosfera (maior humidade relativa),
prenúncio de nuvens, certezas pluviais. Este movimento por convecção de ar e
água provoca fenómenos meteorológicos súbitos que nos “estragam” os passeios
primaveris, mas que redistribuem a água preciosa, minorando os efeitos de secas
nefastas para a maltratada agricultura.

O curioso e certo é que, apesar da seca deste ano, temos
vivido um Abril que faz justiça ao ditado!

Transcrevo, para terminar, o que o Professor António
Galopim de Carvalho me enviou em resposta à minha pergunta sobre o provérbio:
”Os ditados populares são testemunhos de muita sabedoria. São a síntese de um
saber colectivo de gerações. A suposta tendência actual (no nosso hemisfério)
da desertificação estar a migrar para norte, leva-me a pensar que, num passado
geologicamente muito recente, tivemos aqui, no sul da Península, um clima
chuvoso como o da chamada Ibéria Húmida, bem exemplificado no nosso Minho e na
Galiza, clima esse que poderia estar na base do referido ditado.”
António
Piedade

(Agradeço a colaboração do Ricardo Cardoso Reis, na
investigação que fizemos para esta crónica.)
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva
António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência.
Publicou mais 700 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa
portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de oito
livros de divulgação de ciência: “Íris Científica” (Mar da Palavra,
2005 – Plano Nacional de Leitura),”Caminhos de Ciência” com prefácio
de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), “Silêncio
Prodigioso” (Ed. autor, 2012), “Íris Científica 2” (Ed. autor,
2014), “Diálogos com Ciência” (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos
Fiolhais, “Íris Científica 3” (Ed. autor, 2016), “Íris Científica
4” (Ed. autor, 2017), “Íris Científica 5” (Ed. autor) prefaciado
por Carlos Fiolhais. Organiza regularmente ciclos de palestras de divulgação
científica,
entre
os quais, o já muito popular “Ciência às Seis”. Profere regularmente
palestras de divulgação científica em escolas e outras instituições.