ILUSTRES (DES)CONHECIDOS: Álvaro Nogueira (1560-1635)

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“Conversão de S. Paulo”, pintura sobre tela (séc. XVII)
atribuída a Álvaro Nogueira, patente na Sacristia do Mosteiro de Lorvão

É certo que Álvaro Nogueira já
consta da galeria “Gente com História”, no website do Município. O
essencial da sua vida e obra está lá. No entanto, faltará a referência à tela
que se encontra no Mosteiro de Lorvão e que, apesar de não estar assinada,
Vítor Serrão[1] atribui
àquele pintor penacovense. É com base nos estudos deste especialista em
história da Arte sobre Álvaro Nogueira, bem como de Pedro Dias, outro
catedrático daquela área, que acrescentaremos mais alguns elementos, porventura
menos conhecidos.

Álvaro Nogueira nasceu em
Penacova em 1560, filho de Jorge Fernandes e de Maria Fernandes. Fez a sua
formação inicial nos círculos Maneiristas de Lisboa onde se terá relacionado
com Simão Rodrigues[2]. Tendo
como mecenas D. Violante de Castro, condessa de Odemira (Senhora da vila de
Penacova) e D. Nuno de Noronha, Bispo de Viseu (filho do 1º Conde de Odemira,
Sancho de Noronha,) viajou até Roma atraído (tal como um grande número de
artistas estrangeiros) pela florescente produção artística da época na Corte
Papal. Trabalhando nos ateliers sistinos, de elevado desenvolvimento artístico (Papa
Sisto V) e ao mesmo tempo estudando as grandes obras da “Bella Maniera” acabou
por enriquecer a sua formação artística.  

Regressado de Roma, casou em
Penacova com Antónia Lopes e assumiu o cargo de pintor da Universidade e também
da Inquisição. Teve quatro filhos. Um deles, o padre João Nogueira de Carvalho
foi capelão dos Condes de Odemira. Um seu neto, Doutor Bento da Costa Nogueira[3],
filho de Isabel Nogueira, licenciou-se na Universidade de Coimbra. 
Assinatura de Álvaro Nogueira num documento da Universidade de Coimbra (1610)

Enquanto pintor da Universidade
executou diversos trabalhos. A primeira obra terá sido a pintura e douramento
do retábulo maior da Igreja da Misericórdia de Pedrógão Grande. Ter-se-á
seguido o retábulo da Igreja da Misericórdia do Louriçal. Estas duas obras
notáveis, podem ainda hoje ser visitadas. Outros trabalhos, de que nada existe,
foram os retábulos da Igreja do Rabaçal e da Capela de S. Miguel (Igreja Matriz
de Riodades – S. João da Pesqueira). De referir, ainda, o retábulo da Igreja de
Caria (de que resta apenas uma tábua). Por volta de 1629 terá pintado “Repouso
na Fuga para o Egipto”, porventura a obra mais emblemática do pintor, que se
encontra no museu Nacional Machado de Castro. 

Pedro Dias, professor da
Universidade de Coimbra, defende a tese de que as pinturas que se encontram na
Sacristia do Mosteiro de Lorvão e que pertenceram ao antigo retábulo, substituído
no séc. XVIII, são também obra de Álvaro Nogueira, dado que apresentam muitas
afinidades (ao nível do desenho, da cor e da técnica de execução) com a
referida peça do Museu Machado de Castro. Entende também este investigador que,
na época, é mais plausível admitir ter sido um pintor da região a executar a
encomenda da abadessa D. Margarida da Silveira do que vir um artista de fora. A
ser assim, são também da autoria do pintor penacovense as peças “Ascensão da
Virgem”, “Cristo flagelado”, “S. Gabriel, S. Miguel e S. Rafael” e “S. Pelágio
e S. Mamede”

Pedro Dias não faz referência à
“Conversão de S. Paulo”, pintura sobre tela, que se encontra também em Lorvão. No
entanto, Vítor Serrão atribui a sua autoria a Álvaro Nogueira, dado que “é
cópia fiel, ainda que invertida e simplificada” da pintura com a mesma
designação que se encontra na Capela Frangipani em S. Marcelo al Corso (Roma)
da autoria dos irmãos Frederico e Tadeu Zucaro. Defende que, não sendo obra
passível de translado, só podia ser fruto de um estudo “de visu”, neste caso,
de Álvaro Nogueira quando esteve em Roma. Outras obras, segundo João Alves das Neves -invocando a opinião de Vítor Serrão – pertencerão a Álvaro Nogueira, designadamente, duas tábuas existentes no  Mosteiro de S. Pedro, em Folques, representando S. Domingos de Gusmão e Inocêncio III. 

Vítor Serrão entende que Álvaro Nogueira, apesar de ter adquirido uma posição
social de destaque, foi uma figura “menor” no campo da arte, reconhecido mais
pelas relações de poder e de proteção do que pelas suas qualidades artísticas.

 Por outro lado, Pedro Dias defende que Álvaro
Nogueira foi um artista de primeiro plano, mesmo que a nível regional, quer
pelas obras que realizou quer até pelos preços que praticava, e não um pintor
qualquer, um mero artífice ou auxiliar.
Nos últimos catorze anos de vida foi
Familiar do Santo Ofício, o que ainda reforçou mais a sua posição social. Morreu em Penacova no ano de 1635,
onde se pensa, vivia desde 1597.

[1] Vítor
Serrão, professor catedrático, especialista no estudo da pintura portuguesa
renascentista, maneirista e barroca, autor do artigo “La vida ejemplar de Álvaro
Nogueira , un pintor portugués en la Roma de Sixto V (1585-1590)”
 Pedro Dias,
catedrático, historiador de Arte, autor de “Álvaro Nogueira e a Pintura
Maneirista de Coimbra”.
[2] Álvaro
Nogueira terá mantido essa relação pois se pensa que, mais tarde, colaborou nas
grandes obras realizadas em Coimbra por Simão Rodrigues e Domingos Serrão.
[3] Matriculou-se
em Cânones, em 1658. No conjunto de Tombos (1500 a 1696) do Cartório do
Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, consta o seguinte documento: “TOMBO DO DR. BENTO DA COSTA NOGUEIRA DOS
ENCABEÇAMENTOS DE PROPRIEDADES DE DIVERSAS FREGUESIAS”