ILUSTRES (DES)CONHECIDOS: José António de Almeida (1819-1901)

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A poucos dias do feriado municipal, em que se evoca o
nascimento de António José de Almeida, não vamos falar deste político e
estadista republicano, relativamente bem conhecido dos penacovenses, mas de seu
pai, José António de Almeida, que foi vereador nas presidências de Alberto
Leitão e de Alípio Leitão e Presidente da Câmara de Penacova entre 1887 e 1892.
“Dotado de uma inteligência perspicaz exerceu os mais altos
cargos do concelho com proficiência superior à sua ilustração”. A sua vida foi
um exemplo de “benemerência cívica” que “fica indelevelmente registada na
história da nossa terra” – escreveu o articulista do Jornal de Penacova,
por ocasião da sua morte.
José António de Almeida nasceu a 13 de Janeiro de 1819, no
lugar da Venda Nova de Baixo, freguesia de S. Pedro de Alva. Filho de António
de Almeida e de Maria Joana. Ainda criança, partiu para Évora, onde trabalhou
como empregado de comércio. Por volta de 1836 regressou às origens e montou uma
destilaria de aguardente no Porto da Raiva, quando aquela terra ainda
conservava o estatuto de importante entreposto comercial. Durante as convulsões
políticas da Patuleia capitaneou o Batalhão de Voluntários de S. João de
Areias, sob as ordens do Conde de Antas. Contemporâneo de João Brandão (para
uns, herói, para outros, assassino das Beiras) por este terá
mesmo  sido ameaçado de morte.

A sua carreira política começou com a ligação ao Partido
Histórico. Mais tarde integrou o Partido Progressista e por fim aderiu ao
Partido Republicano em 1890, desiludido com a Monarquia que sempre servira.
Isso mesmo invocou quando na Sessão da Câmara colocou o seu lugar à disposição,
dizendo:

Nunca tinha
pensado que na idade de setenta anos e que tendo empregado na maior parte deles
as minhas forças na sustentação e defesa da monarquia e liberdades pátrias, me
havia de fazer Republicano! Realizou-se, porém, este pacto desde que, no dia
vinte e cinco de Junho último, vi que uma sentença injustificadamente rigorosa
condenava em três meses de prisão o meu filho António José d’Almeida,
arrancando-mo dos braços e aferrolhando-o na cadeia pública; acrescendo para
maior mágoa minha, o espectáculo altamente condenável da polícia civil de
Coimbra acutilar barbaramente a generosa e patriótica academia e o nobre povo
daquela cidade, quando acompanhavam e faziam uma calorosa manifestação de
simpatia àquele meu filho. Convenci-me então que era um alto dever de
consciência, deixar para sempre, de prestar o meu apoio a uma instituição em
que há leis que permitem o atrofiamento da liberdade de expressão do pensamento
e maltratar impunemente quem, na melhor ordem, prestava generosa homenagem a um
rapaz cujo único crime era manifestar as suas ideias num momento em que
Portugal passava por uma crise angustiosa.

Do casamento com Maria Rita das Neves Almeida, teve oito
filhos, destacando-se aquele que viria a ser Presidente da República de 1919 a
1923.

Casa de família de José António de Almeida,


Durante dezoito anos serviu o município, como vereador e
presidente. Mesmo com as dificuldades dos maus caminhos (vivendo em Vale da
Vinha, tinha de atravessar o Alva e o Mondego, quando ainda não existiam
pontes) poucas vezes terá faltado às reuniões. Exerceu funções de Juíz do
antigo Julgado de Farinha Podre, e também em Penacova. “Inteligente e
erudito” – refere o periódico local – “apesar de não ser
bacharel “assinava jornais de jurisprudência e dava consultas aos amigos e
vizinhos.” Mantinha relações estreitas com pessoas do mundo do Direito. Pelo
registo de baptismo de seu filho António José, ficamos a saber que o padrinho
fora António dos Santos Pereira Jardim, lente de Direito.
Morreu no dia 1 de Novembro de 1901. Pessoa muito estimada,
teve cerca de duas mil pessoas no funeral. As cerimónias fúnebres foram
presididas pelo Dr. Alípio Barbosa Coimbra que, no discurso no cemitério de S.
Pedro de Alva, disse emocionado que José António de Almeida fora o “último
representante dos velhos filhos da Casconha que deram a esta terra brasões de
honra, fidalguia e trabalho”.
Na sessão de 5 de Novembro a Câmara Municipal, presidida
por José Albino Ferreira aprovou um “voto de sentimento” e em 1902, o
mesmo órgão, agora presidido por Daniel Silva, deliberou atribuir ao largo
principal[1] de S. Pedro de Alva, o nome de “Largo
José António d’Almeida”.

David Almeida

[1]
Actualmente o Largo Principal tem o nome de Praça Mário da Cunha Brito, sendo o
nome de José António de Almeida relegado para o pequeno espaço, à direita,
antes de entrar na Rua David Ubaldo, em direcção ao Paço Velho.