ILUSTRES (DES)CONHECIDOS – Evaristo Lopes Guimarães (1857-1926)

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Família Lopes Guimarães na revista “O Ocidente” (1913).
Um deles será Waldemar da Costa, o futuro pintor luso-brasileiro.
Evaristo Lopes Guimarães faz parte daquele conjunto de
penacovenses que merecem ser recordados e conhecidos, não por se terem
distinguido na política, nas artes ou nas letras, mas pelos seus gestos
de benemerência em favor dos seus conterrâneos.

Nasceu em Lorvão por volta de 1857. O seu pai, João Lopes
Guimarães, era oriundo de Coimbra e cobrador do imposto da água (Real
d’Água). Nas suas deslocações àquela terra conheceu Emília, sobrinha do Prior,
natural de Lavos e pertencente à família Guimarães Pedrosa. Casaram e fixaram
residência em Lorvão e abriram uma loja de comércio. João Lopes colaborava
também com as monjas tratando de alguns negócios ligados ao Mosteiro.
Morreu em 1902. Fora também vogal da Junta e Vereador.

É no seio desta família que nasce Evaristo. Com cerca de 13
anos emigrou para o Brasil, indo trabalhar, no Estado do Pará, numa firma alemã
do ramo da exportação de borracha. Foi nesse florescente campo de actividade
económica que Evaristo Lopes Guimarães se afirmou, chegando a ser um dos
maiores e mais considerados empreendedores na cultivo e indústria da
borracha nos férteis campos de Manaus.

No Brasil fez considerável fortuna. Regressou a Portugal
por altura da Implantação da República, fixando residência em Lisboa onde
mandou construir um palacete (em Manaus deixará também um palácio que se tornou
célebre na medida em que serviu de modelo aos palácios de José Ribeiro da
Cunha, no Rio de Janeiro e em Lisboa, hoje classificado como imóvel de
interesse público). O palacete de Lisboa, ainda hoje existente, situava-se na
zona de Picoas, no centro da capital. A família do Comendador Evaristo Lopes
Guimarães destacou-se na alta sociedade lisboeta. A prestigiada revista
ilustrada “O Ocidente” dedicou-lhe algumas páginas, elogiosas e acompanhadas de
algumas fotografias.

Chegado a Portugal teve também o cuidado de restaurar a
casa de seus pais em Lorvão, transformando-a em “luxuosa residência”, onde
permanecia muitas vezes durante o Verão.

Em 1907, Oliveira Matos manifestou na Câmara dos Deputados
“a vergonha de não haver estrada” para Lorvão, solicitando ao Ministro das
Obras Públicas habilitação para gastar um donativo de um “benemérito daquela
terra” no valor de 3 000$000 (“três contos de réis”). Esse benemérito era
Evaristo Lopes Guimarães. Assim, foi possível, a partir de 1911, ir de carro
a Lorvão o que fez aumentar consideravelmente as visitas ao Mosteiro. A
título de curiosidade refira-se que que o primeiro automóvel a chegar a Lorvão,
via Sernelha, foi o de Evaristo Lopes Guimarães no início daquele ano.

Também S. Pedro de Alva lhe deveu (e a José Maria de
Oliveira Matos) a construção do edifício que em 1914 foi oferecido à Câmara
Municipal para aí ser instalada a Estação Telégrafo-Postal. A inauguração do
espaço teve lugar a 25 de Outubro de 1914. Ainda há não muito tempo existia na
parede daquele prédio uma placa com o nome daqueles beneméritos. Cremos que no
momento já não se encontra naquele local.

Este lorvanense apoiou também outros melhoramentos
(restauro da sala de Sessões da Junta) e legou à Misericórdia de Penacova
5000$00. A família Guimarães (em especial a esposa do Comendador) apoiava
também muitas famílias necessitadas, com vestuário e géneros alimentícios.

Oliveira Matos terá chegado a propor o título de Conde para
Evaristo L. Guimarães, mas este não terá aceitado. No entanto, por alvará
régio, foi agraciado com a Comenda de N. Sª. da Conceição de Vila Viçosa.
Palacete de Evaristo Lopes Guimarães na zona de Picoas, em Lisboa
(inícios do séc. XX)

Evaristo Lopes Guimarães teve 6 filhos. Do primeiro
casamento com Anacleta da Costa Guimarães: Aurora (nascida em Lorvão), Diva e
João. Do segundo casamento com Francisca Guilhon de Oliveira da Costa Guimarães
(meia irmã de Anacleta): Edgar, Arlindo e Valdemar, nascido em 1904. Waldemar,
depois de grandes desentendimentos com o pai, renunciou ao apelido Guimarães.
Viera, aos seis foi com a família para Lisboa. Frequentou a Escola
Superior de Belas Artes mas, descontente, abandonou-a e seguiu para Paris. De
volta ao Brasil, em 1937 fundou a Família Artística Paulista. Teve uma vida
artística e social muito intensa, quer no Brasil, quer em Portugal. Morreu no
Rio de Janeiro em 1982.

Aurora, que nascera em Lorvão, comprou a casa dos
seus antepassados nesta localidade. Era casada com Luís Barbosa de Oliveira,
estabelecido no Pará, Brasil. Por sua vez, teve um filho que também esteve
muito ligado, quer na vida pessoal, quer social, à terra do seu avô, onde
morreu: Edmar Guimarães de Oliveira.

Evaristo Lopes Guimarães tem o seu nome gravado na placa
toponímica da rua principal de Lorvão. Um jazigo estilo Arte Nova (1905), da
autoria do escultor João Machado, no cemitério da Conchada, acolheu os seus
restos mortais em 1926.

David Gonçalves de Almeida