ILUSTRES [DES]CONHECIDOS – António Alves Mendes da Silva Ribeiro (1838-1904)

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Gravura de 1888 (Pontos nos ii)

António Alves Mendes da Silva
Ribeiro nasceu em Penacova (fez ontem 181 anos) no dia 19 de Outubro de 1838. 
Fez estudos eclesiásticos
em Coimbra, onde se formou em Teologia em 1859. 
Uma vez ordenado sacerdote terá
exercido alguma actividade pastoral na freguesia de Val de Remígio, no concelho
de Mortágua.

Em 1863 foi nomeado Cónego da
Sé do Porto. Nesta cidade foi Professor de Teologia Pastoral e Eloquência
Sagrada no Seminário Diocesano.


Deste penacovense ilustre
dirão as enciclopédias portuguesas mais credenciadas que as suas peças
oratórias se caracterizavam pela “torrente metafórica,
exuberante imaginação e opulência plástica da linguagem”. 



Sobre Alves Mendes escreveu
também o jornal de Rafael Bordalo Pinheiro, “Pontos nos ii “, por ocasião da
trasladação de Herculano para os Jerónimos:


O verbo entusiástico do
eloquentíssimo orador elevou-se correcto, artístico, literário, ora bramindo de
vibrações metálicas, ora suspirando de maviosíssimos acordes, assombrando
quantos o ouviram, petrificando quantos o escutavam, crentes e não crentes – os
apóstolos da religião de Deus, como os apóstolos da religião do Belo!
Assombroso! “


A sua “carreira” de grande
pregador, ter-se-á iniciado com o sermão “gratulatório” integrado  no “Te Deum” que se realizou na Sé do Porto em
1861 por ocasião da aclamação do Rei D. Luís. 



Muitos outros se lhe seguiram.  Por ordem cronológica, são de referir:

– Sermão em Acção de Graças
pelo termo da Guerra do Paraguay e pela vitória das armas do Brasil (1870)
-Pátria – Discurso alusivo à
Inauguração do Monumento aos Restauradores de Portugal (1886)
– Discurso nas Soleníssimas
Exéquias de Fontes, mandadas celebrar pelo Centro Regenerador do Porto, na Real
Igreja da Lapa, aos 28 de Março de 1887.
– Crença e Carácter. Discurso
no Templo dos Congregados do Porto, Festa das Dores, 1892
– A Questão Suprema. Discurso
no Templo dos Congregados do Porto, Festa das Dores, 1893
– Herculano. Discurso no
Templo de Belém. Trasladação das Cinzas do Grande Historiador. 28 – 6 – 1888

Alves Mendes discursando na Trasladação de Herculano para os Jerónimos.
Pormenor de desenho de Rafael Bordalo Pinheiro.

– A Epopeia Portuguesa (Crença
e Pátria). Discurso na Real Basílica da Batalha comemorando a trasladação das
cinzas de D. Afonso V, D. João II, D. Isabel e infante D. Afonso (em
28-11-1901). Publicado em 1902.


Algumas das peças oratórias
deste eminente pregador régio foram publicadas (1889) em “Discursos: inéditos e
dispersos (1886-1888).”


A sua última pregação, dada a
sua já debilitada saúde, terá sido em 8 de Dezembro de 1903,, na Igreja de Santa
Cruz de Coimbra. 
Nesta cidade, discursara
também, em 1883, na sessão inaugural da Academia Conimbricense de Santo Tomás
d’ Aquino, a par do Bispo, Manuel de Bastos Pina. Perante cerca de 500 pessoas
falou da “influência do ideal cristão sobre o progresso”.


Também costumava discursar nas
Comemorações da Batalha do Buçaco. Disso mesmo nos dá conta o
 jornal “O Conimbricense”. Conta-se que já
era tradição no final destas cerimónias, montado na égua branca do “ti Joaquim
Cabral Velho”, acompanhado do compadre José Craveiro, rumar a Penacova, onde
no dia seguinte abria as quatro sacadas da sua casa para receber os conterrâneos e admiradores que lhe iam apresentar as boas-vindas. Sempre que ia
pregar ou participar em cerimónias no Algarve, no Alentejo e em Lisboa
aproveitava para, na passagem, descansar uns dias na sua terra natal, onde
vivia a irmã Altina. Eram frequentes as sua idas à Chã, passando pelo
Mont’Alto, para visitar os primos “Ribeiros”.


Além dos sermões desta “figura
eminente das letras portuguesas”, deste “burilador de frases” e “joalheiro da
linguagem” – nas palavras de Alexandrino Brochado, reitor da Capela das Almas
(Porto) –  outras obras se encontram
publicadas:


– Itália. Elucidário do
Viajante. 1878
– O Priorado da Cedofeita.
1881
– Os Meus Plágios. 1883
– Tomista ou Tolista? 1883
– Os Meus Plágios. 1883
– Um Quadrúpede à Desfilada.
1884
– D. Margarida Relvas. 1888
– D. António Barroso: Bispo do
Porto. 1899
De referir ainda as suas
interessantes crónicas de juventude na imprensa regional. No jornal “O
Conimbricense” publicou, quando estudante em Coimbra, um “Folhetim” com o
título “Umas Férias em Penacova”.


O Cónego Alves Mendes foi
Provedor da Irmandade das Almas, na Rua de Santa Catarina (Porto) e pertenceu
às Ordens da Trindade, do Carmo e às principais Irmandades do Porto.


Do Rei D. Carlos, recebeu em
1902, a Mercê de Arcediago de Oliveira. Conta o “Primeiro de Janeiro” que, no
final do Discurso no Mosteiro da Batalha, o rei “mandou felicitá-lo ” e comunicar “que o promovia de Cónego da Sé Catedral do Porto à dignidade de Arcediago da
mesma Sé, com o título de ‘Arcediago de Oliveira’ “. 



Igualmente noticiou o “Jornal de
Penacova” que  na sua casa na vila foi felicitado por muitas pessoas e pela
Filarmónica Penacovense que “executou, à sua porta e em casa, alguns trechos de
música, surpresa que muito o penhorou e comoveu”.


Colaborou em imensas revistas:
Anátema, Caridade, Nova Alvorada, Correspondência do Norte, Braga-Bom Jesus,
Cáritas, A Federação Escolar, Sobre as Cinzas, Kermesse, A Máquina, Filantropia
e Fraternidade
, entre outras.


Alves Mendes privou com Camilo
Castelo Branco, tendo, inclusivamente,  tido
um papel preponderante no  casamento tardio do escritor, em 1888.


De 1935 a 2001 foi Presidente
Astral da Filial de Petropolis (Brasil) do Racionalismo Cristão. Daquela filial,
onde se encontra  a “Sala de Estudos
Alves Mendes”, é também Patrono Espiritual.


Morreu na Rua Alexandre
Herculano, no Porto, onde residia, no dia 4 de Julho de 1904. Foi sepultado no
cemitério do Prado do Repouso. No testamento que deixou, pediu para ter um
funeral discreto “sem o menor aparato fúnebre” que, conforme escreveu, “é uma
vaidade miserável e vazia de sentido elevado e ponderoso.”


António Alves Mendes da Silva
Ribeiro (conhecido no seu tempo em todo o país como Alves Mendes) foi
considerado pela revista “Biblos” como grande “trovador do púlpito” e “jongleur”
admirável da palavra santa”. A sua fama de eminente orador “generalizou-se e radicou-se”
sendo “com razão” considerado como “uma das maiores ilustrações do púlpito
português” – escreveu ainda o “Primeiro de Janeiro” por ocasião da sua morte.


O reconhecimento de Penacova
circunscreveu-se à atribuição, em 1902, do seu nome a uma das ruas do centro
histórico da vila: Rua do Arcediago Alves Mendes. Achamos insuficiente. Alves
Mendes é a figura penacovense com maior projecção nacional, não apenas no século
XIX. 
 Mas, como recordou  A.
Brochado, “o tempo vai diluindo a memória de todos, mesmo dos vultos mais
eminentes.”