SÃO PEDRO DE ALVA – [R]epensar o luto a partir do saber científico e da prática clínica

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A Fundação Mário da Cunha Brito, de São Pedro de Alva, a
partir do projeto concelhio que coordena,
Contrato Local de Desenvolvimento
Social
, de que espera aprovação em breve, desafiou a comunidade local para uma
conversa onde se pretendeu [re]pensar a realidade do luto. Tendo como convidado
o Doutor Eduardo Carqueja, psicólogo no Centro Hospitalar Universitário de S.
João [Porto], na área dos cuidados paliativos, a sessão decorreu no salão da Junta
de Freguesia local, no dia 3 de novembro. Tratando-se de uma realidade
incontornável da vida humana, os promotores entenderam proporcionar um tempo de
reflexão enquadrado neste período temporal em que a sociedade coloca a questão
em agenda de um modo mais claro e sensível, nomeadamente com a tradicional
visita aos cemitérios.

A partir do saber científico e da prática clínica, Eduardo
Carqueja sublinhou que falar de luto é falar de vida. Somos inevitavelmente
tocados pela morte de outros. Trata-se de um mistério que assusta e do qual,
por isso, evitamos falar. O problema é sempre a vida, o que não se fez ou não
se disse. Assim, há que fazer e dizer.

Num contexto como o nosso, o convidado exortou a que se
pense o espaço como elemento de criação de identidade. Em concreto, no
pós-incêndio de 2017, estamos a viver processos de identificação a espaços
novos. As reconstruções são necessariamente ‘outra coisa’ que não o espaço
anterior, que ‘era nosso’, mesmo se com piores condições.

Outra nota, num território envelhecido como este, tem que
ver com a necessidade de dar qualidade de vida até ao fim a quem vive uma fase
adiantada da vida e se começa a confrontar com as perguntas sobre o sentido que
a sua vida teve e a memória que vão ou não guardar de si. Um dos desafios passa
por possibilitar aos mais velhos uma esperança realista e não ilusória, que
possa ajudar a definir pequenos objetivos para o momento seguinte. Para isso,
importa não massificar a relação de ajuda, mas conhecer a biografia e a
circunstância de cada pessoa.

A morte não é uma questão de aceitação, dado ser uma
realidade factual e incontornável. Não se altera o facto de alguém ter morrido.
Resta trabalhar a memória de quem morreu e que, nesta dimensão emocional, não
morrerá nunca. Eduardo Carqueja sublinha que isto não é uma idealização, dado
resultar da vivência concreta que experimentámos. Podemos ainda ir trabalhando
antecipadamente, preparando a vida até que a morte chegue, nomeadamente
cuidando das relações, por exemplo, dizendo às pessoas importantes que
realmente o são.

A sessão percorreu ainda questões de comunicação e
expressões desumanizadoras que se usam como lugares-comuns vazios. O convidado
exortou a não omitir docemente a realidade da morte às crianças, facilitando a
informação adequada à idade e os momentos queridos por elas, nomeadamente nos
velórios, sem lhes transmitir conceitos geradores de disfuncionalidade. Foram
enunciadas e partilhadas questões ligadas à fé, à cremação, à distinção entre
luto adequado e desadequado, à necessidade de cuidados com os cuidadores, à
urgência de centrar as preocupações na qualidade de vida das pessoas e não
tanto nas estruturas…

Cumpre, numa nota avaliativa, sublinhar a reduzidíssima
participação da comunidade. Talvez o hábito diminuto de reflexão explique. Ou a
delicadeza de um tema que se quer adiar e se silencia. Ou a coincidência de
eventos e alguns ruídos de comunicação, que impedem uma divulgação mais ampla e
adequada. Persistir, sem desistir, não deixando de propor e convocar, sabendo
que o número é só um elemento, será o caminho mais sensato.

[Re]pensar o luto convoca ao confronto com as questões
essenciais da vida. E as respostas não são fáceis ou acabadas e serão sempre
pessoais. Pensar sobre isso, significará oferecer ferramentas para que o
caminho das interrogações se faça de um modo mais consistente.