Outros sinais do Natal

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A decoração é como o algodão: não engana! A luminosidade,
mesmo se ofuscante e esteticamente questionável, já virou regra e talvez mesmo
critério de progresso e cidadania. A sonoridade, mesmo se repetitiva e
monótona, tornou-se uma inevitabilidade comunitária. A solidariedade, mesmo se
de ocasião, emerge agora de um silêncio inativo e com honras de publicidade. A
convivialidade comensal [empresarial, institucional, associativa…], mesmo se
descuidada um ano inteiro, entope agora as agendas e aquece vidas marcadas por
acentuado arrefecimento relacional.

Mais dramático que um ópio coletivo, uma esquizofrenia
comercial socialmente generalizada, um ‘amanteigamento’ temporário dos
corações, é tudo isso adormecer o pensamento, empobrecer os projetos, amolecer
as atitudes.

De que falam/podem falar estes/os sinais do Natal?

De nascimento. Parece inevitável. E pensar o nascimento
implica pensar a relação, a entrega, a comunhão. Esta metáfora da intimidade é
transplantável para o espaço público. Sozinho ninguém origina um nascimento
consistente de coisa nenhuma.



Resulta daqui a necessidade do cruzamento de
sensibilidades, com a convicção que só do encontro com o diferente nasce o
novo. Assim, uma sociedade civil alimentada pelos emparelhamentos dos iguais,
das mesmas cores, das mesmas castas, das mesmas geografias, é um espaço
condenado à indefinida e infinita repetição. Atender aos nascimentos, será,
ainda, olhar todos os que ficaram pelo caminho, marginalizados, no lado
supostamente ‘derrotado’ da história feita sempre pela narrativa dos vencedores,
e lutar por oportunidades que favoreçam o seu justo renascimento.

De natalidade. A sua baixa taxa será o maior problema de
uma interioridade territorial sem gente. Seguramente uma questão de economia,
do âmbito da atração de emprego, no essencial, esta é também, e de modo
estruturante, uma questão cultural. Respeita ao modo como nos pensamos enquanto
sujeito[s], família[s] e sociedade. Mais como indivíduos e menos como pessoas.
Mais como liberdade e menos como relação. Mais como instante e menos como
projeto. Mais como autonomia e menos como solidariedade.

De naturalidade. Nascemos sempre num ‘algures’ e isso não é
irrelevante e neutro. O ‘donde somos’ marca ‘o que somos’. Por vezes, isso significa
desigualdade, em razão de se ter nascido em lugar menor, sem apelido de nomeada
ou sem património condizente. E, assim, aparece o imperativo social da
‘diferenciação positiva’, em função da reposição da igualdade originária.
Outras vezes, a naturalidade pode ser ‘escutada’ significando o modo como
atuamos. Com mais naturalidade, afirmando a coerência como valor, a fragilidade
como alavanca de transformação, a humanidade como património comum que nos
iguala. Ou com mais artificialidade, em razão do interesse de retorno ou  do reconhecimento dos destinatários Todas as
vezes, naturalidade deve equivaler a identificação, connosco mesmos, com os que
são comunidade conjuntamente e com o território que nos serve de chão e de lar.
Sempre na recusa do unanimismo monocórdico, assumindo que a riqueza do comum é
um espaço construído na polifonia de vozes.

De nascidos. As hipóteses académicas auxiliam a
fundamentação e a arquitetura do pensamento. Mas o conceito teórico de
nascimento obrigará inevitavelmente ao cuidado prático com os nascidos. São
sempre frágeis que não se bastam a si mesmos. E, como tal, paradigma de uma
Humanidade constituída por pessoas constitutivamente auto-in-suficientes. Já
agora, o nascido aponta para uma nascente e tal encadeamento permite-nos pensar
a vida como uma dinâmica histórica, onde ganhamos a consciência da nossa
relatividade individual e da parcialidade que é o nosso tempo. Vivemos o
intervalo entre a história que nos gerou e o futuro que vamos gerando. Somos
simultaneamente nascidos e nascentes. E isso ativa a memória e a gratidão, ao
mesmo tempo que provoca a esperança e a responsabilidade.

Finalmente, talvez valesse a pena regressar à razão de ser
última desta festividade social. Mesmo num quadro exclusivamente humano e
histórico, não há como iludir a desvirtuação da raiz e como não perceber um
apelo subliminar a tornar secundária toda esta ‘quinquilharia’ que asfixia o
essencial.


Luís
Francisco Marques

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