O Interior entregue a si mesmo

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Nota prévia: O simpático convite que o Pedro Viseu me endereçou para escrever algumas crónicas no “Penacova Actual”, tendo-me lisonjeado, também gerou alguma apreensão. 

Lisonjeou porque me julgou capaz de escrever alguma coisa com interesse para os leitores do Penacova Actual; gerou apreensão porque não é fácil escrever e muito menos sobre uma terra interiorizada, com problemas estruturais que medem décadas e que a passagem do tempo nem sempre mitigou da melhor forma ou, pelo menos, da forma que a maioria das pessoas desejaria.

Depois, para não ajudar por aí além, estou um pouco afastado de Penacova, há praticamente uma década.

Seja como for, o convite foi aceite e, portanto, aventurar-me-ei a, mensalmente, alinhavar algumas frases que submeterei aos muitos leitores deste jornal online, não vassaladas a quaisquer ideologias ou posições políticas, sempre de mão dada com a visão livre do seu autor e que apenas a ele se vinculam.
Volto a Penacova, não pelo IP3, agora vergado a uma “obra de regime” e ainda menos recomendável para ser frequentado, mas pelas estradas municipais, aquelas que nos entregam o concelho real, fora do alinhamento discursivo que faz sempre o retrato conveniente.

Nas pequenas aldeias, poucas pessoas na rua. Sempre mais silêncio, aqui e ali cortado pelo latidos dos cães, de um outro resistente galo a cantar… Apesar de todas as definições da ruralidade poderem ser (ainda) aplicadas, algumas delas sofrem pelas transformações sociais e económicas que, por arrastamento de circunstância, acabam por modificar o próprio ar das aldeias e lugares.

Em praticamente todas e todos, as Capelas, quase sempre organizadas no meio do povoado, quase sempre reflexo da capacidade e da vontade dos seus habitantes em venerar um Santo Padroeiro, também quase sempre de acordo com a dimensão dos lugares.

Num périplo recente, uma delas me chamou a atenção, ao ponto de me ter desviado da estrada principal, aventurando-me na estreita subida que lhe dá acesso. 

A pequena capela do Casalito é o exemplo claro de um pequeno templo – parece quase “de brincar”… – prostrado no meio do casario. Nos poucos minutos em que permaneci junto a ele, não vi ninguém e aldeia estava entregue a um relativo e liso silêncio, sempre vigiada pelas voltas das torres eólicas sobranceiras, recentemente colocadas no alto da serra e apenas manchado pelo barulho dos carros no IP3 que corta a encosta pouco acima.

Não entrei no templo (estava fechado…) cujo exterior, aliás, ainda apresentava restos de festa em honra da sua Santa Luzia. Mas o tempo passado a contemplar e a registar as formas da pequena Capela revelaram na formulação, a crescente desertificação das aldeias. Uma desertificação talvez “temporária”, subjugada aos horários de trabalho dos seus habitantes, mas reveladora de que uma boa parte destes lugares onde o tempo parece querer esconder-se nas breves esquinas, está entregue a si próprio. Nas hortas circundantes, igualmente ninguém e em muitas leiras de terra, sinais dramáticos de abandono, a conjugação negativa de fatores que subvertem a toda largura da definição da ruralidade, pelo menos como até há pouco a conhecemos.

Retirei-me do pequeno largo pensando:  Até quando é sustentável esta nova definição de ruralidade?

Penacova, não sendo dramaticamente interior, sofre todos os problemas da interioridade que está, cada vez mais, entregue a si própria e a uma certa fatalidade do tempo.

Será esta realidade reversível?

Ironicamente, só o tempo o dirá.



© António Luís