As Capelas

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Já na crónica do mês passado abordei, en passant, a presença de pequenas capelas nas também elas pequenas povoações do concelho.
Para além das igrejas-matriz construidas nas sedes de freguesia, praticamente todas as povoações e/ou lugares ostentam a sua capela. Algumas não são mais do que pequenos templos, sem pretensioso arrojo visual/arquitetetónico, sempre mais ou menos de dimensão proporcional à população residente e em alguns casos, a arquitetura e a maior ou menor riqueza dos seus interiores refletia/reflete a maior ou menor riqueza dessas povoações e lugares.
Como também é fácil perceber, quase todas estão dedicadas ao santo (ele ou ela) podroeiros, uns mais conhecidos do que outros, todos venerados pelo menos uma vez por ano, por altura dos “Grandiosos Festejos” em sua honra, anunciados por entre bailaricos, quermesses e patrocínios, em cartazes coloridos.
Nessas ocasiões, lá saem os santos padroeiros, acompanhados por uns quantos outros, a quem o povo, na sua devoção e simplicidade, rendia e rende mais ou menos sentidas homenagens aquando das “solenes” procissões que percorrem as principais ruas das aldeias.
Mas o que me faz voltar, novamente, à temática das pequenas capelas, não é tanto a análise sociológica, socioeconómica ou antropológica à sua implantação e existência. Não possuo qualquer formação que me permita não escrever nenhuma asneira sobre isso e, como está bom de ver, não é por aí que vou nesta crónica.
Um certo “fascínio” que as capelas me suscitam tem como base, tão só, a minha experiência pessoal e, volvidas várias décadas, as memórias que congrego sempre que me vejo diante de um desses pequenos e simples templos.
Na aldeia onde cresci, neste concelho, existe uma capela, estrategicamnte colocada no centro do povoado e que foi reconstruida, se não estou em erro, entre os meados e o final da década de 70. Do edifício original, guardo muito poucas imagens. Elas estão praticamente todas plasmadas na nova e atual construção.
A povoação, na altura da minha infância, teria uma população que rondaria, sem falhar muito, as duzentas e cinquenta almas. Não se podia considerar um pequeno lugar. Era já uma aldeia bem povoada, uma das mais populosas da freguesia.
E a capela era – como ainda é – a referência maior da povoação.
Lembro-me, por exemplo, de um dos dois sinos tocar a rebate quando, algures por perto do povoado, no verão, era avistado um foco de incêndio e logo a população largava tudo para o ir combater; do toque das horas, com o outro sino, o principal, em pancadas simples, quase secas, sem melodias e se o relógio atrasado, logo o ácido povo a criticar o mecanismo que marca o tempo ou a opção pela compra e fiabilidade daquele relógio…

E em maio, no “mês de Maria”, com as mulheres e uns poucos homens que “bichanavam” e cantavam à virgem de Fátima, todos os 31 dias do mês e por onde incontáveis vezes espreitei pela porta entreaberta, o zelo respeitoso dos crentes; as mensais missas dominicais, com os homens maioritariamente no “côro” – uma plataforma uns 3 metros acima do piso principal e para onde se subia por uma estreita escada – respeitosos, solenes, de chapéus nas mãos, enquanto as mulheres mais expressivas, dedilhavam terços por entre os segredos dos seus escuros e rendilhados xailes, no piso térreo. Aliás, não se viam mulheres no tal “côro”, algo que hoje daria motivo a imediatas acusações de sexismo…
A capela quase sempre cheia, até com gente na rua porque não cabia dentro…
No entanto, a implacável marcha do tempo e as alterações sociais foram retirando pessoas do interior daquela capela e, no presente, menos gente, menos missas, menos praticamente tudo o que tenha a ver com a presença humana…
Só a anual festa (ainda) fornece sol e ar fresco à estatuaria dos santos, aos ombros das gentes, pelas ruas da povoação, acompanhadas de vestidos e fatos de festa, da banda de música e, antes de todas as cautelas dos fogos, pelos foguetes que pontuavam a atmosfera festiva.
Na maior parte dos dias, os pequenos templos permanecem fechados, embrulhados nas suas próprias sombras e nos seus insondáveis silêncios.
Cumpriram e ainda cumprem o seu papel, no presente seguramente diferente, mas sempre relevante. Quanto mais não seja porque há sempre alguém interessado na sua contemplação e na reconfortante ação de arrumar as memórias que, sendo património pessoal, só são possíveis porque as pequenas capelas são património de todos.
Nota: Aqui fica a sugestão para a a área cultural do Municipio de Penacova…
Porque não o levantamento de todo esse património edificado e a sua inclusão, de alguma forma, nos roteiros turísticos do concelho.


© António Luís – 2020