Ruínas no fundo dos vales

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Para quem lê e é
sabedor que, deste lado, está alguém cujo ato da escrita é mais ou menos
diário, pensará que é fácil encontrar assunto para uma crónica mensal.
Aliás, há O assunto
que nos tem submergido com as suas pandémicas águas… Contudo, por uma questão
de qualidade do ar que se respira ou, neste caso, das águas em que nos banhamos
e porque não me incluo na inesperada turba de especialistas, virologistas, epidemiologistas,
pendemiologistas
nem
sei se a palavra existe, mas arrisco…
analistas e outros
“istas” do mercado, não será por aí que irei. Por norma não falo ou não escrevo
sobre matérias sobre as quais não tenho qualquer domínio. E entre a asneira e o
silêncio, escolho sempre este.
Há também o recente
sobressalto cívico ocorrido no Largo do Terreiro da vila com consequências e
carambolas que nem os melhores sociólogos se atrevem a tentar explicar, mas…
…Prefiro dar
sequência ao modus das primeiras duas crónicas com que regressei ao
Penacova Actual.
Uma das
características de Penacova  é,
evidentemente o seu relevo. Irregular, feito de montes e vales e, nestes, no
seu recorte mais pronunciado, as ribeiras. Umas mais vigorosas do que outras,
conforme as águas que recebem e o inclinado do seu trajeto.
Em algumas, aquelas
cujas águas se mantêm
cada
vez mais é apenas possível dizer… mantinham
grande parte do ano,
a presença das Azenhas é uma marca demasiado histórica, demasiado carregada de
tantas memórias que é inevitável que as não esqueçamos.
No meu livro
“Memória de Pedra” que publiquei no final de 2015, dedico-lhes várias páginas,
escritas sobre as quase puerís impressões que elas me suscitaram e ainda
suscitam… Como esta:
“(…)Ao lado do
asno, em guarda de honra, o Senhor Rodolfo, de cabelo grisalho, roupa escura
coberta por uma fina camada de farinhas, as sobrancelhas, as orelhas, as
pestanas e os olhos piscos dos pós e por vezes no topo da cabeça um boné ou um
chapéu, colocado sem demandas de espelho e ao jeito da gravidade. E com tudo isto,
quase sempre uma cara sorridente e rasgada e as palavras todas fáceis a
saírem-lhe da boca entre assobios ao azimute errático do asno.
Era fácil
imaginá-lo junto à mó, auscultando a queda do cereal, as mãos a medirem a
finura das farinhas
    
mais água ou menos água  no
mecanismo das mós
e as mós loucas a esfregarem-se uma na
outra numa volúpia de pedra, às voltas, a água estridente na roda
    
o Burro no pátio, paciente, sacudindo as orelhas e a cauda à teimosia
das moscas
o vento nas árvores a contar histórias
de onde vinha pelo mundo, o silêncio do vale, os grãos de milho amarelo e a
farinha por isso amarelada e mais áspera, a mó às voltas, o cheiro a farinha
como se um nevoeiro de aromas, o Burro no pátio a zurrar três vezes e o assobio
do senhor Rodolfo
    
– Cala-te!
depois o trigo e a farinha mais
acastanhada, a azenha isolada embrulhando-se na noite e uma candeia a petróleo,
pendurada na ferrugem de um prego meio enterrado num barrote(…)”
Provavelmente, uma boa parte, talvez
uma demasiado boa parte, presentemente, mais não é do que um conjunto de ruínas
mais ou menos disformes, cobertas de silvas e de toda a sorte de matos, ao
abandono e cujas memórias se diluem e misturam no fino pó do tempo. Memórias de
um tempo diferente, em que a relação do Homem com a natureza era, também ela,
diferente, provavelmente mais pacífica e respeitadora.
Em tempos de não abundância de
dinheiro – aquele que quase tudo permite – falar em recuperar algumas azenhas
parece até ofensivo face ao que aí vem – no pós-pandemia – e às prioridades
(por vezes legitimamente questionáveis) da gestão dos municípios…
Se não estou em erro, já se falou em
tempos na criação de uma “Rota das Azenhas”, mas creio que tudo permaneceu
apenas no sempre bem frequentado plano das intenções. A realidade, para o bem e
para o mal, tem uma agenda própria, que ninguém controla e que nem sempre
corresponde ao nosso desejo ou expectativa.
Mas é pena, porque a passagem do tempo
tende a terraplanar tudo. Os vestigios físicos e as memórias que soçobram à
extinção das gerações que (ainda) as guardam como pequenos tesouros.

© António Luís – 2020

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