REFLEXÕES – [des]Entendimentos e entediamentos

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Período antes da ordem do dia, com alguma irritação camuflada

Tenho-me esforçado por ‘proibir’ a minha mãe de ver mais que um
serviço informativo por dia. Em regra, tento que se resigne à conferência de
imprensa ‘oficial’, com as respetivas perguntas. Depois, exorto-a a ler e a
ouvir música. Pelo meio, algum entretenimento televisivo, como meio de
desanuviar.
Dentre tanto bem, tanta beleza, tanta humanidade, alguns [des]Entendimentos
[assim, com minúscula, porque os Entendimentos é que importam] colocam no ar [e
dentro, no que a mim respeita] alguma irritação que, mesmo camuflada, pode ser
tóxica para a saúde individual e coletiva. Porque entediam. E adiam o que
importa!
Circula no senso comum e na nuvem digital uma historieta que
envolve um velho, um rapaz e um burro. O velho ‘conduz’ o burro e o rapaz vai
montado no animal. Na primeira aldeia por onde passam, quem vê a cena não
hesita na opinião crítica, que argumenta que o rapaz podia muito bem ir a pé,
permitindo ao velho que se poupasse e montasse 
o burro. Acolhendo a opinião pública, os viajantes invertem as posições.
Na segundo aldeia, os locais que observam a cena também não hesitam na
reprovação, sustentando que não é aceitável que o frágil rapaz tenha de puxar o
burro e o velho. Os personagens voltam a ceder ao comentário alheio e decidem
montar os dois o jumento. Na terceira aldeia, os populares erguem-se em defesa
do asinino e expressam a sua indignação pela exploração insustentável do bicho.
Assim, o velho e o rapaz decidem prosseguir a pé. Na quarta aldeia, os
habitantes erguem a sua voz de descontentamento, argumentando que ao menos
algum deles se podia poupar, montando o animal. Regressaram novamente à
primeira versão… E, na quinta aldeia, retornou o ciclo das críticas. Faça-se o
que se fizer, haverá sempre alguém, cuja profissão é ‘criticar coisas feitas’,
que erguerá a voz a dizer que ‘está mal’. No final, vamos regressar aqui.
A ‘hiper informação’ contemporânea pode ser esquizofrénica.
Manter diretos, debates, comentadores e acrescentar à televisão a galáxia da
internet, no tocante à emissão asfixiante de conteúdos fará colapsar as mentes
com filtros menos apurados. Ficamos com a impressão que, em muitos espaços
‘informativos’ [?], se discute a pandemia montando um cenário semelhante ao dos
debates de bola que poluem todas as noites [em circunstâncias normais] as
nossas televisões e destilam ódios parolos pelas redes sociais. A contabilidade
escalpelizada das últimas mortes, dos testes, das máscaras, das luvas, dos
fatos, dos ventiladores, das camas, dos lares, das regiões… As infindáveis
opiniões, científicas, partidárias, políticas, económicas, comerciais, dos
agricultores, dos vizinhos, dos amigos, dos [des]conhecidos… Diante da imagem amplamente
repetida, em câmara lenta, como se da análise de um fora de jogo se tratasse,
irritam-se as mais variadas posições ‘doutrinais’ mascaradas de verdade.
Estaria na altura de convidar académicos para comentar notícias e impedir os
‘media’ de se/nos asfixiarem com comentadores que defendem uma agenda
partidária e, já agora, clubística.
Alguns, e mesmo pessoas com muita responsabilidade, erguem a voz
para pronunciar esta coisa primária e acéfala que a ‘culpa’ é da esquerda, da
direita ou do centro, como se num qualquer destes algures, existam eles sabe-se
lá onde, estivesse a exclusividade da virtude e da sensatez e o outro algures
detivesse o monopólio da burrice ou da incompetência. Já só ‘metade’ da
população é que ‘acredita’ nesta forma de fazer ‘partidarismo’, porque nem
política isto se pode chamar, e é porque os aborrecem a cada quatro anos [com a
obrigação de votar]. De contrário, talvez o cenário fosse pior e já tivéssemos
acordado!
Outros, mesmo sem fazerem muita ideia do que significa o conceito
de Mercado, de liberalismo, de social democracia, desconhecendo o que sejam as
ideias base dos pensamentos de Adam Smith, Keynes ou Hayek, têm a solução
definitiva para este macro problema e apenas não a pronunciam porque ninguém
lhes perguntou. Basicamente pensam o mundo como uma ‘mercearia’, com livro de
calotes e coluna de deve e haver e o que pretendem é fazer funcionar o elevador
do poder em proveito próprio, com uma finalidade que sacrifica os meios.
Talvez bastasse escutar o treinador do Liverpool, em 11 de março
último. Basicamente, disse, irritado com uma pergunta sobre a sua opinião sobre
o novo vírus, que sabia alguma coisa de tática de futebol. Quanto ao vírus, que
fizéssemos a nossa parte e deixássemos trabalhar e escutássemos quem sabe.
Felizmente, vivemos um tempo de gigantescos avanços científicos.
Com impressionante celeridade, desenvolvemos um conjunto de procedimentos
científicos de escrutínio da origem do vírus e de resposta à mitigação das suas
consequências nefastas. Ainda assim, infelizmente, a ciência não resolve o
medo! Aqui entrarão a cultura e as religiões. Escutávamos numa tertúlia em S.
Pedro de Alva, em 21 de fevereiro, da boca do Luís Ferreira [Festival Bons
Sons], que a cultura não era a cereja no topo do bolo, mas sim o próprio bolo! Sendo
tempo da confiança e da esperança, não das religiões infantis e ateias dos
castigos divinos, esta é também a ocasião da estética, da arte, do belo… São
‘bens de primeira necessidade’, porque formam por dentro, dão consistência e
coluna vertebral àqueles e àquelas que hão-de vencer esta pandemia: as pessoas,
nós! Se a par do que é básico, da esfera do económico-financeiro, a Política
não entender esta outra dimensão da vida, talvez acerte ao lado. Os caminhos de
superação da crise social que ai virá serão uma cosmética paliativa, se
esquecerem os protagonistas da sociedade: as pessoas. Esta pode ser uma
possibilidade de alterar paradigmas. Dos políticos espera-se decisão, mesmo
sabendo que haverá sempre uns a defender o velho, outros o rapaz, outros o
burro. Que tenham, sem autismos, paz e interior e exterior para decidir com
coragem. Uma verdadeira cultura democrática respeita o tempo e não vive sôfrega
do instante efémero. Nós, que nos mantenhamos ‘no mundo’, de filtros depurados
e que cultivemos o [bom] gosto e a [boa] interioridade. Trará saúde. Agora e
depois.

Luís Francisco Marques