Domingo de Ramos

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Neste Domingo de Ramos
Andamos
Todos muito pensativos
E também andamos, alguns, muito desiludidos
É dia da paixão de Cristo
Nosso Deus
Para os que não somos ateus
E é dia de reflexão, de apego à união
A quadra Pascal aproxima-se
Com sentimento carnal
Com sofrimento
E vêm-nos, em fantasia, a recordação do tempo do nosso tempo
em Penacova
Na nossa meninice
E na juventude
Era dia de festa, de alegria interior
Até os mais pobres ganhavam aí mais cor
Manhã cedo cortavam-se os ramos
De azinho
Ou de oliveira
A família juntava-se em oração para lhes dar decoração
Faziam-se fitas de tremoços
E de bolachas
Tudo sem grandes remorsos
Erguiam-se as fitas no Terreiro da terra em exibição
Corria-se para o adro da Igreja
Matriz
E rezava-se com ardor feliz
O Povo estava unido em oração e em procissão
Não havia diferença na crença
Nem na obediência
Todos éramos bons seguidores
A benção era aguardada com ansiedade
A Vila engalanava-se
E orgulhava-se
Da sua Festa daquele dia diferente, omnipresente
A procissão, intemporal, era grande no tamanho e na crença
As janelas enfeitadas de cobertas, mandando papelinhos
As portas com rosmaninho cheiroso
As ruas com passadeiras de aspecto – e trabalho – extremoso
A fé era ardente e consistente
O Senhor Padre não precisava
De nos alertar
Para o ar emproado e nefasto da avareza
Pois ali, diante de si, ao tempo, só havia pobreza!
Hoje, passados todos estes anos
Regressei
À Festa do Domingo de Ramos
E, aqui na cidade grande, senti-me um menino protegido
A assembleia cristã estava colorida e bonita
Bem organizada
Ali, na Igreja de Santa Isabel
E o Pastor do rebanho estava, à nossa frente, desprendido
Alertando para o malefício
Do desperdício
Instruindo para a missão da prática do bem como compromisso
Era o meu Padre Amigo José Manuel
Que tem o dom pastoral de me acalmar a idade
Refrescando-me a alma
E sabe-o fazer com firme tranquilidade
Aleluia!

Luís Pais Amante

Telheiras Residence
20Mar16, 18h15
Poema esboçado na missa da Igreja de Santa Isabel, em Lisboa,
recordando a minha terra, Penacova.