Envelhecimento, Quando?

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Para
muitas pessoas, é uma angústia permanente pensar no envelhecimento. As pessoas
acham que nem chegam a esta fase, outras consideram que vão ter problemas
mentais e têm medo, sobretudo da solidão.

Envelhecemos
sem prevenção, sem o cuidado para envelhecer bem. O importante não é só que as
pessoas envelheçam, mas que passem por essa experiência de modo satisfatório,
com autonomia, independência e qualidade de vida. No envelhecer, queremos
qualidade de vida. Precisamos naturalmente de alimentar uma cultura que passa
por ensinar aos mais novos que devemos envelhecer bem. É crucial educar as pessoas
para envelhecer melhor. As pessoas devem olhar para si e compreender as
mudanças que estão acontecendo consigo para criarem estratégias de adaptação a
esse novo momento de vida que é o envelhecimento. Ter consciência da passagem
do tempo é necessário para o bem viver.

Quando
se percebe o processo de envelhecimento, temas como morte e finitude começam a
se fazer mais presentes. Assim, é importante que, em vez de negarem o
envelhecimento e a finitude, as pessoas entendam esse processo, já que ele é
inevitável. A maioria das pessoas não gosta de falar, nem de pensar que tudo um
dia acaba, que o bom termina e o ruim também. Quanto mais contrariadas ficarem
com a perspectiva da finitude, mais doentes emocionalmente ficarão e menos
envelhecerão com saúde.

Aceitar que tudo tem início, meio e fim
auxilia a desfrutar melhor a vida e a vivê-la em sua plenitude. Por isso, urge
compreender quando surge o envelhecimento.

Desde
o seu aparecimento na terra, quiçá desde Adão, o homem busca dois objectivos
até hoje por conquistar: a vida eterna e a juventude perpétua.

Atingir
uma idade muito avançada de 122 anos e seis meses vividos pela francesa Jane
Calment, falecida em Agosto de 1997, ou sequer aproximar-se dela, foi até hoje
privilégio de muito poucos. 
Durante milhares de anos, a esperança de vida do
homem não ultrapassou os vinte anos. Os oitenta anos, que hoje nos países mais
desenvolvidos exprimem essa esperança de vida, são uma conquista do século XX
que devemos, incontestavelmente, aos enormes avanços na área social, mas
sobretudo, na área dos cuidados de saúde.


Passar
a fasquia para os 100 anos é objectivo passível de ser atingido no decurso do
próximo século.
No
respeitante à longevidade máxima, ultrapassar os 120 anos de vida não parece
ser, face aos conhecimentos científicos actuais, conquista em tempo previsível.

Mas
se este é por agora o limite temporal da vida humana e portanto do
envelhecimento, em que idade se inicia este processo?

Dizer,
como comummente se diz, que se inicia com o nascimento é só meia verdade. As
alterações orgânicas e funcionais conhecidas do estudo das progérias,
particularmente das síndromes de Werner, de Hutchinson-Gilford e da síndrome de
Down, mostram que as alterações da senescência podem ocorrer desde o momento da
concepção, consequentes de anomalias genéticas mas também de agressões
ambientais ao embrião em desenvolvimento.

Outra
questão é a de perceber a partir de que idade se tornam realmente visíveis os
sinais de envelhecimento, orgânico ou funcional. Se bem que os sinais possam
evidenciar-se já na infância ou na adolescência, tal facto não é generalizado.
É a partir dos 20 anos, no final da fase de crescimento, que na pele e a nível
da microcirculação arterial se tornam claramente visíveis sinais de senescência
celular.

Macroalterações
significativas, de carácter orgânico e funcional, tornam-se perceptíveis pelos
40 anos. Iniciam-se por diminuição cognitiva, particularmente mnésica e pela
claudicação de alguns sistemas orgânicos com particular incidência nos
aparelhos cardiocirculatório e neuro-sensorial. É por volta dos 40, 50 anos que
a maioria das pessoas começa a sentir os efeitos do processo de envelhecimento,
embora se deva ressalvar que o
 envelhecimento começa em um
momento diferente para cada pessoa.

A verdade é que
vários são os factores que afectam o tempo de vida das pessoas.

As idades,
cronológica, biológica, psicológica e social são relevantes e importantes para
a compreensão do processo de envelhecimento, mas não para a sua determinação,
pois a velhice é apenas uma fase da vida, como todas as outras, e não existem
marcadores do seu começo e do seu fim.

Quando
se leva em consideração somente a idade cronológica, está-se falando apenas da
passagem do tempo sob o aspecto numérico, ao invés de considerar o
envelhecimento como um fenómeno mais amplo no qual outros factores participam e
podem contribuir na variação das tempestades da passagem do tempo.

O envelhecimento é um
processo complexo e multifatorial. A variabilidade de cada pessoa (genética e
ambiental) acaba impedindo o estabelecimento de parâmetros. Por isso, o uso
somente do tempo (idade cronológica) como medida esconde um amplo conjunto de
variáveis. A idade em si não determina o envelhecimento, ela é apenas um dos
elementos presentes no processo de desenvolvimento, servindo como uma
referência da passagem do tempo. E por hoje escolhi para terminar esta crónica
o poema “ Não importa a Idade “ de
Liduína Felipe de Mendonça
Fernandes.

Não importa a idade

Terceira idade, idade da
sabedoria e da experiência!
Vida que merece ser vivida,
Não importa a idade.
Terceira idade, vida que merece
ser bem vivida, curtida.
Vida que merece respeito,
carinho e atenção
De todos que um dia, também
lá, chegarão.
Vida que exige família,
renda, saúde e educação.
Moradia, ocupação e diversão.
Com Deus sempre presente em
cada coração
Para que a vida seja vivida
com dignidade e satisfação.
Terceira idade, porque não
aceitá-la?
Por que não enfrentá-la?
Por que deixá-la passar se
cada estação da vida
Tem o seu perfume, o seu
encanto
E a sua luz que faz a vida
brilhar?
É preciso ter sempre consigo
a esperança
E a vontade de lutar
Pelo direito à vida, que é
sagrado, mas que é necessário conquistar.
Terceira idade, vida que
merece respeito, carinho e atenção
De todos que um dia, também
lá, chegarão.
Precisamos, pois,
sensibilizar com mais fervor
Família, poderes públicos e
sociedade para que entendam
Que não basta fazer leis, se
na prática, esquecem de aplicar.
Que não basta falar de amor,
solidariedade e atenção
Se os que estão na terceira
idade,
Ainda sofrem o peso da
discriminação,
Do desrespeito e o não
reconhecimento do seu valor
Como gente, cidadão.
Não importa a idade,
Cada estação da vida merece
ser vivida com dignidade
E satisfação.
Terceira idade, caminhemos de
mãos dadas
Envolvendo crianças, jovens e
adultos,
Família, poderes públicos e
sociedade
Buscando construir colectivamente
O sonho de uma realidade,
Para que a pessoa idosa seja
vista como gente
E não como um fardo a ser
carregado.
Seja vista como cidadã que
pensa e pode ser útil e competente
Se a sua vida for com
dignidade preservada.
Terceira idade, vida que
merece ser vivida, não importa a idade.