Páscoas possíveis

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Donde partimos? Um dos critérios que mais decisivamente marca um debate é o ponto
de vista a partir do qual os intervenientes observam o mundo. Aos olhares mais
imediatistas, pode parecer retórica, mas deixar subentendido e não clarificar
explicitamente este posicionamento de base mina a discussão, esbate as
dinâmicas que dela decorrem e dispersa as possibilidades de envolvimento de
outros. Quem serve comunidades pode exercer esse ministério estritamente por
mandato legitimador, como quem possui a solução perfeita, inevitável e
definitiva dos problemas, seja por ideologia, seja por capacidade tecnocrata. Outra
possibilidade é servir os outros porque partilha com eles os mesmos problemas.
No fundo, trata-se de perguntar se olhamos o mundo desde o centro ou a partir
da periferia.
Repartimos? Vivemos uma oportunidade de refontalizar o nosso modo de ser
pessoas e comunidades. É curioso que o verbo ‘repartir’ se possa escutar com o
sentido de partilhar e voltar a sair. Regressar à fonte para repartir creio ser
um eficaz programa para a estranheza que nos habita atualmente. O caminho não
será claro. De resto, sem a tensão da encruzilhada, sem a metódica dúvida que
estimula a reflexão e o diálogo, a existência tende a domesticar-se. E os
projetos a resumir-se a sobrevivência biológica e manutenção acrítica. Ou então
a sensacionalismo esquizofrénico, incapaz de parar, que se desgasta numa
vastidão de atividades inconsequentes. As ‘frases bonitas’ que pululam os
episódios que nos são dados agora viver precisam de ser crentes, mas igualmente
credíveis.
Saímos? Experimentamos, com tendência crescente, uma amplitude de
escombros existenciais, a reclamar artesãos de outras alvenarias. Carecemos,
para tal, de caldear o recurso à melhor ciência, com um saber de quotidianidade
feito, que desinfete os espaços públicos, sem descurar perfumar as histórias que
têm rosto. Para tal, o apelo à estrada ecoa, sem que a nossa ação sucumba ao
sedentarismo como doença e aos maus hábitos que decorrem como efeitos
secundários das cadeiras onde nos sentamos. Quem serve arrisca, sabendo que não
está impermeabilizado contra a fragilidade, mas consciente que somente pode
alimentar o seu serviço da trepidação das pessoas reais. Esta dinâmica não se
sustenta da fé no ‘milagre’, porque é este que nasce daquela e não o inverso.
Transformamos?[1] ‘Sonho com
uma opção dinâmica, de ‘saída’, capaz de transformar tudo, para que os
costumes, os estilos, os horários, a linguagem e todas as estruturas sociais se
tornem um canal proporcionado mais ao crescimento humano do mundo atual que à
auto preservação.[2]
O autor é o Papa Francisco, líder global de um mundo só globalizado no[s]
centro[s] e a gerar novas periferias desumanas e silenciadas. Este tempo tem de
valer a pena, ainda assim, e de ser ante câmara para o novo que segue. O Povo
habituou-se a uma dor silenciosa e paciente, recolhida e calada em si. No
entanto, se explode, essa dor é grito e choro. E as lágrimas não se resolvem.
Só se enxugam. O líder que partilha a vulnerabilidade com os seus e não se
sente senhor da solução experimenta isto mesmo, ao mesmo tempo como fraqueza e
força. Do que não temos agora, nada estaria efetivamente a mais e tudo faria
realmente falta?
Vivemos [como novos]? Ou regressamos ao de sempre, à espera da próxima crise, ou
mudamos costumes, estilos, horários, linguagens, estruturas… Talvez tenham de
se esquissar por aqui algumas das inteligentes opções futuras, radicalmente
novas. De repente, por exemplo, parece que a escuta é uma gigantesca
descoberta, mesmo em instituições peritas em humanidade. Talvez tenhamos
esquecido as pessoas no emaranhado burocrático de modelos institucionais. A
experiência ‘pessoa a pessoa’ emerge como novidade, em detrimento das opções de
massa. Quem sabe quantas pessoas foram silenciadas com os nossos formatados e
oficiais atendimentos! As opções marcadas pela contenção ocupam agora o espaço
do espalhafatoso. Não pode não ecoar a interrogação se muitos dos ajuntamentos
não serviam mais o ego dos ‘ajuntadores’ que os interesses dos ‘ajuntados’. De
repente, as redes sociais generalizaram a comunicação e o diálogo, em
detrimento do destilamento de ódio e do desenvolvimento da ciência oculta
da ‘achologia’. Para quê [e sobretudo para quem?] tantos locais, nomeadamente
públicos, abertos às mesmas horas em que toda a gente trabalha? Porquê o enfado
multiplicado de tantas reuniões, quando se percebem agora múltiplas
possibilidades de agilização de decisões insuficientemente exploradas?… Ter
resposta para o que quer seja implica, como condição de possibilidade lógica,
que tenha existido algures alguém a fazer uma pergunta. Que as há, há. Resta
saber se [como, onde, de que modo…] há alguém que faça da escuta uma opção
permanente. Creio que apenas o fará conveniente, se, de algum modo, partilhar a
pergunta com o seu interlocutor, e não se assumir apenas como senhor da
resposta.
As ‘páscoas’ possíveis, deixadas à intuição de cada um… Felizes,
ainda assim.

Luís Francisco Cordeiro Marques


[1]
Em período pascal, podemos usar as formas verbais ‘Passamos?’ [Páscoa significa
Passagem] ou ‘Ressuscitamos?’.
[2]
Trata-se de uma ‘apropriação laicizada’ do nº 27, da primeira exortação
apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium [A alegria do
Evangelho
].