O Futuro foi Ontem

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Recentemente, numa
conversa virtual
      – A
possível às mãos da presente situação
recordei com um
amigo e conterrâneo o estado de abandono do núcleo antigo da nossa aldeia que,
como outras no concelho, é composto por casas coladas umas às outras, ladeando
a rua e onde, há décadas, fervilhava gente por serem todas habitadas
       – Miudos, jovens, adultos, velhos, carros
de bois, tratores, cães e gatos, rebanhos e por vezes, uma ou outra galinha que
aproveitava o desacerto ou a distração de um portão aberto, até ser remetida à
relativa clausura do seu pátio pela dona ou dono. E cada um conhecia as suas
galinhas e as misturas ou enganos não aconteciam facilmente.
e frases do género:
    
     – OH Ti Maria, anda uma galinha sua na
rua!
eram normais, faziam
parte do ADN e do amontoado de sons que preenchiam de vida as ruas.
As casas, portanto,
confinavam com a rua, era possível conversar de porta para porta, de janela
para janela. E tudo se ouvia, de umas casas para as outras. Muitas vezes o que
se podia e queria, noutras nem tanto. A noção de privacidade era algo relativa,
como é, presentemente, às mãos da voluntária exposição que praticamos nas redes
sociais, ainda que estejamos fisicamente menos próximos.
Atrás das casas –
zona habitada – surgiam os pátios onde havia currais e, ainda mais atrás, os
quintais e as terras de amanho de onde vinha muita coisa para as mesas –
batatas, feijão, couves, cebolas, nabos, alfaces, tomates, salsa, pepinos, abóboras,
laranjas, maças, cerejas, ameixas, pêssegos, etc…
Vivia-se assim.
Escuso-me a dizer se era melhor ou pior – cada um faça o seu juízo – mas era,
seguramente, diferente!
Essas casas foram
ficando abandonadas em paulatinas fases caucionadas com a saída dos filhos para
as suas próprias casas, na mesma aldeia nuns casos, para outros lugares,
noutros, e pela incontornável morte dos resistentes, normalmente já velhos.
Voltando à minha
aldeia, e como em tantas outras, passar hoje no seu núcleo primitivo é uma
experiência dolorosa. As casas lá estão, umas em melhor estado do que outras,
muitas – demasiadas, talvez – já sem ninguém dentro, entregues à correria dos
ventos e aos ecos de coisa nenhuma. Dentro delas, provavelmente só retratos
cobertos de pó e teias de aranha e muito silêncio. As memórias, até essas se
foram com os últimos habitantes, relegadas para a eternidade das respetivas
tumbas. Os últimos “Tis” e as últimas “Tis”!
As aldeias estão
agora feitas ou continuadas, digamos, no pressuposto da casa no centro de um
relvado ou jardim, afastadas da estrada e mais afastadas umas das outras, assim
o espaço o conceda em maior ou menor escala. As pessoas passaram a viver menos
comunitariamente e mais ensimesmadas. Os empregos fora – nas cidades próximas –
fazem de muitas aldeias pouco mais do que dormitórios e o afastamente das casas
da estrada/rua e umas das outras reflete o próprio afastamento das pessoas
    
     – Que até agora o mal fadado vírus veio
sublinhar…
a necessidade de
fugir ao ruído constante dos carros rua acima, rua abaixo, do quase
desconhecimento que temos uns dos outros e que construimos – também – por um
certo “auto-isolamento” que depois tentamos mitigar no uso das redes sociais,
sempre aptas a terraplanagens do que não é terraplanável e que, tudo bem
ponderado, nos pouparia uma série de coisas de que hoje tanto nos queixamos.
O meu amigo da
conversa virtual deixou, quase no fim, a ideia da necessidade de preservar e
recuperar as casas antigas, algumas delas com valor suficiente para voltarem a
ser dignas e para nelas, quem sabe, voltar a viver gente que contrarie uma
série de – perdoem-me os leitores a eventual violência do termo – “frases
assassinas” do género: “belos tempos; tantas boas memórias; fomos tão felizes
ali; que saudades!; tempos que nunca mais voltarão!”
Não sei que papel (ainda)
nos cabe no meio disto tudo. Falamos sobre isto, no caso escrevemos sobre isto
e, no fim, as coisas seguem o seu caminho, seguramente alheias aos nossos
lamentos, sobretudo se não passarem disso.
O curso da História
ditará as suas leis na pouco confortável certeza de que o futuro, foi ontem.
© António Luís – 2020