25 de Abril como folclore?

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Eu fui um dos privilegiados que “lutaram” para que o 25 de
Abril fosse um facto incontornável da democracia em Portugal!
Eu, há minha modesta maneira, estive na chamada luta contra
o fascismo e, por via disso, sofri na pele essa ousadia …
Tenho, felizmente, no meu naipe de amizades, muitos -mas
muitos- daqueles que puseram em risco as suas vidas, as das suas famílias e as
suas carreiras. Fui, inclusive, advogado de Militares de Abril que foram altamente
prejudicados, nomeadamente quando foram preteridos nas suas promoções e isso
fê-los passar à reserva dita compulsiva.
Ouvi lamentos; conferi manipulações de avaliações; experimentei
consternações de familiares (mulheres, filhos, pais) sobre essas agruras
inadmissíveis.
Trabalhei de perto com pessoas que se passaram a achar
incompletos sem farda …
Ainda hoje tenho para mim que, para que os políticos, seus familiares,
amigos e afilhados, terem vidas acima do normal, num país pobre, os militares
constituem uma classe que, objectivamente, pouco ganhou -financeiramente
falando- com a sua intervenção gloriosa.
Na generalidade, os militares estão hoje pior!
Nas pensões; nos seus acessos; nas regalias sociais post
reforma ou reserva; no apoio à vida familiar e, inclusive, na assistência
médica, medicamentosa e familiar.
Daí eu já ter -há muito tempo- deixado de me exaltar com
essa farsa pública que se vai repetindo na Assembleia da República.
Não, meus Senhores: não é por se falar no 25 de Abril que
ele se dignifica; nem é por se engalanar a AR uma vez por ano, que ela dignifica
-e respeita- esse dia que a memória de um Povo Heróico vai perpetuando,
justamente por ser um dia glorioso, fruto de sacrifícios, de resistência e de
tenacidade!
Mas vejamos:
– O tempo que todos vivemos -sem sequer podermos enterrar os
nossos mortos- permite a comemoração rotineira na AR?
– O 25 de Abril, em si e na sua doutrina identitária,
quererá constituir-se como excepção às regras -correctas- do estado de
emergência?
– Os fervorosos Militares de Abril -todos com idades de
risco e muitos com comorbilidades- estarão dispostos para dar a sua benção, colaborando
neste folclore?
– E a austeridade aconselha estes gastos, normalmente
sumptuosos?
Eu tenho para mim que não!
Mais, eu penso que nem os ex-presidentes da República, na
sua arguta inteligência aí irão estar/participar.
Estará o Presidente Marcelo (meu ex professor?
Vejo esta aberração como aquela outra que pôs, recentemente,
os Senhores Deputados em layoff, mas recebendo ordenados e regalias por
inteiro.
Por tudo isto eu entendo que o modo mais digno de, este ano,
se comemorar o 25 de Abril, é fazendo-o em casa, com quem está confinado
connosco e não colaborando com uma opção triste que fará com que o 25 de Abril
venha a ser recordado, futuramente, como adepto daquelas excepções que vão
tornando o nosso País como uma anedota pegada.
!25 DE ABRIL EM CASA! é pois a única opção sensata. O resto
será folclore barato dos que teimam em transformar a democracia num rol de atitudes
que os auto-beneficiem e os auto-promovam!
Luís Pais Amante

1 COMENTÁRIO

  1. Caro Luís Amante

    Tenho pena, mas não estou de acordo contigo. O "folclore" de que falas é outra coisa diferente. Se se tratasse de folclore uma sessão da AR — a câmara de representantes da democracia, que surgiu em 25 de Abril de 1974 — então, sim, concordaria. Mas não é assim. De resto, todos os dias se deve prestar homenagem à democracia e à extinção da ditadura. É por isso que a AR continua a reunir-se, assim como o nosso PR exerce as suas funções presidenciais, o Governo governa e nós, cidadãos, apresentamos as nossas opiniões e formulamos as nossas críticas. Com certeza que todos lamentamos os nossos mortos e lamentamos também não poder ir ao seu funeral e abraçar os seus familiares, tenham esses mortos falecido ou não de COVID19. Assim sucederá amanhã com o meu amigo João Duarte que não morreu com o Coronavírus, mas de uma doença estranha que o atormentava há muito. Ainda agora eu e os seus amigos assinámos um documento com lágrimas para ver se os jornais o publicavam, mas não estarei amanhã com a sua família, para o recordar, nem sequer no crematório de Taveiro. Todavia, também assinei o texto de homenagem ao 25 de Abril com muitos que têm sido responsáveis pela vida da democracia, mesmo quando discordam de tantas das suas posições. A Democracia não se adia — como é costume dizer. Devemos saudá-la, com as nossas dúvidas sempre que ela se comemora, como devemos saudar os outros feriados que marcam momentos significativos da história nacional e da humanidade. Os nossos mortos, como o João Duarte (excelente médico e cidadão exemplar, que lutou contra o chamado Estado Novo), só nos saudariam por isso.

    Mas, obviamente, respeito a tua opinião. Isso constitui, de resto, o princípio fundamental da Democracia.

    Um abraço amigo

    Luís Reis Torgal