Celebrar [atualizadamente] 26 de abril de 74 e dias seguintes

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Talvez como todos, somos um povo de ambivalências. Descobridores de mundos e mares novos e velhos na praia do Restelo, num paralelismo contraditório. Começo por declarar que nasci em 78. A abril de 74 devo, ainda assim, ter nascido, porque, por sua causa, o Valentim regressou de Moçambique, casou com a Maria dos Anjos e, nessa união, geraram-me e tornaram-se meu pai e mãe. Agradeço a liberdade que me alimenta e a coragem concreta de tantas e tantos, com sangue e vida, que admiro e não creio que tivesse.
Sempre apreciei, talvez alimentado por este ‘sub consciente filosófico’ o pensamento [prático] da transgressão e da fronteira, laboratório de mudança, alfobre de heterodoxias [é errado que a palavra seja antónimo de ortodoxias], sémen de futuros. Dos fios de história que desembocam no estuário de abril de 74, invejo, de inveja boa, não ter vivido a Coimbra académica de 69, não ter cantado [desafinado] com Zeca e Adriano [já grande, convidei para ouvir perto, à minha responsabilidade e não sem ‘preços’, Pedro Barroso, Sérgio Godinho, Francisco Fanhai]. Orgulha-me pessoalmente que muitas destas conquistas tenham as rugas dolorosas e felizes de rostos de um Crist[o]ianismo, cimentado na imitação de um homem que mudou a história para sempre, a partir da mesa de uma refeição fraterna. Considero que nasci na sonolência e, algumas vezes, desejei/o umas catacumbas de clandestinidade, onde um pacto de verdade fraterna pudesse conduzir a uma revolução. No deve e haver, evidentemente que não troco os excessos deste meu tempo [que também os tem!] e as suas letargias, que parecem esconder tanto que há para conquistar, por uma só tortura ou censura de antanho.
Escrevo no dia 1 de maio, porque sempre me intrigou o 26 de abril de 74 e os dias seguintes. À época, seria consensual que o perigo do regresso do fascismo era uma possibilidade. Outros resvalamentos questionáveis se poderiam seguir. O primeiro de maio alavancou a iniciativa militar e ancorou-a na voz de um povo que passou a ter vez. Mas, e
os fascistas, onde estavam de repente? Num ápice, parece que eram… uns três!
Sou dos que acredita profundamente na capacidade de conversão da pessoa. Mas tanta, e tão depressa!? Deste modo, o pós-revolução talvez tenha prosseguido em cúpulas de pensamento [neo doutrinador?] e em ‘novas clandestinidades’ de verticalidade coerente, resistente e persistente. Em paralelo, uma certa tendência para a ‘cosmética social’ superficial, talvez tenha criado a ilusão que tudo acontecera de forma célere e fácil.
«O estado a que isto chegou» [hoje] creio que desvela muitos bastidores subentendidos, que denotam ecos de «orgulhosamente sós» [nacionalismos provincianos], de «repressão» [ideias de securitismos musculados], de bajulação de poderosos, para que aumentem os seus lucros, justificados na consciência pela sua propensão para distribuir migalhas aos pobres, de alinhamento silencioso e ‘diplomático’ com modos ditatoriais de tratar a dignidade humana. As trindades ideológicas ‘Deus-Pátria-Família’ e ‘Fado-Futebol-Fátima’, com algum mofo e requentamentos anacrónicos, de velhas, novas e diferentes sacristias, podem ser hoje instrumentos manipuladores que perpetuam o prior dos cancros sociais: a ignorância, onde cavalgam os oportunismos de ocasião. Salvo a clandestinidade partidária
[socialista e comunista], o sindicalismo igualmente clandestino, movimentos progressistas de militância católica, com raras exceções, o sistema partidário português foi desenhado por elites sem povo. E este demorou muito a fazer-se ouvir, para lá da ‘escuta’ irrenunciável acontecida no silêncio da cabine de voto. Mais grave que esta demora é a perpetuação da ignorância, que garante o espaço necessário para que aquilo que estava subentendido vá conquistando protagonismo.
A estas e a outras ‘obscuridades’ não se reage com arrogâncias limitadoras da liberdade, com [outros] fanatismos de trincheira ou com desvalorizações relativizadoras e auto confiantes. Reage-se com a força da argumentação fundamentada, com a decisão destemida e consequente, com a exposição ao escrutínio, com liberdade, independência e sem temor.
«Em cada esquina um amigo» e «em cada rosto igualdade» são todo um programa de incarnação, mais que de doutrina. Bebemos da trindade laica da ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, do ideal do ‘homem novo’ e da ‘sociedade sem classes’, ainda que já fossemos herdeiros do ‘amor aos inimigos’, do fazer bem ao ‘mais pequenos’, da atenção aos caídos nas encruzilhadas dos caminhos, do ‘dar a vida’ por um projeto maior… A liberdade, já teremos entendido, pela força das circunstâncias, que se trata de um empreendimento com tendência a falir sempre que o ‘privado’ conflitua com o comunitário e que não há ‘mão invisível’ capaz de corrigir. A igualdade, talvez a tenhamos trocado por nichos de lutas importantes, mas parcelares, que parecem ter renunciado à utopia de terminar com a desigualdade social essencial, que tende a perpetuar castas de ‘apelidos’ e outros apêndices menores da dignidade humana. A fraternidade, essa parece amputada da ideia de uma paternidade/maternidade comum, de tão mal compreendida que está a tensão concetual e prática da relação entre privacidade e publicidade. Precisaremos de
recuperar a imagem de um ‘Deus que dance’, eventualmente a perspetiva de uma ‘ética mínima’ transversal e infra ideológica e certamente que a atenção lúcida a uma conscientização ecológica será um caminho para este futuro.
Por tal estrada, é bom ter presente que o pluralismo não é uma concessão dos poderes, para que, uma vez realizado o exercício protocolar da escuta, façam como e o que querem. É a identidade de uma sociedade moderna nas suas mais múltiplas expressões. Pela negativa, é sempre bom ouvir a ‘estupidez’, para que saiba exatamente onde está
e se possa argumentar em sentido contrário. Pela positiva, só crescemos com o contraditório, o diferente teórico e concreto, a abertura a horizontes diferentes. E o inverso disto, não é estagnar. É regredir. Depois de acabar com uma ditadura personificada em rostos e símbolos, é bom que celebrar abril de 74 signifique estar alerta contra ‘novas ditaduras’ dissimuladas, à espera da sua fresta de possibilidade. E mais que lutar contra, importará que esta luta se faça pela afirmação positiva de modelos sociais que se centrem na busca por encontrar um amigo por esquina e por vislumbrar igualdade nos rostos de todas as cores, credos, opções ‘filosóficas’… Assim se celebra o memorial atualizado
de 26 de abril de 74 e dias seguintes.
Luís Francisco Marques

 

1 COMENTÁRIO

  1. Não é fácil escrever sobre uma data que foi cativada e tornada propriedade de alguns que, desde sempre, se consideram latifundiários da verdade e, por maioria de razão, do próprio país. Digamos que a anunciada "universalidade primeva" da revolução, pode muito bem ser questionada, volvidos (já) mais de 46 e seis anos sobre ela. A maturidade que ela atingiu (mensurável pela sua idade) parece não esconder, ainda, muito do que fez o país ser como foi, na longa noite do homem de Santa Comba.
    O problema é que foi e, por vezes, ainda parece ser.
    Gostei do texto.

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