Ilustres (Des)Conhecidos – José Albino Ferreira (1864-1940)

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Retrato publicado no Diário de Notícias em 1908
Escreveu Alípio Barbosa sobre este penacovense ilustre, nas crónicas “Memórias de um Industrial”, publicadas no Notícias de Penacova: Um dos elementos mais valiosos da minha geração, pela sua inteligência superior, pelo seu saber, pelo seu critério seguro na apreciação dos homens e dos factos e até pela bondade do seu coração que não se exterioriza em palavras mas se traduz em realidades “ 
 
José Albino Ferreira nasceu em Sazes no dia 24 de Agosto de 1864. Filho de António Albino e de Maria Marques, lavradores, naturais e moradores naquela freguesia. Neto paterno de António Ferreira e de Libânia do Rosário e pelo lado da mãe, de António da Cruz e Maria Marques. Baptizado pelo padre Manuel Joaquim Ferreira a 31 de Agosto daquele ano teve como padrinhos José da Cruz e “Maria, filha de Bernardo Dinis”.
 
Aquele que viria a ser Padre e também Notário, estudou em Coimbra, onde coabitou com Alípio Barbosa, que era um ano mais novo. José Albino, com 15 anos, e Alípio Barbosa, com 14, foram estudar para a Lusa Atenas, onde viveram, nos primeiros anos, tendo como criada uma senhora que fora ama seca de Alípio Barbosa e mais tarde fazendo vida em Repúblicas. Durante a vida estudantil, José e Albino tiveram como companheiros de
casa, Artur Leitão, Augusto Coimbra e Joaquim Coimbra,  penacovenses e ainda António Maria Ferreira Soares, que não sendo de Penacova, talvez por esta ligação, se viria a tornar seu filho “adoptivo”.
 
Referem os boletins académicos que José Albino Ferreira se matriculou na Faculdade de Teologia no dia 15 de Outubro de 1884, formando-se em 1888, e na Faculdade de Direito, em 9 de Outubro de 1889, concluindo em 1894.
 
Voltando à leitura das “Memórias “ o colega Alípio Barbosa, recorda que José Albino“descendia de uma família modesta de honrados e honestos lavradores” e que foi “educado na Escola do velho Prior de Sazes”, padre “inteligente e ilustrado, pregador de grande nomeada” que aconselhou “a educação superior do rapazinho, cuja forte e equilibrada inteligência se manifestou precoce”.
 
Em 1901 encontramos no “Jornal de Penacova”, acabado de surgir, um anúncio onde se diz “Bacharel José Albino Ferreira – advogado e notário – Penacova”. 
Desconhecemos como articulou a vida de padre com estas funções. Apenas temos a referência que por volta de 1921 seria capelão da Rebordosa. A par do trabalho no seu Cartório Notarial, exerceu diversos cargos político-administrativos e foi, por diversas vezes Presidente da Câmara. Disso temos notícia: 1901, 1908 (aquando da inauguração do Mirante) e 1918. Em 1929 será, ainda, vogal da Câmara presidida por José Correia Leitão.
 
Dotado de grande cultura, deixou escritas muitas crónicas jornalísticas, entre outras,  “ À Sombra Amena da Pérgola – Histórias da Carochinha” onde ficamos a conhecer muitos pormenores curiosos do passado de Penacova.
 
Aquando da sua morte, escreveu Raimunda Martins de Carvalho: “senhor de vastíssimos conhecimentos”, um verdadeiro “enciclopédico”, a sua “modéstia era tal que por vezes só pela conversa se descobria o eu talento e a sua cultura”.
 
Por todos reconhecido como “ameno e culto conversador”, “notável Presidente da Câmara, honrado funcionário” e detentor de “grande cultura literária”. 
 
Consideramos que a José Albino Ferreira se aplica, lamentavelmente, o epíteto de “ilustre
desconhecido”. É que, tendo sido figura relevante em Penacova, pelo que vamos sabendo, o seu nome caiu no esquecimento. Pouco depois da sua morte ainda terá sido alvitrada a colocação de uma lápide na Pérgola, local emblemático onde passou muitos momentos na fase final da vida, já quase cego, mas sempre tido como agradável e sábio conversador. A ideia não foi avante e alguém desabafou nas páginas do jornal: “os que  onscienciosamente trabalham em obras que perduram são deixados nas brumas do passado ou atirados a um futuro que nunca virá”.
 
Morreu, com 76 anos de idade, no dia de Nossa Senhora da Conceição, 8 de Dezembro
de 1940, ano do Duplo Centenário (Fundação da Nacionalidade – 1140 e Restauração -1640).
David G. Almeida