Teorias e Poesias com cascas de Tremoços

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            Justino faz questão de dizer, com a propriedade que as suas quase oito arrobas de peso lhe concedem
     – Já viro frangos há muitos anos e a minha mão que os tempera não leva lições de ninguém!
enquanto ajeita o microfone e uns esparsos papeis escondidos atrás das paredes breves do púlpito.
Não tem o dom da palavra e é um amigo que lhe escreve uma notas para se aguentar digno. À falta de dotes criativos, socorre-se da própria envergadura, de lugares comuns de pacotilha e de algum metralhar pouco mais que de pólvora sem sustento efetivo, que numa guerra de pouco ou nada serviria.
            À sua frente, duas ou três dezenas de mirantes e ouvintes, alguns com ar de quem preferia estar a milhas daquela verborreia que mal atormenta uma cáfila que atravessasse o deserto de que é feito o nada.
            Numa esplanada ali perto, perto o suficiente para o palavreado de Justino vir a rebolar calçada abaixo entre o desconexo e o prolixo, está Malaquias, o improvável poeta da terra que ajeita versos enquanto morde uns tremoços pelo canto da boca e atira as cascas, certeiras, para o pires que o empregado colocou com zelo comercial sobre a mesa, ou então para onde calhar
Oh Justino, meu caro,
Vê mas é
se te calas!
Passei a noite em claro,
Arruma mas é as malas!
enquanto Justino,
certo da sua certeza, lá continua, entre a observação dos seus escutantes e um
olho nos cartões escritos que mal lhe asseguram o que dizer e como dizer, com
Malaquias, entre os tremoços e as respetivas cascas lá vai desbobinando a
poesia como se esta estivesse a ser agitada dentro de um vítreo tubo de ensaio
às ordens de uma alquimia formulada entre desejos e realidades.
            Num outro canto, o intelectual da zona, o “Doutor Munique”, assim chamado porque esteve emigrado na Alemanha, naquela cidade Bávara, escassa dezena de anos e diz ele que foi aí – que ninguém confirma – que se doutorou em gestão de empresas. E portanto está o Doutor Munique na mesa do canto, com um cigarro castanho entre dedos, alvitrando novelos de fumo superior, enquanto aplaude ou desdenha das patacuadas do Justino do alto do acrílico púlpito, e ao mesmo tempo mal disfarça a leitura de um guião repleto de lugares comuns e que podia ter sido escrito ou concebido há 40 anos que ninguém dava por isso. E o Doutor Munique, de calça azul escuro vincada, camisa azul claro e um pulver sobre os ombros, cospe aqui e ali as pequenas aparas semi-mastigadas do tabaco enquanto com intermitência ritmada, chupa com zelo estético o castanho cigarro e entre inclinares de cabeça vai dizendo à sua acompanhante, num tom de casa de alterne e com parte da dentição à vista:
      – Este até é rapaz para ir longe.
Obediente ao guião do chefe, anda ali no limite do popularucho e do pregão, e
de quando em quando lá sai uma ou duas quase direitas. Praticamente nenhuma
interessa às pessoas que ele diz representar, mas para serviço interno desvia-o
do humilhante balde e da esfregona na sede da organização.
            Perto dele, lá continua o Malaquias, já a caminho das 8 minis e com a poesia possível a saltar-lhe dos bolsos
Falas muito mas não me alegras, Tens a mania que és erudito,
Se tivesse aqui umas pedras,
Atirava-tas, oh rapazito!
O desfile de notáveis da terra continua, com uma outra mesa parcimoniosamente ocupada pelo “Engenheiro Bilros”, como é conhecido, por via de se ter notabilizado no negócio dos bordados, atoalhados e demais panos e tecidos, numa casa com portas abertas numa das mais movimentadas ruas da capital, onde vive há quase 40 anos. Deixou a “santa terra” como lhe chama, levado para a
“Universaidade da Vida”, onde aliás se “formou” em “Engenharias várias”. Homem
considerado e escutado, mesmo que, como tantos, não seja mais do que um transformador frases, um utilizador de clichés, um factótum com “patine” e portanto,
às tantas, avisa, quase solene:
      – Este Justino vai longe! Temos homem. É bom  no ataque ao adversário! Faz bem.
Arruma-o primeiro, reina depois. Tem olho para a causa!
enquanto a esposa e uma das filhas o olham de soslaio, ao mesmo tempo que ambas bebericam uma caipirinha sem álcool e atualizam nas redes: “a sentir-se entediada em…”, pouco se entusiasmando com a vagamente destilada berraria de Justino na sua pregação pública aos paisanos.
Enquanto isso, Malaquias chuta mais uns versos que conseguiu apanhar antes de rebolarem calçada abaixo, enquanto numa nova fase, tenta acertar com as cascas de tremoço no decote da Benilde, a volumosa sobredotada da terra, a quem muitos homens prometem tudo, mas que permanece dedicadamente solteirona, para os devidos efeitos:
Oh meu querido Justino,
Estás a falar há já tanto tempo!
Cala-te e vai beber um fino,
Que palavras ‘levás’ vento!
Estiveste aí aos berros,
Acho que ninguém te ouviu!
Para a próxima pede aos teus servos,
Para verem quem não te aplaudiu!
Ah pobre terra esta,
Entregue a tão fraca gente!
É preciso muito mais testa,
Para que possa ser diferente!
            Ato contínuo, Justino termina a sua prédica, com esparsos aplausos, pouco mais entusiasmados que uma plateia de Corvinas num desfile de Douradas e já sem microfone, atira:
     – Mais um fino e um pires de tremoços para o grande Malaquias, meu malandro, que enquanto eu falava, podias fingir que dormias!
Nota: Esta crónica é ficcionada. Qualquer semelhança com nomes, circunstâncias e ambientes é mera coincidência.
António Luís

 

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