Penacova, a “perna” que falta à nossa democracia local

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A imprensa, entendida como o jornalismo livre e imparcial é
muitas vezes referida como o quarto poder do Estado Democrático (além do
Executivo, Legislativo – poder político – , e o Judicial). Poder que desempenha
um papel fundamental como moderador entre os outros poderes e os cidadãos. É o
poder da informação que permite aos cidadãos o esclarecimento, imprescindível
às livres escolhas democráticas.
O jornalismo livre e imparcial e a proteção que os cidadãos
têm contra a comunicação política do poder, normalmente interesseira e
manipuladora, que quase sempre omite o que é impopular e não raras vezes mente,
para puro proveito da manutenção do poder.
Ninguém imagina uma democracia madura e “a sério”, sem
órgãos de comunicação social (jornais, televisões e rádios) livres e
imparciais.
O “quarto poder”, ou como é também referido nalguma
literatura, o “cão de guarda” dos cidadãos, tem que estar lá, sob pena do poder
político modelar e manipular a informação em proveito próprio e dos seus
interesses.
Ora, em Penacova, simplesmente não existe esse poder. O
nosso Concelho é dos poucos do país, e seguramente o único na Região de
Coimbra, que não tem um jornal generalista local. Não tem um jornal, como não
tem um rádio local ou um site noticioso generalista, com jornalismo livre e
imparcial. Não existe em Penacova, atualmente, nenhum órgão de comunicação
social dedicado às notícias locais, que noticie, com a moderação da
imparcialidade e da liberdade, os acontecimentos mais marcantes da nossa vida
social, cívica e política.
E esta circunstância é uma falha que marca de forma decisiva
o nosso desenvolvimento e evolução enquanto sociedade.
Sem jornalismo local não temos o debate estruturado e
moderado, não temos a discussão esclarecida, que vá além da disputa de
comunicados entre poder e oposição, por exemplo. O debate em Penacova pouco vai
além da pobreza da “troca de galhardetes” políticos. Falta a visão independente
que informa e esclarece a opinião pública sobre aquilo que é estruturante para
a nossa terra, falta ir além do slogan e da pose de boa foto “para eleitor”
gostar.
Temos plataformas que informam sobre eventos e
acontecimentos, mas quase sempre na perspetiva que interessa ao poder
instalado.
Os jornais regionais, limitam-se a reproduzir comunicados de
assessores de imprensa, e fazem-nos numa perspetiva comercial (mais tendo em
conta a necessidade das boas graças financeiras do que o estrito dever de
informar).
Saúdo por isso o convite que me fez o “Penacova Actual” para
escrever sobre a nossa terra, saúdo sobretudo pela coragem de dar voz a quem,
como eu, tem, sem peias, sido uma voz de “contraponto” ao poder. Digo de
contraponto, porque nunca me situei no estilo oposição por oposição, sem ideia
de construção ou visão diferente para o bem comum. Embora, apesar disso, ou por
causa disso, desde que acabaram os jornais locais em Penacova, nunca mais
recebi qualquer convite para escrever o que penso.
Cada vez é mais urgente, em nome da saúde da nossa
democracia local, que quem pensa diferente do partido do poder em Penacova
tenha também espaço de opinião publicada.
Falta o “cão de guarda” (imprensa livre e imparcial) dos
cidadãos, que protege contra a manipulação, o oportunismo e a mentira do poder,
mas à falta dele, pelo menos que haja vozes diversas publicadas e a serem
lidas. Existindo estas vozes, segue-se no sentido uma democracia local melhor e
mais evoluída, de contrário não passamos de um concelho coxo de democracia à
mercê funcionários políticos.

Mauro Carpinteiro