Navegação sem vista

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Quando era pequeno, promessa eleitoral que se prezasse lá na aldeia do Castinçal, contemplava invariavelmente o arranjo da fonte local. Desde um sistema de tiragem e bombeamento de água que nunca funcionou [apesar das infra estruturas], passando pelo arranjo e encaminhamento do curso de água até à bica, culminando com o conserto do tanque de lavar roupa, sendo o cume das intervenções a cobertura do mesmo, houve de tudo. Recentemente, numa outra linha de pensamento e projeto, fomos contemplados com uma estrada, que, sobretudo, constitui um anel de proteção da aldeia contra incêndios e melhora a acessibilidade, fundamentalmente no combate aos mesmos e no acesso ao trabalho na floresta.
Em que circunstâncias [quem o faz, como o faz e onde o faz?] se pensa o futuro deste nosso território a médio prazo? À fonte já ninguém vai buscar água… No tanque ninguém lava roupa… Pela estrada quase ninguém passa… Nunca se pensou num projeto de regadio sério, sendo a agricultura a atividade dominante das nossas gentes e a falta de água um dos obstáculos à execução qualificada dessa tarefa! Nunca se antecipou que, com a desertificação e o envelhecimento progressivo da população, talvez a necessidade fosse uma ‘lavandaria comunitária’, à semelhança dos fornos de antanho! Não se refletiu a baixa densidade populacional como um enfraquecimento de possibilidades futuras, limitando-se a gestão pública a gerir as fragilidades e ao contentamento dos gostos do presente!
Mais do que não ter esse ‘trabalho de casa’ feito, parece grave a aparente tendência para não o querer fazer, no intuito de reequacionar o possível do ‘que não volta a vir’ e preparar estruturadamente o que certamente virá. 
A surpresa do amanhã não se compadece com um hoje vivido ao sabor das circunstâncias. Agora a reagir ao prejuízo, depois a cavalgar a onda da prosperidade, a seguir a sobreviver no marasmo da tranquilidade. Mas quase sempre a ‘navegar à vista’, onde cabe uma coisa e o seu contrário, consoante a oscilação e a paternidade/maternidade das propostas e dos interesses em questão.
A narrativa humana e social de um espaço não pode escrever-se de ocasionalidades. O hábito só nasce de um programa consistente e coerente, que se impõe pela qualidade credível do conteúdo e pela persistência de o propor, mesmo quando a aparência parece convidar a desistir. Como o Rossio não cabe na Betesga, a expetativa, num território como o nosso, não podem ser multidões laudatórias dos egos dos protagonistas e antecipadoras de lápides e estátuas vindouras. Pode ser impopular e de retorno lento, mas a avaliação dos projetos tem de estar centrada na capacidade dos mesmos humanizarem as pessoas e de estabelecerem laços de coesão comunitária.
A agilidade decisória não pode emperrar [nem assentar, já agora!] em casuísticas menores, provenientes de melindres medíocres de humores mal resolvidos, no intuito de almejar uma consensualidade mítica. Nem em simpatias meramente estratégicas e superficiais ou em bastidores onde os gatos nem se dão ao trabalho de se esconder a si nem ao rabo, ancorados no poder de uma pretensa superioridade cultural auto proclamada e sem escrutínio.  
Obviamente que gerir reclama elasticidade intelectual que permita reagir à novidade que o instante sempre dita, que favoreça o espaço da criatividade e que possibilite o acrescento de adendas que corrijam o andamento.
Ainda assim, onde estão documentos orientadores para uma ação a 20 anos, assentes na escuta das pessoas, no estudo sociológico que convoque o melhor saber e na intuição lúcida, dialogada e inteligente capaz de desenhar propostas inovadoras e consequentes?
Onde estão clarificadas opções capazes de potenciar a autonomia local no possível e de fomentar a cimentação de parcerias no desejável, sem ceder ao regionalismo provinciano nem à alienação da identidade cultural local?
Onde estão desenhados percursos evidentes e estruturados, tendentes à criação local de especialização diferenciadora, recuperando a Tradição, mas prosseguindo na escrita existencial do nosso ADN, incorporando a juventude e a nossa diáspora, evitando que sejamos uma simples cópia do que a Globalização nos impõe como lucro ou moda?
Onde está uma rede de atração aos nossos nichos de identidade verdadeiramente corporativa, que mobilize os poderes públicos, os agentes privados, os atores culturais, a comunidade em geral, em nome do bem comum e não de interesses simplesmente setoriais, persuadidos todos que, conseguido aquele, estes ficarão inevitavelmente melhor e que o contrário não é uma evidência lógica?
Onde está a desburocratização séria, sem que os serviços não nos façam perder num emaranhado de lideranças intermédias e de secretarias que quase só servem para filtrar agendas e demorar decisões? 
Onde está a real transição digital, investindo na formação acompanhada das comunidades, dispensando montanhas de papeis inúteis, resistindo a impressões desnecessárias e deixando de comunicar via web com a velocidade do tempo dos ‘sinais de fumo’?
Onde está a ecologia integral, traduzida na conversão quotidiana de hábitos e não como esquizofrénica bandeira erguida somente quando alguém se dispõe a fotografar?
Por fim, onde está a coluna vertebral, o sistema nervoso central de uma comunidade e que é a cultura como experiência de humanização e de socialização por excelência? Sem esta, não há pessoa nem sociedade. Podemos ter ‘marionetas’ manipuladas por quem tiver um pouco mais de olho em terra de cegos ou um rebanho assazmente amestrado e domesticado. Mas enfraquece-se a grandeza do ser pessoa e a capacidade e potência de viver em sociedade. Navega-se à vista. E um dia, vai-se ao fundo e não se volta.
 
Luís Francisco Marques