Ilustres (Des)Conhecidos – António Oliveira Veiga e Costa (1932-2006)

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António Oliveira Veiga e Costa, filho de Pedro Costa e de Ângela Veiga da Fonseca, nasceu no concelho de Sernancelhe, freguesia de Penso, no dia 13 de Junho de 1932. Fez a instrução primária na terra natal, mas só aos 23 anos prosseguiu estudos em Coimbra, iniciando a sua formação como seminarista. Ordenou-se em 15 de Agosto de 1967 (já com 35 anos). Foi coadjutor na Paróquia de S. José de Coimbra e no dia 29 de Setembro de 1968 assumiu a paroquialidade de Travanca do Mondego, Oliveira do Mondego e Almaça.

Imbuído dos ideais do recente Concílio Vaticano II – que decorreu de Outubro de 1962 a Dezembro de 1965 – cujas conclusões imprimiram alterações na vida e missão da Igreja no sentido de uma maior participação dos leigos e uma maior presença eclesial nas questões sociais, o Padre António Veiga iniciou nas paróquias que agora lhe estavam confiadas um programa de trabalho que deixaria marcas no campo educativo e social no concelho de Penacova, enfrentando sempre com determinação algumas incompreensões.

Não descurando as outras paróquias, temos de reconhecer que foi na freguesia de Travanca que maior número de iniciativas promoveu e desenvolveu. Até 1971 a terra não dispunha de qualquer espaço onde realizar actividades sócio-culturais. Recorde-se que a Junta de Freguesia funcionava nas casas particulares dos respectivos presidentes. Perante a existência do edifício desactivado e em mau estado de conservação da velha Escola Primária liderou um processo que conduziu à inauguração do Centro Paroquial e Sede da Junta em 3 de Outubro de 1971. No novo espaço passou, poucos dias depois – a 20 de Outubro – a funcionar um Posto de Telescola. Sem qualquer apoio do Estado, o próprio televisor foi comprado a prestações e pago do seu bolso e as aulas foram ministradas a título gratuito, dando a oportunidade única  a que alguns jovens pudessem prosseguir estudos. Entretanto foi oficializado e o Padre Veiga, juntamente com outro(a) monitor(a), passou a ser professor efectivo.

Ainda no mesmo ano de 1971 iniciaram-se as Colónias Balneares Infantis na Praia de Mira, dirigidas a crianças não apenas das suas paróquias mas também de freguesias vizinhas. O trabalho em favor da infância culminou com a abertura, em 1976, do Jardim de Infância, o primeiro no concelho de Penacova, integrado no Centro Paroquial de Bem-Estar Social, acabado de ser criado. Em 1980 foi inaugurado o novo Salão Paroquial que passou também a servir de apoio às actividades infantis. Outras estruturas de apoio foram surgindo: aquisição de uma carrinha e abertura de um refeitório em espaço próprio.

Janeiro de 1983: abre a Escola de Música. Atraindo crianças e jovens de todo o concelho chegou a ter cinquenta alunos e despertou muitas vocações que hoje marcam presença no nosso concelho. Outras actividades se foram desenvolvendo graças à sua iniciativa e liderança: teatro, récitas, Grupo Coral, aulas de Alfabetização e até o 2º Ciclo para Adultos. Em 1986 celebrou-se o Ano internacional da Paz e sendo  a promoção da cultura um dos caminhos para a Paz, surgiu a ideia de, Travanca, proceder a uma recolha de usos e costumes que deu origem a uma exposição etnográfica e ao Grupo Folclórico e Etnográfico “Mensageiros da Paz”.

O pioneirismo concelhio, que se verificara com o Jardim de Infância, voltou a revelar-se com a constituição do Agrupamento de Escuteiros, em 1987. Outra iniciativa que teve alcance concelhio foi a criação no ano de 1980, em conjunto com Egídio Santos e Alcibíades Ferreira,  do jornal “Nova Esperança”. Propriedade da Fábrica da Igreja de Oliveira do Mondego veio  preencher uma lacuna que se abrira com a extinção do “Notícias de Penacova” em 1978.

Devoto de S. Sebastião, que se venera em Travanca, publicou em 1997 o livro “S. Sebastião – Um Santo para os Nossos Dias”, apresentado pelo Bispo de Coimbra, D. João Alves.

Por ocasião das Bodas de Prata Sacerdotais, em 15 de Agosto de 1992, António Coimbra, de Oliveira do Mondego, escreveu na imprensa local que o Padre Veiga era um autêntico “assistente social”, um “conselheiro prudente, sensato e oportuno” e  salientou também o seu “altruísmo” e o seu “desprendimento material”. Em 1976 o “Jornal de Notícias” (29/8) publicara uma reportagem, assinada por João Bravo, afirmando que se tratava de “um padre atento aos problemas (…) um Homem de ideias assentes, perfeitamente identificado com os anseios e dúvidas dos residentes na zona”. Referindo que o padre Veiga teria sido perseguido pela PIDE, o jornal legendou uma fotografia do seguinte modo: “Padre Veiga, um verdadeiro defensor dos mais desprotegidos”.

Depois de alguns anos de doença, faleceu no dia 15 de Setembro de 2006. O jornal que fundara e a que tanto se dedicara, publicou alguns testemunhos de pessoas que com ele se cruzaram. Maurício Marques, presidente da Câmara, definiu-o como “um grande progressista” e destacou os valores que transmitiu: “a solidariedade, a amizade e o respeito pelos outros”. António Simões, professor e autarca, salientou a  “visão social” e a “dedicação” às pessoas e aos projectos que lançava. Maria da Piedade Marques, professora, escreveu que o “Bem do Próximo” fora a principal meta para onde convergiam os vários caminhos que percorreu e, por último, David Gonçalves de Almeida, professor e seu paroquiano, destacou uma vida “ao serviço dos Pobres e dos Humildes”.

Em 2009, o Padre António Veiga e Costa foi alvo de várias homenagens póstumas. No dia 1 de Novembro foi colocada uma lápide junto à sua campa no cemitério de Travanca do Mondego, com o seguinte teor: “A Paróquia, o Centro Paroquial, a Junta de Freguesia e a Associação Cultural e Recreativa prestam homenagem de gratidão ao Meritíssimo Padre António Oliveira Veiga e Costa”. Também em Travanca, no dia 25 de Outubro, havia sido inaugurado um  Parque de Lazer com o nome de “Parque Padre António O. Veiga e Costa”. No dia 17 de Julho, feriado concelhio, a Câmara Municipal, presidida por Maurício Marques, havia atribuído, a título póstumo, a Medalha de Mérito do Município.

Travanca do Mondego, 1 de Agosto de 2020
David Gonçalves de Almeida

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