Editorial – Todos educadores e todos educandos

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Durante décadas, alguma da reflexão sociológica pretendeu pensar a sociedade como uma soma de átomos isolados. As relações eram momentaneamente inevitáveis, enriquecedoras ou empobrecedoras, mas cada componente valia como indivíduo, passível de ser pensado sozinho. Não se alcançava que distinção e separação não são conceitos sinónimos. Reitero no texto de hoje que a complexa sociedade contemporânea tem de se pensar na complexidade, enquanto teia plural e cruzada permanentemente. Claro que a impotência humana obriga ao estabelecimento de uma hierarquia de prioridades, mas mesmo estas empobrecem-se se perderem de vista o alcance mais amplo.
Proponho uma reflexão intuitiva sobre educação. De lado ficam questões técnicas, orçamentais, jurídicas e de estruturas físicas. O propósito é pensar aquele que é o elemento nuclear da construção da pessoa e da sociedade, a educação. A tese que procurarei desenvolver pretende sustentar o argumento segundo o qual no processo educativo é a sociedade que é protagonista e é a mesma sociedade que é destinatária.
Desde logo, podíamos sublinhar diversos reducionismos reinantes: assumir que educação é assunto das escolas e, sobretudo em questões disciplinares, das famílias; dar por adquirido que os destinatários da educação são exclusivamente as crianças e os jovens; fazer coincidir cultura com entretenimento [do tempo], no contexto associativo por exemplo, obscurecendo uma perspetiva educativa; tornar a educação estética como um adereço ou um elitismo; menosprezar a educação profissional, em favor de uma intelectualidade apenas ‘livresca’; dar por adquirido que a educação familiar [englobando também o processo para se ser pai e mãe] é algo íntimo [excetuando questões legais] ou do âmbito da aprendizagem ‘técnica’…
Assim, importa que a educação pode ser repensada com amplitude de horizontes, com profundidade argumentativa e colocando no centro e na finalidade a humanização da pessoa e da sociedade.
Com Chesterton, aprendemos que “a educação deve ser uma lanterna dada ao homem para explorar tudo, mas muito especialmente as coisas mais distantes dele.” Importa reter a ideia da lanterna como um referencial e um apontar de caminho. Recuperar a credibilidade das lideranças, a magnetização sedutora dos testemunhos e a aprendizagem como resultado da relação pode ser um trabalho artesanal a empreender, fazendo da tecnologia um instrumento aliado e não um artefacto que dispensa aqueles elementos humanos. Na definição apresentada, sublinhe-se ainda a ideia de ‘explorar tudo’, salvaguardando a necessidade de especializações, como desafio a que se gerem pessoas curiosas e não acomodadas ao compartimento de saber eventualmente já adquirido. De
máximos, não de mínimos. Finalmente, a perspetiva de buscar o ‘distante’ obriga
a que a educação tenha Mundo, incorpore o diferente, dê espaço ao estranho,
valorize o avesso menos óbvio, hospede o estrangeiro.
Em Paulo Freire encontramos a ideia segundo a qual “ninguém educa ninguém, como tão pouco ninguém se educa a si mesmo: os homens educam-se em comunhão, mediatizados pelo mundo.” Educar é humanizar e o pensamento do autor distingue duas etimologias possíveis para a palavra: ‘educare’, significando orientar, conduzir, nutrir; e educere, com o sentido de extrair, fazer nascer. Freire dirá que a primeira aceção redunda numa ‘educação
bancária’, de formatação da personalidade, talvez até ideológica e manipuladora, ao passo que a segunda teorização se concretiza numa ‘educação libertadora’, capaz de tornar humanas as pessoas, fazendo com que desabroche o potencial que nelas se inscreve.
Concluímos com Eduardo Lourenço. Para ele, “o desejo de conhecimento é o que define o homem […]. Os gregos foram os primeiros a falar dessa libido, desse tonel que nunca seria preenchido, que a sabedoria máxima era ter o conhecimento do que não se sabe. Há o saber positivo, o saber que se aumenta constantemente e do qual o discurso científico é feito. Depois, há um saber que é o do sentido desse mesmo saber ou da nossa experiência em geral. E este é de uma outra ordem, não tem a compensação euforizante de uma verdade que se conquista, que se pode guardar, que se pode requisitar, preencher, tocar. A
verdade não é qualquer coisa que podemos ter na mão, é qualquer coisa que nos despe de todas as certezas. Sobretudo das infundadas.” Trata-se de um desafio a passar da espuma à raiz, a assumir o lugar da dúvida, a rejeitar ser dono da verdade. Logo, a crescer na e com a pluralidade, na e com a riqueza do contraditório, na e com a companhia dos que não pensam como nós. Sem autoritarismos, nem subjugações. Só para aprender.
Daqui decorre o espaço insubstituível da Escola e do Professor, com a primeira a ter de se transformar em laboratório de pessoas e o segundo em ‘parteiro’ da Humanidade alojada no interior das vidas. Mais do que técnica ou tecnologia, é de trabalho artesanal que se trata.
Mas amplifiquemos…
Uma eventual reescrita da Carta Educativa poderá pensar na formação familiar e na família como lugar de formação, de modo transversal e inter-geracional. Aproveitando a tecnologia, incrementando o debate, educando o gosto e suscitando a curiosidade intelectual a partir da relacionalidade familiar e nomeadamente da mês [em terras de gastronomia] como o móvel fundamental da família.
As respostas de educação de adultos são outra área a merecer investimento, decisão e criatividade. A formação política, por exemplo, é quase um árido deserto limitado ao arrebanhamento ocasional, com o consequentemente alheamento da militância, o enfraquecimento da discussão e o empobrecimento do espaço público. Na mesma lógica, o ensino profissional tem de ser uma opção estruturante, apoiada e o mais possível diferenciadora e adaptada às reais necessidades do território. Ainda neste campo, que as igrejas se incorporem e sejam desafiadas a fazer par nesta tarefa, colocando na mesa comum o contributo da sua identidade. Não equacionar estas possibilidades de caminho redunda, entre outras questões, na manutenção de um classicismo social perpetuador de
desigualdades.
As associações culturais e desportivas não precisam de criar artistas, mas não podem reduzir-se também a lugares de entretimento e ocupação do tempo. São oportunidades de educação estética, de exercitação da sensibilidade, de estimulação criativa. De educação, portanto. Outro caminho pode equivaler à impossibilidade lógica de querer manter ‘mestres’ sem pensar nos discípulos.
As IPSS’s, dinâmicas incontornáveis de cuidado com os mais frágeis, não são resposta às desgraças. Cuidando de avós, educam filhos e netos. Amparando uma parte da sociedade, educam a sociedade inteira. Acolhendo os mais velhos, têm de os colocar em relação com os mais novos, porque esse simples encontro é em si mesmo educação. Menos que isto, poderá ser simples reação e resignação ao mínimo.
Haverá certamente possibilidade de avançar, respeitando a legítima autonomia institucional, mas sem ceder ao ‘síndrome do institucionalismo’, que nos impede de aproveitar a nosso favor a escala reduzida do nosso território. E há modos de fazer simples. Penso numa generalizada tendência para ‘não saber de nada’, enquanto não existe uma ‘comunicação oficial’, mesmo se, entretanto, o ‘dirigente A’ se cruzou com o ‘dirigente B’, aproveitando o facto de serem [pelo menos] ‘conhecidos’ para um breve diálogo sobre ‘futebol’, ambos incapazes de usar esse tempo para o desbloqueio do ‘assunto institucional’. Também aqui há que educar. Todos educadores e todos educandos.