História(s) mal contada(s) – Uma Mina de Prata em Penacova

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O caso deu que falar e não se circunscreveu ao “diz-se… diz-se” da vila. Foi notícia de primeira página no “Diário de Coimbra” e também a “Comarca de Arganil” fez eco do acontecido. O jornal publicado em Coimbra (edição de 16 de Abril de 1934) refere que quando um “operário de escavações” trabalhava numa mina de água que andava a ser explorada pela Câmara de Penacova, foi encontrado um “rico veio de minério”. O “honesto trabalhador” participou de imediato à Câmara o “estranho caso”, tendo esta mandado colher amostras para análise. E não é que se verificou que “a escondida mina era rica de prata e de outros minérios”?!

Como seria de esperar a “boa nova” correu veloz. E logo “uns certos cavalheiros” vendo ali “uma rica mina” se “peitaram em sociedade sem cotas”, ficando obviamente de fora o trabalhador, que era pago pela Câmara. E quem eram esses “cavalheiros”? O “Diário de Coimbra” aponta o “Presidente da Comissão Administrativa” e o “Tesoureiro da Câmara” que, de “mistura com mais três outros que tais indivíduos” se “constituíram em donos” através de uma “sociedade anónima” para exploração da mina por conta própria. Ora, isso representava uma clara “extorsão de dinheiros e de direitos à Câmara Municipal”. E ainda por cima, o registo fora feito na Secretaria da Câmara, da mesma Câmara que era dona do terreno! Claro que, “assoprados por todos”, os protestos não se fizeram esperar – salienta aquele jornal.

Por sua vez, a “Comarca” já havia, no dia 13 de Abril, noticiado – com o título “Prata? Ouro? Ou apenas a ilusão fagueira de um sonho bom?” – o seguinte: “Penacova, 10 – Numa mina de água que anda a ser explorada pela câmara municipal deste concelho, para abastecimento de água à povoação da Cheira, próximo a esta vila, foi descoberto, pelo respectivo mineiro, um veio de minério, por enquanto desconhecido mas que (…) dizem ter prata conjuntamente com outros quaisquer metais. Essa mina foi ontem registada na secretaria da câmara municipal por uma sociedade composta de cinco indivíduos, entre os quais o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara, sr. José de Gouveia Leitão e o tesoureiro da mesma, sr. Francisco Ferreira Sales Guedes. O povo mostra-se descontente por não ter sido feito em nome do município, como mandaria a boa lógica, atendendo a que a descoberta foi feita em terreno da Câmara e por um empregado desta, que imediatamente o comunicou aos seus superiores.”

Também o periódico “A Voz de S. Pedro de Alva” havia, uns dias antes, feito eco do achado na mina da Cheira, publicando os nomes dos cinco subscritores do registo na secretaria da Câmara: José de Gouveia Leitão, presidente da Câmara, Manuel Ferreira Sales Guedes, médico municipal, Francisco Sales Guedes, tesoureiro da Câmara, Amílcar Coimbra Leitão, advogado, e Laurindo Cunha Martins, comerciante. O jornal comenta que registar uma mina era algo “naturalíssimo”, um “facto banal”, “num concelho onde tantas minas tinham “aparecido”. Merecedora de “reparo” era sim a circunstância de a exploração ser feita por conta da Câmara e o registo não ter sido feito em nome do município mas “por uma sociedade particular”.  “É possível que a fortuna encontrada na Mina da Cheira não passe de um sonho bom”, comenta “A Voz de S. Pedro de Alva” que deixa no ar a questão: “E se a exploração der resultado?”

A suspeição estava lançada e foi então que o Presidente da Câmara, José de Gouveia Leitão, endereçou ao “Diário de Coimbra” e à “Comarca de Arganil”, também publicada no “Notícias de Penacova”, de quem era director, uma Carta Aberta rebatendo a notícia que aqueles jornais publicaram. Começa por afirmar que a exploração não era feita por conta da Câmara. Esta apenas havia autorizado a prospeção com a condição de, uma vez encontrada água, a comprar. Se isso não se verificasse, nada seria pago ao mineiro, que – acentua – não era empregado da Câmara. Nessas condições, “não havia nada que jurídica ou moralmente” o impedisse de fazer o que fez. Mais: não era verdade que o operário tivesse comunicado alguma coisa à Câmara e era, pois, falso que a mesma tivesse ouvido técnicos de mineralogia. A Câmara, à data do registo, estaria ainda à espera do resultado de uma análise feita no Porto e sabia de antemão que alguns entendidos já haviam adiantado a hipótese de o filão não ser mais do que “pirite de ferro”.

“Foi portanto sem convicção” de que “alguma coisa de muito valioso” lhes “estivesse reservado” que “à mesa do café, sem tomarem a sério o que iam fazer (…) deliberaram efectuar o manifesto da descoberta feita, tendo-se associado as pessoas presentes incluindo o próprio dono do estabelecimento.” José de Gouveia Leitão contrapõe ainda com mais um argumento: se quem teve a ideia de fazer o manifesto (que não fora ele), estivesse convencido que tinha ali uma fortuna, iria convidar assim tantos sócios? Por fim, nega que tivesse havido descontentamento na vila e que “os informadores” eram “bem conhecidos”, não passando de uns certos funcionários públicos, “reviralhistas de Penacova”, que “combatiam o Estado Novo” fazendo “política miserável”.

“Eis Sr. Director, a que fica reduzido o grande caso da ‘Mina de Prata” em Penacova, ao qual V. Ex.ª certamente na boa fé deu larga publicidade no seu jornal”- conclui o Presidente da Câmara.

Uma “história mal contada”? Outras se seguirão nas próximas semanas.

David G. de Almeida