EN2 [desde] Penacova

João Alves, grande amigo, padre católico na diocese de Aveiro, pároco da Paróquia da Vera Cruz, no coração da Veneza da Portugal, surpreendeu-nos recentemente com um convite para almoçar diferente do habitual. Desta vez não tínhamos agendado o repasto e ele convidava para um almoço… em Penacova, onde estava a ‘estacionar’ da viagem que estava a fazer cruzando Portugal pela EN2.

Ser, de repente, hóspede no lugar onde ser deve e costuma ser anfitrião foi o desafio que nos motivou um olhar de perspetiva nova sobre a realidade local.

Depois do ar de viandantes ter denunciado o ‘grupo’ e ter suscitado a hospitalidade dos agentes municipais, eis que foi o próprio João Alves a marcar o fraterno, humorado e reconfortante almoço no restaurante Cantinho, bem no coração de Penacova.

O que aí fica é um relato hermenêutico, que gentilmente fez questão de partilhar com o Penacova Actual, num rigoroso exclusivo [Luís Francisco Marques].

“Na viagem, apenas se descobre aquilo que trazemos connosco”. Foi a frase que escolhi para retratar o final da viagem pela Estrada Nacional 2 (EN2). Coloquei no Facebook a fotografia de um marco da Estrada, encontrado já quase ao entrar no Algarve, porque já era possível ir fazendo a experiência da viagem e aquela sensação, quase nostálgica, que não queríamos que terminasse.

Fazer a EN2 não é estar preocupado com o destino, mas ir descobrindo, quilómetro a quilómetro, as paisagens, as gentes e os sabores do nosso país. Talvez nos descubramos um pouco mais nesta Estrada. Voltámos aos bancos da escola para reaprendermos história, geografia, físico-química, línguas, ciências da natureza… talvez um pouco de tudo que diga respeito à terra, aos costumes, às pessoas e à cultura que nos pertence, tão rica e marcada com a história das nossas regiões.

Partimos de Chaves, num km0 que mais não foi a certeza que ali tudo começa até chegarmos ao km738. Montes e vinhas, rios e vales, barragens e suas albufeiras, termas e praias, cidades e povoados, planícies douradas até se vislumbrar o mar. Nesta viagem Penacova foi um Porto de Abrigo no percurso entre Viseu e Sertã. O 13º Município da Depois de uma paragem a vislumbrar a Aguieira, a N2 permite acompanhar o serpenteado do Mondego, merecendo quase parar para ler a sua Livraria de pedra, mas obrigando a seguir em frente para passear as ruas históricas da Vila. Numa oferta de restauração, alojamento e espaços turísticos ainda com dificuldades em acompanhar a vontade notória em bem acolher e dar a conhecer o que de melhor têm, Penacova foi o Município que nos permitiu a única selfie de viajantes, num largo e com uma paisagem que mostram que existe muito para dar. Talvez tenha ficado um secreto desejo de conhecer outras rotas, trilhos e percursos, de conhecer melhor aquela maquete que era o Mosteiro do Lorvão, percorrer miradouros, mergulhar em praias ou descansar e meditar em Igrejas de porta aberta.

Quem viaja pela N2 não consegue muito, mas consegue chegar onde os sentidos alcançam. A curta paragem em Penacova trouxe a companhia dos amigos filhos da terra, a serenidade das suas paisagens, a proximidade do Rio Mondego, a simpatia de quem nos orientou para um carimbo no passaporte, a fotografia a três, a disponibilidade acolhedora num restaurante local e a promessa de um “até breve!”. A N2 continuou por outras terras e paisagens porque o tempo corre e nem sempre conseguimos parar para conhecer as ‘gentes da terra’, talvez a promessa de um regresso seja essa oportunidade.

João Alves

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