20 milhões em primeira tranche para vacinas

0
11

 

Serão administradas em duas doses com um intervalo de 14 dias. A confirmar-se a chegada das primeiras unidades já em dezembro, 345 mil portugueses vão ganhar resistência à covid-19

Bernardo Mendonça e Joana Ascensão – Jornal Expresso

QUANDO É QUE PORTUGAL TERÁ UMA VACINA?

O primeiro-ministro, António Costa, anunciou a compra de 6,9 milhões de doses de vacinas para o vírus SARS-CoV-2. A vacinação será “universal e gratuita”, garantiu ainda, estando nas mãos da Direção-Geral da Saúde definir os critérios que devem obedecer à vacinação progressiva. Quase sete milhões de doses é a quota portuguesa no processo de aquisição conjunta de 300 milhões de vacinas pela União Europeia. A correr bem, a primeira remessa a chegar ao país, de cerca de 690 mil vacinas, poderá ser distribuída já a partir de dezembro, mas para isso é preciso que os ensaios clínicos da vacina mais promissora, nesta fase ainda em curso, se revelem eficazes.

QUE VACINA ESTÁ MAIS PRÓXIMA DA FÓRMULA?

Este primeiro acordo foi realizado com a farmacêutica AstraZeneca (Reino Unido), que está a desenvolver uma fórmula com a Universidade de Oxford para a vacina até agora mais promissora. Já se encontra na fase III dos ensaios clínicos, a etapa anterior à de lançamento no mercado. Mas há em curso “outras negociações para a aquisição de vacinas”, diz o Infarmed ao Expresso, nomeadamente com outros quatro laboratórios: o francês Sanofi, o norte-americano Johnson & Johnson e o alemão CureVac. Estas outras vacinas estão em processo de avaliação pela Agência Europeia de Medicamentos e, caso avancem também, prevê-se a sua disponibilização alargada durante o ano de 2021. No limite, caso haja mais do que um produto a avançar sem entraves, poderemos vir a ter várias vacinas disponíveis ao mesmo tempo, com modos de atuação diferentes e dirigidas a pessoas diferentes, por forma a garantir uma abrangência ao maior número de pessoas possível.

COMO ATUAM ESSAS VACINAS?

Ainda pouco se sabe sobre a forma de atuação das vacinas em desenvolvimento. O produto mais promissor, do laboratório inglês, que deverá chegar já em dezembro, é constituído por duas doses que terão de ser intervaladas por um período de 14 dias. Por essa razão, os 690 mil exemplares previstos para o final do ano deverão deixar com resistência ao novo coronavírus 345 mil portugueses. Cabe à Direção-Geral da Saúde definir quais serão os grupos prioritários.

AS VACINAS RUSSA E CHINESA ESTÃO INCLUÍDAS NO LOTE OU COLOCADAS DE FORA?

Um pouco por todo o mundo, há já 165 vacinas candidatas a serem “a tal”. Dessas, apenas 26 se encontram numa fase avançada, mas só com seis laboratórios é que a Comissão Europeia iniciou negociações. No entanto, segundo confirmou o Expresso junta do Infarmed, nenhuma das vacinas russa e chinesa estão entre as seis em negociações com a União Europeia. A primeira vacina registada no mundo tem origem russa, foi apresentada pelo Presidente Vladimir Putin como “Sputnik V” e recebeu inúmeras críticas por ter sido amplamente publicitada sem estar ainda numa fase avançada de testes, sobretudo porque faltam provas da sua eficácia e segurança. Também a China aprovou uma patente para uma vacina, que se encontra na terceira fase de testes, desenvolvida pelo Instituto Científico Militar e pela empresa biofarmacêutica chinesa CanSino Biologics. Apesar de nenhuma das duas estar, para já, no horizonte da UE, face ao elevado grau de incerteza que ainda subsiste quanto a cada uma das vacinas atualmente classificadas como de interesse pela União Europeia, a estratégia tem sido garantir o acesso a diferentes tipos, facto que determinará a adoção de diversos processos de compra em função do desenvolvimento clínico. O objetivo será dispor de várias opções, tendo em consideração os grupos populacionais a abranger, de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde.

QUANTO DINHEIRO GASTARÁ PORTUGAL NESTAS DOSES?

Portugal vai destinar 20 milhões de euros para comprar 6,9 milhões de doses. No entanto, esta verba serve apenas a primeira fase dos procedimentos, a desenvolver ainda em 2020. As 6,9 milhões de doses irão ser disponibilizadas de forma gradual ao longo de um período de seis a oito meses. O Governo português terá de dispensar, mais tarde, outras tranches, mas elas estão dependentes da evolução do processo central conduzido pela Comissão Europeia, já que uma parte do valor será financiado pelo Instrumento de Apoio de Emergência da Comissão Europeia.

É PRECISO VACINAR TODA A POPULAÇÃO?

Em princípio não. O objetivo da vacina é criar a chamada imunidade de grupo. Ou seja, será ter uma percentagem suficientemente grande da população vacinada para que essa população proteja toda a gente. Sobre isto, o médico neurologista do SNS Bruno Maia esclarece: “Não se sabe ainda para este vírus qual a percentagem de vacinados ou de imunes que permita proteger toda a gente. Imagina-se que seja necessário estarem imunes entre 60% a 75% da população. Uma percentagem baseada noutras vacinas prévias.” A médica e investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, Teresa Leão, acrescenta ainda que “é importante perceber quais os grupos da população com maior imunidade, para se perceber os que devem ser vacinados e aqueles que não vale a pena vacinar”.

QUEM FOR VACINADO ESTARÁ IMUNE AO VÍRUS DURANTE QUANTO TEMPO?

Ainda não há uma resposta para isto. Nem haverá mesmo quando forem publicados os ensaios clínicos que estão a ser feitos agora. “Esta resposta só se saberá a longo prazo, já depois da vacina estar comercia­lizada. Podemos ter uma vacina que dá imunidade para sempre, para um ano ou até menos”, esclarece Bruno Maia. A médica Teresa Leão refere que “pelo menos uma das vacinas [a de Oxford] cria uma imunidade de cerca de dois meses, mas espera-se que a imunidade seja mais duradoura do que isto, para não ter de se revacinar a população tão depressa e para que haja maior benefício em relação ao custo existente”.

A VACINA SERÁ MESMO A SALVAÇÃO?

Pode ser. Se o plano de vacinação for bem aplicado no mundo todo. Embora não se conheça ainda a sua eficácia. Mas se atingirmos a imunidade de grupo a nível global, a transmissão do vírus é travada e sem transmissão o vírus desaparece. Porém, na opinião do médico Bruno Maia, para isso “vai ser necessário uma grande cooperação internacional para impedir que não haja especulação de preço da vacina, e não seja usada como uma arma geopolítica, porque não podemos vacinar só uma parte do mundo. Não podemos vacinar só o Ocidente ou os países ricos, porque se a duração da proteção da vacina for limitada ou não for eterna, podemos ter um ressurgimento da pandemia daqui a uns anos, e importa ir vacinando os países mais pobres”.

QUE GRUPOS PRIORITÁRIOS DEVEM RECEBER A VACINA?

A decisão será tomada pela DGS, mas o médico Bruno Maia refere na sua opinião os grupos prioritários, por ordem de urgência e necessidade. “Em primeiro lugar, os doentes imunodeprimidos, porque são os que estão em maior risco. Em segundo lugar, os profissionais de saúde, não pelos próprios, mas para protegerem os doentes que tratam. E, em terceiro lugar, as pessoas com mais de 65 anos, porque a história da pandemia mostra-nos em que grupo etário a doença pode ser mais letal. Veja-se o que aconteceu nos lares do país.”

E QUE GRUPOS NÃO A PODEM RECEBER?

Serão poucas as pessoas com contraindicação. Mas Teresa Leão deixa claro que dependerá do tipo de vacina que venha a ser aprovada. “Há várias vacinas em estudo que poderão ter diferentes efeitos no organismo. A maioria das vacinas em estudo e as que estão em fase mais avançada de desenvolvimento são vacinas ‘não vivas’. Ou seja, que têm o vírus morto ou apenas pequenas partes do vírus. Por isso, estas vacinas nunca causam covid-19 nas pessoas que são vacinadas.” Entre as vacinas ‘não vivas’ está a da gripe e do tétano. Entre as vacinas ‘vivas’ estão a da febre amarela e a do sarampo, onde o vírus existe, embora atenuado, podendo causar doença em pessoas com uma imunidade fragilizada, como pessoas com VIH em estado avançado. “Além disso, estas vacinas em estudo estão conjugadas com outros elementos como proteínas, ou outros vírus atenuados, como a de Oxford, e que ajudam a criar uma resposta imunitária. À partida, estas futuras vacinas são seguras”, esclarece Teresa Leão.

QUAIS OS EFEITOS SECUNDÁRIOS A TER EM CONTA NESTA FUTURA VACINA?

Todos os medicamentos e vacinas têm efeitos colaterais. Mas a esmagadora maioria provoca efeitos ligeiros, não criam problemas. Teresa Leão explica que no caso das vacinas ‘não vivas’ o que se espera é que provoquem em algumas pessoas apenas reações passageiras, como ligeira febre e dores musculares. Foram estas as reações adversas reportadas com a vacina de Oxford.

Originalmente publicado no Jornal Expresso nº 2495 de 22/08/2020 – acesso exclusivo a assinantes.