EDITORIAL – Penacova Actual[izada], do território ao conceito

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Ser ‘Penacova Actual’ é todo um programa social. Inauguramos agora um novo registo de textos, que pretenderão ser fios entrelaçados e a entrelaçar, dando a ler a realidade com a amplitude que for possível. O único objetivo será que o programa se cumpra. Que Penacova seja ‘Actual’.

O que estamos a dizer quando dizemos ‘[concelho de] Penacova’? Esta talvez possa ser a questão, quando [re]pensamos os caminhos da construção do bem comum. Podemos sinalizar no mapa os limites territoriais, identificar os ‘confinantes’, contar os habitantes, somar um conjunto de elementos do património natural e cultural, elencar equipamentos sociais, sugestionar quem cruza a nossa fronteira com aconchegante gastronomia… Mas o que é o [concelho de] Penacova? A tendência mais habitual é justapor estes elementos e/ou oferecê-los em fatias. Ou listar um conjunto de caraterísticas concordantes com os interesses de quem produz esse elenco, não querendo assumir que isso é sempre parte e não tudo. Ou redesenhar outras fronteiras interiores, mais micro, na desesperante luta de erguer essa porção de território a ícone da totalidade do mesmo. Ou, eventualmente, estabelecer outras fronteiras, culturais e ideológicas, que desagregam uma comunidade que ainda nem se experimenta como tal.

Passar de território a conceito deveria ser um desígnio das várias lideranças concertadas. Parece elementar que existem várias ‘Penacovas’. Tornar isso riqueza, ao invés de fragilidade, tem de ser esforço de várias inteligências dialogantes. Não penso apenas na heterogeneidade territorial. Aponto para a ‘Penacova’ que vive o Concelho na diáspora do país e do Mundo. Anoto a comunidade estrangeira que habita o território, em alguns casos como elemento muito significativo de algumas aldeias, e que faz vir ‘mundos’ outros até nós. ‘Ter bom ar’ implica também preocupação e cuidado estético. Alargar o nosso mundo é incorporar beleza, como ensina o antónimo da palavra [imundo]. Sublinho ainda a comunidade africana que habita de modo estável o centro do Concelho e que devia ser um treino intensivo de interculturalidade e de hospitalidade. Dispenso-me de redundantemente referir os turistas, que sazonalmente fazem também o território. Tudo isto enche de sentido e significado o termo ‘Penacova’. Sem isto, os ‘contentores’ que são os trilhos, as praias, os edifícios [públicos, sociais, comerciais]… ficam sem conteúdo[s] e não servem de nada.

O que se prescreve com esta reflexão está longe de ser um consenso feito de resignações silenciosas, muito menos uma unanimidade tecida de subjugação e subalternização. O que se quer vislumbrar é debate. Não meramente pelo debate ou pelo ranking de popularidade fulanizada a ele associado, mas em função da ‘coisa pública’. Muito para lá das querelas menores, qual pode ser a Visão para o Concelho? E a Missão? É a tal Carta Programática, que, obviamente, seria concretizada criativa e diferentemente com as perspetivas ideológicas resultantes da alternância do escrutínio democrático. Mas com fio condutor. Sem desmoronar para reconstruir em função da alternância dos protagonistas. Ou fazendo como serviço ao Todo e não apenas em função da perpetuação do poder de quem deve estar apenas a servir ocasionalmente. E isto está longe de ser válido somente para as estruturas políticas, podendo e devendo aplicar-se a tudo o que são associações de cidadãs e cidadãos, desde o desportivo ao social.

A noção de ‘Actual’ é algo definido pela história do pensamento como ‘tornar acto’. Trata-se da passagem de potência a ‘acto’, como dinamismo vital de toda a existência. Assim, atualizar, para o ser de facto, implica perceber a potencialidade que tem de lhe estar subjacente. Sem esta não existe atualização. Tudo surge desligado, sem relação, como se sem ‘causa’ e sem perspetivação do ‘efeito’. É sempre o regresso à rede, à dimensão orgânica, a uma ideia de comunidade sistémica. Ser plataforma que ofereça cimento e cola vitais ao maior número possível de potências é a função primordial das lideranças. Identificar o potencial, dar-lhe vez e voz, colocar-lhe nas mãos os meios possíveis, estimular a sua criatividade é algo distinto de concentrar nos poderes a exclusividade da atuação social. Tornam-se ambos desatualizados, os poderes e as suas atuações.

Chegados à ‘atualidade’ importa, por fim, não adormecer nela, animados pelo ego massajado de louvores pelos acólitos que sempre se perfilam em todos os regimes, fazendo carreira no anonimato, à espera que a sua vez chegue. Não pelo que fizeram, mas, sobretudo pelo que não fizeram, nem disseram. A ‘atualidade’ é nova potencialidade a carecer de atualização. E, sobretudo, a reclamar protagonistas atualizados. São estes que fazem de um território um conceito.

Luís Francisco Marques

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