Penacovenses pelo país e pelo mundo [1]

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Sem subalternizar a incontornável beleza do seu território, Penacova pode, e talvez deva, deixar de ser somente um espaço, para se converter num conceito. Será tecido certamente de muita coisa, mas, sobretudo, terá de ser feito de gente, de estar preenchido da atualidade e da potencialidade de pessoas.

O Penacova Actual, no desejo de ser um contributo para esta rede, que há-de desenhar vivencialmente o tal conceito, inaugura mais um rubrica. ‘Penacovenses pelo país e pelo mundo’, quer espelhar os rostos daquelas e daquelas que vivem Penacova noutras latitudes. O guião terá fundamentalmente três linhas orientadoras: o que se leva de Penacova para fora; o que se traz de fora para Penacova; como se olha e o que se sugere para Penacova, desde fora.

O João Pedro Correia, engenheiro com vida em Tomar e nos arredores do Tejo e do Sado, sem deixar de viver [n]este Concelho, oferece o primeiro fio a este tear. Quinzenalmente uma ou um de nós, que cruzam geografias e culturas outras virá até ao ‘Penacova Actual’ protagonizar este espaço. Tal rota será um deleite e um desafio para a densidade do que queremos ser como território e como ideia!

Olá, sou o João Pedro do Castinçal. Antes de continuar a falar de mim, quero agradecer ao “Penacova Actual” o desafio que me lançou e a honra de inaugurar esta rubrica. Como comecei por dizer, sou do Castinçal, aldeia da extinta freguesia de São Pedro de Alva, deste Concelho, que me viu nascer corria o ano de 1982. Por cá me mantive, a tempo inteiro, até ao virar do século. Da primária ao décimo segundo ano frequentei sempre as escolas do Concelho. Comecei na, agora velhinha, escola da Parada, hoje desativada, e seguiu-se a telescola. Quando transitei para o sétimo ano já se vislumbrava a Escola Básica de São Pedro de Alva, mas esse ano ainda foi feito na Secundária de Penacova, onde regressei para fazer o ensino secundário.

A primeira residência fora do nosso Concelho foi na cidade Templária, Tomar. Entrei no ano 2000 no curso de Engenharia Química Industrial, no Politécnico dessa cidade. Não foi a minha primeira opção. Como muitos de nós, tinha o sonho de Coimbra. Concluído o curso, uma das grandes alegrias que dei aos meus pais, pois sempre lutaram para me darem o melhor, era tempo de procurar trabalho. Consciente da realidade, não restringi a minha busca à região e quis o destino que a nova paragem fosse Alhandra, junto a Vila Franca de Xira, para trabalhar na Iberol, numa unidade de produção de Biodiesel, uma fábrica com menos de um ano de laboração, que foi, sem dúvida, uma grande escola.

Neste período, cruzei-me com o amor, que me fez saltar mais um rio, desta vez o Tejo, e assentei arraiais na sua margem Sul. A família entretanto cresceu, Alhandra ficava cada vez mais longe e foi então que no final do ano passado, mantendo-me na área da Industria Química, depois de quase treze anos nos Biocombustíveis, me mudei para a produção de adubos na SOPAC, em Setúbal.

Durante todos estes anos, em momento algum me afastei das minhas raízes, mantendo-me sempre envolvido em diversas atividades e coletividades do nosso Concelho e também, ainda que ténue, com alguma participação na atividade politica a nível autárquico. Depois da participação no Grupo de Jovens OJA, de São Pedro de Alva, na Comissão de Festas de Santo Antão, a colectividade em que ainda me mantenho de forma mais ativa e da qual já faço parte há 25 anos é a Filarmónica da Casa do Povo de São Pedro de Alva.

Vesti a farda desta banda a primeira vez no seu 29º aniversário. Ao longo destes anos, muitos foram os momentos que recordarei por toda a vida. Muitos foram os momentos altos que a filarmónica viveu ao longo dos anos. Mais recentemente, destaco, no último ano, as comemorações do feriado municipal e centenário da eleição do Dr. António José de Almeida. Juntamente com as congéneres do concelho, Penacova e Lorvão, com a presença de sua Excelência, Senhor Presidente da Republica, tocámos em estreia uma peça da autoria do maestro da banda “Homenagem a António José de Almeida. Destaco ainda o nosso aniversário, no qual contámos com a presença do nosso Rancho da Casa do Povo de São Pedro de Alva, em que finalizámos as comemorações com uma actuação conjunta de Banda e Rancho, procurando assim mostrar a união e a inexistência de fronteiras na música.

Durante estes 25 anos, além de músico, fui tendo outras responsabilidades na banda, com vários cargos em sucessivas direções, até ser presidente da Direção. Não assumi esse cargo nem numa altura fácil da vida da instituição, nem de ânimo leve. Atualmente vivemos com um número muito reduzido de músicos e com dificuldade em atrair novos alunos para a escola de música, que, ainda assim, acreditamos que seja o futuro da banda. Esse desejo certamente que nos exigirá muito trabalho e dedicação, sendo essencial o apoio da comunidade e das autarquias, ainda mais no contexto pandémico que vivemos, em que praticamente não se obteve receita da nossa principal fonte de rendimento. É em defesa desta causa que é a filarmonia portuguesa, que temos os olhos no futuro e continuaremos a lutar. Estreámos uma farda em Dezembro passado e temos projetos para o futuro, como por exemplo a gravação do nosso segundo CD.

Esta vontade de nos superarmos, de lutar contra as adversidades, são características enraizadas nas nossas gentes e é muito isto que levamos quando deixamos o nosso porto seguro e por forças das circunstâncias temos de procurar fora algo que não encontramos aqui, seja por algum efeito da interioridade ou por qualquer outra razão.

À parte do que motivou a saída de cada um do concelho, creio ser essencial manter-se o contacto, a presença regular, pois todos os que somos de cá poderemos sempre contribuir com algo, quer pelas experiências vividas, quer pelos conhecimentos adquiridos, quer “apenas” pela paixão que se tem a esta terra e nos leva a querer contribuir positivamente para a sua renovação. Da minha parte, tento passar para os que ficam aquilo que a vida e a experiência me ensinaram. As fronteiras existem apenas na nossa mente, a música é transversal a todas as idades, género e gostos pessoais. Se alguma coisa não funciona bem de determinada forma, devemos estudá-la até percebermos qual a melhor solução para que funcione melhor. Somos um todo, peças de uma mesma engrenagem e juntos alcançaremos objectivos. Todos temos responsabilidades e mérito no caminho. Por outro lado, são as raízes que suportam uma árvore e, por mais que nos afastemos fisicamente, devemos estar cientes de que é preciso regá-las. As gerações mais jovens devem estar conscientes de que é delas que depende o futuro das terras que as viram nascer. Mesmo que passem a maior parte do tempo fora, há sempre uma forma de contribuir para a evolução, evitando a estagnação e desaparecimento dos lugares e instituições.

Vejo o concelho de Penacova com uma forte aposta no turismo, o que é positivo. Entendo que o que existe, permite que quase não se tenha época baixa, no entanto, será importante que não se aposte tudo nas praias, pois aí teremos certamente concorrentes mais fortes na região. Ainda assim, não poderá o concelho viver exclusivamente do e para o turismo, devendo haver um apoio regular e reforçado à cultura e desporto, incentivos à criação de empregos noutras áreas que não o turismo, procurando-se sempre melhorar a condição de vida das pessoas, podendo isso fazer regressar quem um dia teve de sair.

Todos nós os que saímos, mas que continuamos a ser de cá, somos embaixadores desta terra, seja Castinçal, São Pedro de Alva ou Penacova. Temos orgulho de falar, das nossas paisagens, do saber receber, da nossa mesa, seja com peixes do rio, seja com arroz de fressura ou carne assada. Temos vontade de trazer amigos, temos vontade de vir, de voltar a este nosso cantinho, ainda que por pouco tempo e na correria dos dias, é sempre bom voltar.

João Pedro Correia