Floresta e Incêndios ou o insuficiente menos na lição 2017

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Com 500 mil hectares de área ardida e 115 mortos, 2017 marcou, pela tragédia, a nossa memória coletiva.

Portugal, que ano após ano ocupa o triste primeiro lugar, entre os países da Europa, em número em incêndios florestais e área ardida, atingiu em 2017 o inimaginável, com o fogo a ceifar vidas às centenas e a fazer sofrer prejuízos materiais impressionantes para famílias e empresas.

Ninguém ficou indiferente, a comoção e revolta a todos invadiu.

Mesmo para os mais incrédulos, como eu, foi difícil admitir que as coisas, no que à floresta, aos incêndios e ao mundo rural diz respeito, pudessem continuar como eram antes de tão gigantesca catástrofe. Foi difícil admitir que esse ano não ficasse marcado como o ano 0 de uma nova era para a floresta portuguesa. Afinal estava à vista de todos a violência da devastação de vidas e bens que incêndios em floresta mal ordenada e gerida podem causar.

De facto, sucederam-se declarações fortes dos responsáveis políticos, com enfáticas promessas. Não vale a pena elencá-las aqui, basta consultar as notícias que então se publicaram…

Volvidos que estão, desde aí, 3 verões, vale a pena refletir sobre o que mudou nas políticas florestais e rurais em Portugal, mas sobretudo no nosso concelho.

A verdade é que, se no país é difícil apontar alguma mudança significativa, no nosso concelho muito menos.

Pode questionar-se se o nosso Município poderia ter feito mais, se está nas suas mãos fazer a mudança? A resposta para mim é obvia. Claro que poderia fazer muito mais!

É que em Penacova não se faz sequer o mínimo. Basta olhar para as bermas das estradas. Em praticamente nenhum lado foi cumprida a exigência legal da limpeza de matos nos 10m contíguos às bermas. Se excluirmos a Freguesia de São Pedro de Alva, onde por iniciativa da Junta de Freguesia, essa limpeza foi feita, na generalidade do Concelho temos mato e arvoredo a entrar dentro das estradas, como continuamos a ter excesso de combustível nas imediações dos aglomerados urbanos.

Mas é manifestamente redutor pensar o problema da floresta e dos incêndios a partir de medidas de proteção civil e limpeza de excesso de combustível.

O foco tem que estar em políticas de ordenamento e gestão florestal.

Claro que sem um quadro legal e definição de políticas nacionais nesta matéria, os Municípios estão limitados na sua atuação.  Mas estar limitados não significa estar impedidos ou impossibilitados. No caso de Penacova, não posso deixar de ficar perplexo com a falta de iniciativa e de ideias nesta matéria.

No nosso concelho nada foi feito, nenhuma medida foi implementada, ou sequer pensada. Nada fizeram para incentivar a organização dos produtores florestais, não pensaram ou planificaram o ordenamento florestal, não pensaram ou refletiram sobre um modelo de gestão que potencie a valorização da floresta enquanto recurso económico, os seus usus múltiplos e a sua resiliência aos incêndios florestais. Claro que se trata de uma área difícil de trabalhar. Claro que exige coragem, perseverança, capacidade de ultrapassar obstáculos e visão estratégica e inovadora. Claro que é uma área em que os resultados tardam a aparecer. Mas é a fazer o difícil e complexo que se distinguem os bons dos maus políticos.

É uma pena, de facto, que em Penacova, na senda, aliás, de quem governa o país, se escolha sempre o caminho mais fácil da propaganda. Incomoda-me que se criem noticias em pleno agosto, como têm feito os responsáveis do nosso Município, com ações relacionadas com a prevenção de incêndios, que tinham obrigação de ter concretizado em março ou abril.

O Município tem muitos colaboradores com fardas da proteção civil, precisamos de outros tantos a pensar modelos de gestão e organização do espaço florestal e a calcorrear o concelho a sensibilizar as populações para a necessidade de um novo olhar para o espaço florestal que nos rodeia.

Se quisermos uma boa imagem do que pensam os nossos responsáveis municipais sobre este assunto, revisitemos uma noticia tornada publica em 2018 pelo Município, em que o presidente da Câmara, sem qualquer trabalho para apresentar nesta matéria nesse ano (à semelhança do que aconteceu em 2019 e 2020), aparece junto a uma buldózer  em ação de limpeza do terreno para construção do Centro Escolar de Figueira de Lorvão (http://www.cm-penacova.pt/pt/news/penacova-faz-trabalho-de-gestao-de-combustivel-no-ambito-da-prevencao-e-defesa-da-floresta-contra-incendios-n667) anunciando que estavam a trabalhar na gestão de combustível no âmbito da defesa da floresta contra incêndios. Melhor do que isto só meio governo em 15 segundos de roçadora na mão, também eles a propagandear o trabalho em matéria de  defesa da floresta contra incêndios (com os resultados que estão à vista, basta visitar hoje as mesmas regiões atingidas em 2017 para verificar o brilhantismo de tal trabalho…) Á falta de trabalho executado, responde-se com uma notícia para dar a impressão de que se esta a fazer alguma coisa.

Os responsáveis políticos deste país não aprenderam rigorosamente nada com 2017!