Vinharia do Mondego – A uva da frescura

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O Arinto arrisca-se a ser uma das melhores castas portuguesas. Confesso que é uma das minhas favoritas, mas os seus atributos fazem com que realmente seja um porta-estandarte dos grandes vinhos de Portugal. Apesar do seu aroma discreto, dá origem a vinhos vibrantes, de elevada acidez, com forte perfil mineral e enorme capacidade refrescante. Para além disso, outro dos seus grandes atributos é o potencial de guarda. As Caves de São João disponibilizam no mercado vários Quinta do Poço do Lobo Arinto do início da década de 90, que nos ajudam a perceber a capacidade de evolução desta casta.

Atualmente está presente em todas as regiões pelo facto de ser uma casta melhorante, ou seja, devido ao nervo que transmite aos vinhos acaba por ser misturada com outras castas. Nas regiões de Lisboa, Tejo e Bairrada há muitos casamentos com Chardonnay, no Alentejo é comum juntar-se ao Antão Vaz e também está presente em muitos lotes na região do Douro.

Não só produz vinhos brancos de elevada qualidade, mas também espumantes de refinada elegância. Regra geral, as sua notas aromáticas são de maçã verde, lima e limão. Dependendo da região onde se encontra plantada poderá apresentar outros aromas como cera de abelha e frutos tropicais.

O Arinto encontra o seu apogeu em Bucelas, denominação de origem dentro da região de Lisboa, onde é a única casta autorizada para produzidos vinhos DOC. O solo é ideal, composto por margas calcárias e calcários cristalinos, com numerosas presenças de fósseis como trigónia, ostras e bivalves vários. Tudo isto contribui para uma mineralidade afinada, com notas bem evidentes de concha. É na peça Henrique VI que William Shakespeare fala do vinho de Bucelas, chamando-lhe “charneco”, como era conhecida a região na época. É a prova que este vinho andava nas bocas dos ingleses há mais de 400 anos. A Quinta da Murta faz jus a esta referência, colocando nos seus rótulos “The wine of Shakespeare”.

Caso queira provar um bom exemplo da casta, sugiro o Marquês de Marialva Arinto Reserva 2017, produzido pela Adega de Cantanhede. Com uma relação preço/qualidade fantástica, é um todo-o-terreno à mesa dada a fermentação parcial em barrica, que lhe confere uma boa estrutura. Arroz de línguas de bacalhau será uma harmonização ideal.