Rastreios oncológicos – sabe tudo sobre eles?

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O rastreio é uma forma eficaz de diagnosticar precocemente doenças cuja história natural é conhecida e compreendida, em pessoas que não apresentam sintomas. Consiste na realização de exames simples e não invasivos, numa faixa etária específica e com regularidade variável, a pessoas aparentemente saudáveis e sem queixas. Assim, o rastreio permite-nos detetar uma doença quando a pessoa ainda não tem sintomas.

Em Portugal, existem três doenças oncológicas que devem ser rastreadas, por serem inicialmente assintomáticas: o cancro do intestino, o cancro do colo do útero e o cancro da mama. O rastreio destas doenças tem demonstrado a redução do número de mortes em aproximadamente 20% no cancro do intestino, 30% no cancro da mama e 80% no cancro do colo do útero.

Em Portugal, o cancro do intestino é o 3º mais comum. Está indicado o seu rastreio em homens e mulheres dos 50 aos 74 anos, através da pesquisa de sangue oculto nas fezes, que muitas vezes não é visível a olho nu. Se tem entre 50 e 74 anos, na consulta com o seu Médico ou Enfermeiro de Família, é-lhe entregue um kit, para que possa proceder à colheita de uma amostra de fezes no seu domicílio. A seguir, terá 48 horas para o entregar no seu Centro de Saúde, para que possa ser enviado para um laboratório. Se a pesquisa se revelar negativa, repete o mesmo processo daí a 2 anos. Se a pesquisa de sangue oculto nas fezes for positiva, tem indicação para realizar uma colonoscopia, um exame que permite visualizar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos, no caso de existirem (lesões que podem evoluir para cancro). De salientar que, nestes 2 anos de intervalo entre pesquisas negativas, se surgirem alterações dos seus hábitos intestinais, sangue nas fezes visível a olho nu, desconforto abdominal, cansaço ou perda de peso, é necessário recorrer ao seu médico, para que possam ser efetuados exames e esclarecidas estas queixas. Por outro lado, se na sua família já houve casos de cancro do intestino, pode ser necessário iniciar o rastreio antes dos 50 anos e fazê-lo com maior frequência, pelo que deve esclarecer esta necessidade na sua próxima consulta médica.

O rastreio do cancro do colo do útero destina-se à população do género feminino, com idade compreendida entre os 25 e os 60 anos. Mesmo as mulheres que fizeram a vacina para o vírus HPV devem fazer este rastreio. Este consiste na pesquisa do vírus HPV (causador do cancro) em citologia vaginal, exame também conhecido como Papanicolau, realizado pelo seu Médico de Família ou Ginecologista. Se o resultado deste exame for normal, este deve ser repetido daí a 5 anos, por não haver benefício em fazê-lo antes disso.  Se o resultado for positivo, pode ser necessário fazer mais exames ou ser encaminhada para uma consulta hospitalar específica.

O cancro da mama é o cancro mais frequente nas mulheres. Ainda assim, se detetado numa fase inicial da doença, 90% dos casos podem ter cura. O rastreio desta doença está indicado em mulheres assintomáticas com idade compreendida entre os 50 e os 69 anos, através da realização de uma mamografia. O programa de rastreio do cancro da mama da Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC) cobre atualmente toda a região centro do país e tem permitido o diagnóstico de centenas de cancros em fase inicial. A convocatória para o rastreio é feita por carta às mulheres inscritas nas Unidades de Saúde locais. Estas, podem dirigir-se às Unidades Móveis de Rastreio da LPCC, que normalmente estacionam junto aos Centros de Saúde/Hospitais locais, de 2 em 2 anos, para realização de uma mamografia, que é sempre gratuita. Se o resultado deste exame for normal, a mulher tem indicação para repetir a mamografia daí a 2 anos.  Pode haver necessidade de ser encaminhada a uma consulta de aferição para esclarecimento de resultados dúbios e no caso de o resultado ser anormal, a mulher é encaminhada para uma consulta hospitalar específica. Mulheres com próteses mamárias devem cumprir igualmente este rastreio, mas estas devem realizar também uma ecografia mamária para complementar o estudo. Cumprindo o rastreio, é possível um diagnóstico precoce de tumores muito pequenos, muitas vezes não palpáveis e submeter as mulheres a tratamentos mais conservadores, e assim proporcionar-lhes mais e melhor sobrevida.  É fundamental que a mulher esteja atenta ao seu corpo, palpe a sua mama de forma regular, e procure um médico sempre que surja um sinal diferente, que a preocupe.

É fundamental que a população conheça os programas de rastreio de doenças oncológicas e o seu caráter gratuito, que se esclareçam dúvidas práticas quanto à forma como se processam e que assim se eliminem fatores como a relutância em se submeter a determinados exames complementares de diagnóstico ou o medo de um diagnóstico potencialmente grave. Mesmo que os exames tenham alterações, não significa que tenha cancro. Apenas necessitamos de investigar mais. Há alterações benignas, encontradas nestes exames, que não requerem qualquer tratamento.

É verdade que vivemos tempos que têm tanto de diferentes como de incertos, em que paira o medo do desconhecido e falta de segurança no futuro. Mas não permita que a pandemia que atravessamos impeça o atempado diagnóstico de doenças potencialmente graves, mas inicialmente assintomáticas, cujo diagnóstico precoce permite melhorar em muito o seu prognóstico. As consultas médicas programadas estão a ser retomadas de forma gradual e com medidas de higiene e segurança acrescidas e os rastreios oncológicos já foram retomados também. Fale com o seu Médico de Família e esclareça as suas dúvidas.

Para terminar, tenho um último pedido. Durante o dia de hoje, escolha um familiar ou amigo para lhe falar sobre este assunto. Mostre-lhe este artigo, verifiquem juntos se têm os rastreios cumpridos e, se não for o caso, tentem marcar uma consulta para o fazer.

Drª. Joana Fernandes Duarte