Carolina Rojais, entrevistada do mês na rubrica ROSTOS COM INTERIORIDADES

0
871

‘Rostos com Interioridades’ será esta proposta de entrevistar todos os meses uma pessoa do concelho de Penacova, procurando dar visibilidade à abundância do seu pensamento.

Sendo de perto, não nos conhecíamos. Recebera o desafio de entrevistar Carolina Rojais, natural de Travanca do Mondego, estudante de farmácia e presidente da Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia, entre outros ofícios. O contexto da Covid-19 e a ânsia de um medicamento que cure ou de uma vacina que previna, bem como o concurso nacional de acesso ao ensino superior eram os temas motivadores. A conversa foi mais ampla e sê-lo-ia ainda mais, não fosse a ditadura do tempo.

Marcada a conversa no Trianon, em Celas [Coimbra], não resisto a recordar o livro ‘A ideia de Europa’, de George Steiner, para quem “a Europa é feita de cafés”, “lugares de entrevistas”, num Continente que “foi e é percorrido a pé”. Talvez aqui esteja um filão rico a explorar com inteligência e criatividade.

No meio da conversa, atrevi-me a sugerir, de Max Weber, ‘A Política como vocação’. E o que aqui deixo é o encadeamento possível de um diálogo com muitas ‘deixas’ para pensar e muitas possibilidades para per/pro-seguir.

“As farmácias podem ser um bom polo de compreensão do tipo de população que temos diante”

Carolina Rojais
Carolina Rojais, natural de Travanca do Mondego, estudante de farmácia e presidente da Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia

Penacova Actual [PA] – Além do currículo, o que diz a Carolina quando tem de falar de si e de se apresentar?

Carolina Rojais [CR] – O meu nome é Carolina Rojais, mas quase toda a gente me conhece e me trata por Rojais, que, talvez por ser um apelido incomum, foi aquele que ficou.

Desde a creche que estudei em Penacova e vivi em Travanca do Mondego. Saí de lá para a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, para frequentar o curso de Ciências Farmacêuticas.

PA – E Farmácia como única opção?

CR – A área da saúde chamou-me desde cedo à atenção. Ainda assim, a História era outra das minhas paixões, que, em concreto, muito contribuiu para despertar o meu interesse pela política.

PA – Havemos de falar disso adiante…

CR – Regressando à Escola Secundária de Penacova, tenho de recordar e sublinhar o sentido de colaboração que nela existia, o brio que os professores tinham no sentido de puxar pelos alunos para que seguissem o seu percurso académico o mais preparados possível, não apenas na dimensão estritamente científica, mas igualmente naquilo que poderiam encontrar na globalidade do mundo do Ensino Superior.

Revendo as minhas motivações para o curso e concretizando, tenho de evocar a oportunidade que me foi concedida de participar num projeto em parceria com a Escola Superior Agrária de Coimbra, no ramo da biotecnologia, onde fizemos um conjunto de aproximações a muitas realidades que vim encontrar mais tarde no curso de farmácia. Também recordo o dia em que a Prof. Doutora Cláudia Cavadas, do Centro de Neurociências, foi à Escola fazer uma conferência sobre células estaminais. Nesse instante, ao ouvi-la falar do curso de ciências farmacêuticas, pensei para mim: é isto que eu quero! E cá estou, feliz, num curso muito difícil e marcado pelo pormenor, onde, além de toda a dimensão laboratorial, temos toda uma componente centrada no utente, numa perspetiva muito humanista.

PA – Numa pesquisa breve pelo teu histórico de vida, percebi que na bagagem da vinda para a Universidade não estava apenas a motivação estritamente ‘livresca’, mas o desejo de aproveitar e participar na Academia com tudo o que esta tem para propor. Confere?

CR – Sim, é verdade. Trazia de casa o ‘bichinho’ da participação cívica. Na família tinha exemplos de participação, inclusivamente na Academia de Coimbra, mas igualmente na Associação da terra. Estive também em Miro, no agrupamento escotista da AEP, que é uma escola que estimula a motivação dos seus membros para a participação. Por feliz coincidência, por alturas do 12º ano pude igualmente conhecer muita gente que estava envolvida no associativismo…

Tudo isso semeou em mim o desejo do envolvimento. Já na faculdade, integrei a Tuna, onde fui estandarte, ‘capitalizando’ os conhecimentos da dança, que tinha feito anos antes. Depois, fiz parte do Núcleo de Estudantes de Farmácia, que é um dos 8 membros da Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia [APEF]. Conheci a APEF por via das atividades que a Associação realiza. Comecei a fazer parte desta ‘casa’ integrando o seu conselho fiscal e sou, neste momento, a presidente da direção. Trata-se de um espaço de representatividade de todos os estudantes de ciências farmacêuticas do país, com sede nacional no Porto, mas com uma enorme exigência de mobilidade, para que se possa estar perto dos estudantes no terreno que eles habitam. Obviamente que neste contexto pandémico, tivemos de migrar para o ‘on line’ muita da nossa atividade.

Resumindo, é verdade que não vim para a Universidade ‘apenas’ para estudar. O ano de caloira serviu para aproveitar as oportunidades que a Academia oferece e o 2º ano, muito pelo aumento exponencial e evidente da carga de trabalho, foi de encontro com a realidade, querendo com isto dizer que as opções atuais são já mais fruto de outra ponderação.

PA – Nesta linha, percebi igualmente o teu interesse e militância política. Como surgiu esse tipo de participação e como se concretiza?

CR – É verdade que sou membro militante de uma juventude partidária, no caso a JSD. O meu interesse político brotou do meu interesse pela História, que acredito que serve para olhar o passado com o intuito de o avaliar, para que os erros aí cometidos não se repitam, apesar da diferença incomparável dos respetivos contextos sociais.

O meu momento de crescimento, ao nível da tomada de consciência e do questionamento da realidade, coincidiu com a crise económica de 2008 e anos seguintes. O meu pai teve de deixar o emprego que tinha aqui e foi trabalhar para Angola. Recordo que isso me inquietou e me fez perguntar pelas razões de tal facto. Lembro-me de ver na televisão a queda do governo de Sócrates e a eleição de Passos Coelho e perguntar porque é que aquilo estava a acontecer. Por estes e outros factos, comecei à procura de saber mais. Falei com todas as pessoas, da esquerda à direita, de conservadores a liberais… Obviamente que ia dialogando também com pessoas conhecidas. O meu desejo era entrar onde quer que fosse pelo meu próprio pé, identificada com os ideais. Foi o que aconteceu. Quando comuniquei aos meus pais que ia dar este passo [sublinho o comuniquei], a resposta foi que não estavam surpreendidos e sabiam que, mais dia menos dia, isso acabaria por acontecer, apesar de não anteciparem em que grupo concreto isso ia acontecer.

Nomeadamente com a questão da presidência da APEF, continuo filiada, ainda que menos focada. Toda a gente respeitou esta minha decisão. Não queria dar margem para alguém sequer pensar em algum conflito de interesses ou em alguma incompatibilidade, apesar de, na minha cabeça e modo de atuar, os diferentes campos serem absolutamente claros.

Agora, como foi uma coisa – a juventude partidária – à qual aderi de uma forma identificada, é algo que continua muito presente e que, no entanto, considero ‘apenas’ mais uma, entre outras, possibilidades e formas de participação.

PA – Num olhar alargado sobre o concelho de Penacova, pergunto-me frequentemente quem faz a formação política, não partidária necessariamente, da juventude e das pessoas. As ‘jotas’ têm essa preocupação?

CR – Permito-me sublinhar dois aspetos prévios. Por um lado, a política autárquica é muito diferente da política nacional, sendo que na primeira, onde pertenço, a questão ideológica está mais diluída, sendo o centro a proximidade e a relação com as pessoas. Por outro lado, entendo que, dentro de um partido há linhas orientadoras comuns, mas existem igualmente diversas alas, de acordo com a liberdade individual, que entendo que deve sempre permanecer.

Respondendo à questão diretamente e falando concretamente da JSD/Penacova, essa preocupação pela discussão política de diversos temas existiu e existe, sendo de destacar os Ciclos de Formação Dr. Leitão Couto.

PA – Alguns dos leitores talvez olhem a figura do farmacêutico apenas como aquela pessoa que na farmácia lhes fornece os medicamentos prescritos na receita do médico. Afinal, que profissão é essa para à qual te andas a preparar?

CR – O farmacêutico é um profissional extremamente qualificado, com múltiplas saídas profissionais possíveis, que podem ir desde a Indústria, ao Marketing, às Análises Clínicas, à Investigação Laboratorial, à Farmácia Hospitalar… Podia elencar muitas outras áreas, sendo que, evidentemente aquela que as pessoas melhor conhecem é a Farmácia Comunitária. Temos cerca de 3000 e estamos muito bem posicionados em termos de ratio, no quadro europeu. As farmácias estão, muitas vezes, onde outras coisas não estão ou deixaram de estar.

Quando uma pessoa procura uma farmácia, sobretudo em registo menos urbano, não procura somente um profissional de saúde, mas uma pessoa concreta. Sermos os especialistas do medicamento é a nossa identidade específica, mas o que nos distingue, por exemplo, de um Bioquímico é esta vertente humanista, de orientação para o utente, para a pessoa e para as suas necessidades.

PA – Neste sentido, além do serviço que presta como sua tarefa primeira e essencial, a farmácia, sobretudo em territórios de baixa densidade populacional, é também um lugar relevante no cuidado social, fundamentalmente dos mais vulneráveis…

CR – Sem dúvida. Sobretudo nos clientes mais regulares, a farmácia constitui um canal aberto para a confiança que se estabelece na relação. Trata-se de ouvir, de estar com a pessoa, de ver como ela está. Temos de ter uma noção de quem temos diante de nós, sabendo que somos frequentemente o primeiro perito de saúde com quem as pessoas contactam.

Isto concretiza-se em coisas muito pequenas e simples, sobretudo nos mais idosos, que, muitas vezes, reconhecem os medicamentos pelas cores das caixas. Assim sendo, importa dar-lhes sempre medicamentos dos mesmos laboratórios, para que não se enganem na toma, tendo o cuidado posterior de ir percebendo se a medicação está a ser bem tomada.

A Associação Nacional de Farmácias tem mesmo um departamento que faz a mensuração do papel das farmácias na coesão social, que é muito relevante. A perspetiva é que somos os ramos, os braços do SNS e que as farmácias podem ser ainda mais bem aproveitadas neste aspeto da coesão e do acesso de todos à saúde.

PA – Também no concelho de Penacova haverá espaço para considerar a farmácia um interlocutor social relevante?

CR – Claro que sim. Já estagiei no Concelho e temos 5 farmácias distribuídas pelos polos de maior concentração populacional, sendo que as pessoas são provenientes, muitas vezes, de locais remotos. Nesse sentido, dentro do sigilo e da ética profissionais, as farmácias podem ser um bom polo de compreensão do tipo de população que temos diante e um bom ‘parceiro’ para a tomada de algumas decisões.

Quando entrei na vida política ativa, alguém me disse que a política se fazia no terreno. Como tem de se conhecer o terreno, no desejo de colmatar as necessidades das pessoas, avaliando, monitorizando e tentando melhorar, creio que as farmácias podem ser parceiras de quem tem de decidir nestes processos.

É preciso pensar com estratégia e não fazer coisas soltas, sem uma estrutura integrada. Nessa linha, existem muitos projetos interessantes já implantados, nesta relação entre a farmácia e a coesão territorial. Estagiei na Associação Dignitude [Dignidade com Atitude] e, entre outras dinâmicas, a associação tem o chamado “Fundo a Bem”. Trata-se de um fundo monetário que permite que não haja ninguém que deixe de ter acesso à sua mediação por questões monetárias, com um processo discreto, que permite preservar a intimidade de cada um e onde diversos agentes locais podem ser parceiros.

PA – No atual contexto da Covid-19, toda a gente espera ansiosamente pelo fármaco que cure da doença ou por uma vacina eficaz que a previna e evite. O que é que é razoável esperar e que tenha efetivo impacto na aldeia mais recôndita e pequena do Concelho?

CR – Importa esclarecer que estamos diante de um vírus com caraterísticas algo peculiares, com diversas estirpes e com várias mutações, que, ainda assim, são algo normal. Ora, uma eventual vacina tem de cobrir um número muito significativo de todas estas variáveis, para que se justifique. Para tal acontecer, importa olhar para a evidência científica.

Aqui chegados, temos de reconhecer que é notável o nível de produção de ciência conseguido e a rapidez com que o mesmo foi alcançado. Por outro lado, também é verdade que os ensaios clínicos têm muitas fases de desenvolvimento e que, num certo ponto, os estudos têm de ser feitos em humanos. Para quem possa achar eticamente estranho que se teste em humanos algo sobre cuja eficácia não se tem uma absoluta certeza, deve dizer-se que este processo é minuciosamente escrutinado, de acordo com critérios científicos e éticos.

Como tal, e centrando-me na questão, ainda vai levar algum tempo até que uma vacina esteja ao alcance das pessoas. Até lá, importa não permitir que a questão dos eventuais fármaco/vacina seja tratada como um jogo de poder. A vacina também não pode ser algo demasiadamente apressado, dado o perigo que representa para a saúde. Não se deve ser rápido nesta questão, apenas para ceder à pressão mediática internacional para que apareçam resultados. Convém não esquecer que falamos de vidas. Quando surgir a ansiada vacina é desejável que ela tenda para ser universal, ainda que se saiba de antemão que existem grupos de riscos e que será necessário estabelecer prioridades.

É fundamental, neste entretanto, ir seguindo as recomendações das autoridades de saúde, que custam, mas que são por um bem maior. Aqui, nomeadamente os mais jovens e mais bem informados, todos podemos desempenhar um papel de alerta junto de quem negligencie estas questões. Sem fazer julgamentos de ninguém, nem focar o discurso nas culpas ou nos culpados, importa ajudar a entender que não se trata de algo relativo à liberdade individual. Difundir informação de qualidade, para que as pessoas não se deixem ir atrás de notícias falsas, é uma obrigação de quem tem mais acesso a ela e foi um papel bem desempenhado, nomeadamente pelas associações juvenis ligadas à saúde, ajudando em muitas circunstâncias a entender o porquê das medidas impostas, sobretudo as mais restritivas.

Os problemas comuns, como este que vivemos no quadro da Covid-19, podem ser distorcidos por jogos de poder. Há que perceber que mais e melhor saúde global significa mais e melhor ‘saúde nacional’. Em causa estão os nossos conceitos de sociedade e de comunidade. Para quem, como eu, cresceu sempre em contexto de União Europeia, com ideias de partilha, isto parece evidente. Mas há sempre que fortalecer estes laços e não permitir que alguns sinais contrários que aparecem aqui e ali os destruam. O mundo digital – e eu assisti ao seu disparo muito veloz – diz-nos que o Mundo é tão global, que não se pode viver sem ter isto em conta.

PA – O Ensino Superior teve este ano a maior procura desde há várias décadas. Como vês esta realidade e, sobretudo, como a lês no concelho de Penacova?

CR – No caso concreto de Penacova, vislumbro duas realidades relativamente a esta questão. Por um lado, acompanhamos a tendência geral dos jovens concluírem o secundário e prosseguirem estudos no Ensino Superior. Estes procuram um maior grau de especialização e um conhecimento mais científico e técnico. Por outro lado, alguns jovens ingressam em cursos profissionais, com o desejo de uma entrada mais imediata no mercado de trabalho.

Se olharmos à geografia territorial, percebemos que Penacova está bem situada no tocante à oferta de Ensino Superior, dado que tem a poucos quilómetros uma cidade como Coimbra, com toda a oferta da Universidade e do Instituto Politécnico, nas suas diferentes Escolas. Esta ligação próxima é tão clara, que alguns jovens até optam por permanecer em casa dos pais, fazendo a viagem diária, ao invés de virem morar para Coimbra.

Se olharmos à realidade, temos de reconhecer que, apesar dos esforços e avanços, ainda há jovens sem possibilidade económica para frequentar o ensino superior. Mesmo com o crescente decréscimo da propina, esta é nem o maior, nem o mais significativo gasto.

PA – E esse incremento do Ensino Superior, no caso de Penacova, significa depois um enriquecimento para o Concelho ou uma ‘exportação’ desse conhecimento para outras paragens?

CR – Em Penacova, pelo menos no começo, verifica-se quase sempre uma saída dos jovens do Concelho, dado que é necessário ganhar experiência para se poder sustentar uma carreira. Quando olho para a minha área, vejo no concelho vizinho de Mortágua possibilidades de emprego e pergunto-me sempre porque não investem tantas empresas em Penacova. Tivemos a implementação relativamente recente de uma empresa da área metalúrgica, mas parece que tudo cresce a um ritmo mais lento.

Fazer com que os jovens fiquem ou dar-lhes condições para o regresso são duas necessidades que têm de ser concretizadas. Eu própria quero voltar a Penacova, é o lugar onde me vejo a estabilizar e a constituir família, mas, primeiro, sei que terei de sair, para adquirir experiência. Eu e todos os outros vamos, ainda assim, necessitar de incentivos para o regresso. Não haverá fixação se não existir nada que fixe. Podíamos, por exemplo, explorar mais sinergias entre a Academia de Coimbra e o concelho de Penacova. Ou, quem sabe, lutar por uma coesão distrital, que melhoraria a coesão da cidade de Coimbra e dos concelhos que compõem o distrito.

PA – Numa frase curta, como vês o futuro de Penacova?

CR – Penacova é um poço de oportunidades, a precisar de uma estratégia. Há que ir à raiz do problema.

PA – Vês-te nesse futuro?

CR – Sim. Como já disse, quero voltar. De tal forma isto é uma convicção, que afirmo que gostava muito de fazer parte, um dia, dos futuros decisores do Concelho. Há em mim essa ambição.

Texto de Luís Francisco Marques