Vinharia do Mondego – Da vinha para a talha

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Vinho da talha

Neste último fim-de-semana tive a oportunidade de participar na arte de produzir vinho de talha. Na aldeia de Vila Alva, junto à Vidigueira e bem no coração Alentejano, a tradição de produzir vinhos em ânfora mantém-se bem viva. Em cada casa da vila há, pelo menos, 3 pequenas talhas onde cada um produz o seu vinho através de métodos que são de uma simplicidade impressionante. Numa época onde os vinhos naturais estão tão em voga, aqui, essa naturalidade é a essência.

Após a vindima, as uvas foram transportadas para a adega, onde foram esmagadas com e sem separação de engaço. As talhas foram higienizadas com enxofre para poderem então receber as uvas acabadas de esmagar. Fez-se uma pequena remontagem para homogeneizar mosto e massas e está feito! Nada de leveduras adicionadas, controlo de temperatura ou outras brincadeiras. Agora é só fazer a remontagem diariamente para impedir a oxidação das massas ou até que a ânfora rebente!

Mais tarde, assim que o vinho estiver pronto, entra a arte de lotear. O vinho com engaço, ou seja, com mais tanino e agressivo, será misturado com vinho de outras ânforas em que o mosto fermentou apenas com as películas, para que seja encontrado equilíbrio e o perfil que o produtor deseja para o seu vinho.

Talhas XXVI foi a casa que me recebeu para fazer parte desta tradição milenar. Na sua modesta adega no centro da vila, possuem 26 ânforas de diferentes tamanhos e idades, todas marcadas em numeração romana. Desde os pequenos tarecos até às maiores, com capacidade para cerca de 1000 litros, onde são produzidos brancos das castas Diagalves, Manteúdo, Antão Vaz, Perrum e Roupeiro, e tintos das castas Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet e Tinta Grossa.

Mestre Daniel Branco 2018 Deixo-vos a sugestão de hoje: Mestre Daniel Branco 2018 feito de Antão Vaz, Perrum e Roupeiro. Resulta do lote de duas talhas, uma com capacidade de 900 litros e outra de 800 litros. Apresenta aroma a fruta branca madura e ligeiro herbáceo. Na boca apresenta-se muito fresco, seco e mineral, com bom volume de boca e um toque ceroso. Um vinho bastante guloso e, dada a sua estrutura, um parceiro ideal para as migas com carne de porco que foram servidas durante o almoço.

Voltarei a 11 de Novembro, dia de S. Martinho, para fazer uma nova visita à adega e participar na abertura das talhas, para provar o vinho novo, num evento que, dada a sua importância histórica, teve participação recente nas 7 maravilhas da cultura popular.

Visite-me no Instagram, na página do projeto Vinhàprova, onde encontrará algumas imagens e vídeos do enchimento das talhas e muito mais!