“Não estamos imunes e o luto também um dia bate à nossa porta”

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Carlos Fonseca, agente funerário, entrevistado pelo Penacova Actual

A morte talvez seja a única questão da vida. É, pelo menos, a que mais faz pensar.

Se isto vale sempre, por maioria de razão, no estado excecional que estamos a morte provoca. Além dos novos casos de infetados, todos os dias somos confrontados com o número dos que morreram.

Neste contexto, o Penacova Actual decidiu entrevistar Carlos Fonseca, agente funerário com loja em Penacova e em S. Pedro de Alva, com um amplo conhecimento da realidade concreta do Concelho a este nível.

As perguntas foram-lhe enviadas por escrito e as respostas devolvidas pela mesma via. Também é uma conversa com a marca dos tempos. Aos nossos leitores deixamos o essencial desse diálogo.

Carlos FonsecaPenacova Actual [PA] – Como se costuma apresentar o Carlos Fonseca e como costuma apresentar o seu trabalho?

Carlos Fonseca [CF] – O Carlos Fonseca apresenta se sempre da mesma maneira com respeito e princípios que me foram transmitidos, pois ninguém é superior a ninguém. O meu trabalho não é fácil de apresentar porque é um trabalho que todos um dia precisamos, mas nunca ninguém quer.

PA – Tem facilidade em lidar com a morte com os lutos? Quais são as maiores dificuldades com que se depara?

CF – Eu não chamaria facilidade, mas um pouco mais de à-vontade com o passar dos anos, porque custar custa sempre, pois também somos humanos e fica sempre um sentimento por quem parte e pelas famílias que ajudamos. As maiores dificuldades são a falta de apoio no luto. Estamos num país onde o luto é feito cada um por si e existem muitas situações que um apoio de alguém especializado seria muito importante, porque o luto nunca é igual, nem de situação para situação, nem de pessoa para pessoa. E, se durante os velórios, nós vamos acompanhando e ajudando, os dias e meses seguintes são vividos muitas vezes à deriva.

PA – Num território de tradição expressivamente católica, apesar da presença de outras confissões religiosas, existem pedidos de funeral não religioso?

CF – Sim. Com o passar dos anos vamos vendo mais essa situação, mas a nossa obrigação é fazer de tudo para respeitar o luto de cada um, seja qual for a sua religião.

PA – Obviamente sem revelar nenhum pormenor que invada a identidade das pessoas quer partilhar connosco um funeral que tenha sido marcadamente difícil de fazer, onde, eventualmente, o vosso próprio lado emocional de profissionais se envolveu mais do que o habitual? E algum pedido mais inesperado, já aconteceu?

CF – Nós, agentes funerários, não estamos imunes e o luto também um dia bate à nossa porta. A mim também já bateu várias vezes e essas situações são difíceis, dolorosas e também passamos pelos sentimentos que ninguém quer. Temos de ser corretos, leais e humanos com todos, não fazendo diferença, mas não é fácil quando nos toca. Ao longo destes anos, tive vários pedidos, desde os mais comuns aos que se calhar nunca pensei ouvir, mas sempre reagi da mesma forma, pois todos temos direito a uma despedida digna, seja com pedidos inesperados ou não. Será sempre assim o meu pensar.

PA – Penacova é um lugar “onde a Natureza vive!” Desta conhecida e inspiradora frase, podemos concluir que se vive bem neste Concelho. Sendo certo que não é o único operador, mas com a consciência de que possui duas lojas e cobre uma ampla zona do território, atrevo-me a perguntar: e morre-se muito? E morre-se ‘bem’?

CF – Não se morre muito nem pouco. Há anos em que morrem mais pessoas que noutros, mas é assim em todo o lado. E Penacova, mesmo sendo um Concelho onde se vive bem, não é exceção. Em relação ao morrer “bem”, acho que nunca morremos bem, porque fica sempre alguma coisa por fazer, mas uma certeza que temos à nascença e cabe a cada um fazer o que lhe for possível durante a vida para poder morrer “BEM”.

PA – Nos casos em que, eventualmente, se ‘morra mal’, o que mais falha? Acompanhamento familiar? Cuidado público de saúde? Resposta institucional? Condições de fragilidade ao nível financeiro e habitacional?

CF – O morrer mal infelizmente existe. E tem várias vertentes. Temos uma população envelhecida, temos muitas pessoas a viver sozinhas, sem um acompanhamento certo, temos um país financeiramente perdido… Por estas e outras razões, temos tudo para ter situações em que reina um sentimento de injustiça. Mas também dou valor às instituições que lutam para isso não acontecer, porque também há pessoas que não aceitam ajuda. Só que nunca chegamos a todos e nas aldeias cada dia e cada ano que passar vai ser cada vez pior se não se fizer alguma coisa, pois há situações muito desumanas de se viver. O acompanhamento familiar é muito importante, mas as pessoas tiveram que sair para procurar trabalho e estão longe, o que torna difícil esse apoio. Não quer dizer que não se preocupem, mas não conseguem. Temos idosos a viver com reformas muito baixas e isso acaba por interferir com as suas condições de vida.

PA – Considera que a morte é um elemento integrado como parte da vida? Ou entendo necessária alguma educação neste âmbito?

CF – Falo muito nessa situação com os meus amigos, pois sabendo a vida que levo, há muita curiosidade e noto que as pessoas não gostam de falar na morte. Porquê? Infeliz ou felizmente é a nossa única certeza que temos e faz parte da vida. O nosso país não tem o costume de falar sobre a morte, nem de tentar educar e depois o luto vai tornar-se mais difícil. Sei que não é fácil falar da morte, mas que iria ajudar muita gente em situação de luto ia, porque temos pessoas que andam anos a fazer o seu luto sem nunca voltarem à rotina normal. Isso altera a vida de um ser humano e nós ficamos a olhar e a dizer as frases habituais: a vida continua; tens de ser forte; ele ou ela estão a olhar por ti… Nós vamos falando, mas a dor da pessoa não é assim que passa, a solidão vai matando e o apoio, muitas vezes, é nulo.

PA – O contexto da Covid-19 alterou profundamente os hábitos de celebração dos funerais?  Esses elementos de novidade sentiram-se por cá certamente e influenciaram também o vosso trabalho. Trata-se de situação assumida já tranquilamente pela comunidade? O que sentiram necessidade de alterar? Há algum aspeto que vos pareça necessitado de melhoria?

CF – Sim. Alterou e muito. A comunidade até entende, mas não é fácil de aceitar quando se vê outras situações com mais pessoas e na despedida do seu familiar não podem prestar a homenagem que queriam ou iniciar o luto como pretendiam, pois ficaram impedidas de muita coisa. As alterações foram tantas que até no nosso apoio às famílias é diferente, porque não conseguimos acompanhar tanto. Existem aspetos que deveríamos melhorar, não só em Penacova, mas a nível nacional. Numa altura em que as pessoas estão a morrer, muitas delas nas suas habitações, a falta de condições das capelas dos cemitérios são notórias. Não em todas, mas temos muitas sem condições para a realização do funeral ou para o corpo estar em “câmara ardente”.  Mas isto também é uma situação temporária, esperamos nos. Esperamos que brevemente possa voltar tudo ao normal.

PA – Há algum trabalho de acompanhamento dos lutos das famílias? Sente-se essa necessidade ou esse aspeto fica apenas reservado a casos mais graves e é vivido na intimidade das famílias?

CF – Durante o processo da realização do funeral e alguns dias depois nós acompanhamos, ajudamos, falamos e vamos sempre aconselhando as famílias. Mas depois, infelizmente, o luto fica vivido na intimidade das famílias, porque, como já disse, não temos um país com essa mentalidade. Mas, na minha opinião, era muito importante o acompanhamento, porque, se temos situações mais comuns, onde o luto é mais leve, temos situações de luto muito fortes, com negação, com incertezas de vida, com desnorte e isso é vivido sem apoio e em dor. Mas infelizmente é assim.