Nascido e a criar-se entre três concelhos

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Toda a viagem é sempre viragem… Como humanamente a atitude de suspender juízos é própria de mentes muito elevadas, todos viajamos com premissas. Umas vezes o terreno talvez confirma o que pensamos. Quase sempre modifica o que escolhemos para bagagem. A estrada molda e ajusta e, por isso, é aí que a vida acontece.

O Penacova Actual quer assumir este desafio de trilhar os caminhos sulcados pela densidade das histórias de vida e escolhemos desaguar este primeiro olhar na freguesia de Carvalho. O que se segue são as sensações de uma porção de horas em três dias de viagem, vagueando a sabor do acaso, mas a querer [re]parar além da espuma do tempo. De fora, para outras competências, ficam análises técnicas ou recolhas históricas. Aqui, tratou-se de fazer do acaso ocasião.

Acrescentamos um texto da autoria de Arsénio Simões, nascido e criado na freguesia e presidente da Comissão Baldios, e outro da responsabilidade da Santa Casa da Misericórdia de Penacova, com um Polo em Carvalho, incontornável no cuidado aos mais frágeis e enquanto entidade empregadora local.

Com este Caderno da Freguesia de Carvalho, o Penacova Actual pretende criar uma rede de colaboradores, que passem a enviar sistematicamente as pequenas notícias da freguesia para publicação.

Uma freguesia com uma identidade

“Somos poucos.” De sorriso tímido, com postura firme e convicção resignada, assim nos respondeu Maria do Céu Simões, quando a surpreendemos com uma visita e lhe perguntámos por aquilo que identificava os habitantes da freguesia de Carvalho. Na exclamação espontânea não se vislumbra apenas [nem sobretudo] a nostalgia dos anos idos. Desprende-se na sonoridade o desejo de uma intensidade de vida que não se consegue lograr com a escala reduzida de pessoas na atualidade. Queria que acontecesse mais, é que respira. O pão, o peixe e a fruta vêm ter à porta. De resto, o que a terra não dá, para quem não tem carro, é conseguido com o recurso ao táxi, que conduz quem precisa à Espinheira ou a Mortágua.

No vale de aparência fértil, fomos encontrar Arsénio Simões, ‘denunciado’ pela esposa, guiados pelo som da motoserra e identificando a cor do seu trator no meio do campo de milho. Há 64 anos que cá mora e não quer sair. Ter sido guarda florestal fê-lo conhecer os recantos da freguesia e reconhecer que uma profissão como a sua contribuía certamente para que houvesse hoje menos área ardida.

“A arte de bem receber”, a “sensibilidade para quem aparece” são as maiores virtudes que o nosso anfitrião sublinha nas gentes de Carvalho. Prova-o a disponibilidade pronta com que acolheu a inusitada visita que o fez interromper a labuta, mesmo se tenha ficado adiada a visita à adega, para acrescentar a comida e a bebida como os outros sinais evidentes de acolhimento. Humor à parte, Arsénio Simões confidencia fazer parte de uma terra “sensível à atualidade”, que preza os valores da família, onde o facto de “todos se conhecerem” facilita a “entre ajuda”, manifesta em questões do labor quotidiano e, igualmente, no cuidado com os mais idosos.

Persuadido a olhar para as fragilidades, admite que Carvalho “não tem gente carenciada”. Para o nosso anfitrião, “todos vivem modestamente, com o mínimo”. Reconhece que existem sempre algumas desigualdades, mas não vê muitos “abastados, nem grande discrepância entre o maior e o menor”. Olha para o número excessivo de população idosa como um problema. Talvez esteja aqui igualmente um desafio. A pensar e a fazer. Com muitos, mas certamente com os de cá primeiro. E, para isso, há que viajar, quem sabe se para uma vi[r]agem!

Se tivesse nas suas mãos a possibilidade de resolver um grande problema da terra, não responde logo, ainda que se perceba que não pensou muito. Primeiro reconhece o avanço da água, da luz e das estradas razoáveis. Coloca um entre-texto nas suas palavras, para nos dizer que a que estava pior está em vias de ser resolvida. Por um lado, vê-se gratidão, mas, por outro parece dizer que se fez o que tinha de ser feito. Depois, reponde: “se eu tivesse esse poder nas mãos, colocava o saneamento”.

“Diga-nos de que vivem as pessoas por aqui, senhor Arsénio?” A emigração iniciada na década de 60 trouxe alguma riqueza, melhorou as vidas, permitiu ter casas melhores, declara ele. Esses emigrantes estão agora a regressar, envelhecendo ainda mais a freguesia, já que os filhos e netos ficam por lá. Do fenómeno migratório não resulta a criação de emprego. Os territórios concelhios, em regra, não têm explorado esta possibilidade de seduzir para o investimento e desenvolvimento locais os seus que partiram em busca de outros mundos. Como quase tudo, uma fragilidade e um desafio.

Do que a terra produz, “não se vende nada”. Cultiva-se para consumo em casa, para partilhar com filhos distantes, para alimentar os animais e para manter equilibrado o orçamento familiar, gastando menos no comércio. As “questões fiscais” são um impedimento. “Com um mercado livre, haveria mais hipóteses” de escoamento dos produtos. Os idosos, que são a esmagadora maioria dos habitantes, não têm possibilidades de responder às exigências burocráticas da atualidade. Além do javali destruir muitas culturas, Arsénio Simões considera que “não há incentivos à produção agrícola”, na escala que em Carvalho é possível. Aponta para uma política agrícola renovada em termos nacionais e não tanto para resoluções de nível local, como o espaço da paternidade do problema e da solução.

Carvalho é uma freguesia nascida e criada entre 3 concelhos e 3 distritos. O nosso anfitrião diz que se vê “maior desenvolvimento nas freguesias dos concelhos vizinhos”, alertando que a “nossa cartografia não ajuda”, não deixando de lembrar que no passado, os autarcas desses concelhos foram mais empenhados que os que então assumiam os destinos de Penacova. Considera que as gentes mais jovens de Carvalho fogem para Mortágua e Mealhada. “Exportamos o que é bom e eles acabam por ficar por lá.” Ao invés de beneficiar do crescimento dos vizinhos, advoga que Carvalho não cresce por estar perto de quem está mais desenvolvido.

Para Arsénio Simões, as questões históricas, ligadas às Invasões Francesas, ou as turísticas, relacionadas com a Rota do Bussaco, por exemplo, são mais “para turista ver” e não têm real impacto na vida dos habitantes de Carvalho.

Numa volta pela freguesia, encontramos o seu nome em quase todas as placas de inauguração de equipamentos públicos, na qualidade de presidente da Comissão dos Baldios. Arsénio Simões explicou-nos em traços largos que se trata de uma lei que apareceu depois do 25 de abril. Consiste em retribuir à comunidade os rendimentos das terras que lhes foram sonegadas pelo Estado Novo. Com a venda de árvores [60% para os compartes e 40% para o Estado] ou com o aluguer de espaços, como é o caso do recente parque eólico [100% para os compartes], consegue-se dinheiro que é aplicado na colaboração em obras importantes para a freguesia.

Modos de vida

Na Pendurada fomos surpreender a Dona Aida. Ou melhor, a sua irmã primeiro, a qual, pese a sua insuficiência auditiva, conseguiu ir avisar a Aida da nossa presença. Curioso que uma terra com cerca de uma dúzia de famílias tenha outrora estado dividida em Pendurada de Cima e de Baixo. Sinais dos tempos. Longe vai a época em que a senhora carregava o seu filho ao colo até Carvalho, para ele receber a vacina. Hoje essa deslocação apenas acontece por obrigação maior. Mesmo a Penacova só se vai para os serviços obrigatórios, dado que os acessos são difíceis e os transportes escassos, para quem não é autónomo. Todos os habitantes que têm emprego trabalham nos concelhos vizinhos. Os que ficam não lamentam ficar. Num suspiro de preocupação, vê-se a tristeza pela falta de crianças e pela festa congregadora da Senhora da Boa Morte, que têm dificuldade em realizar com o bri[lh]o de antigamente. De resto, diz-nos a dona Aida, “aqui não falta nada”. “Haja dinheiro, que vem tudo o que é preciso ter à porta.” Conta-nos que as vendas ambulantes trazem a mercearia, o peixe, a carne, o pão…

No Cerquedo encontramos Adélia Romano, Maria de Lurdes e Maria Olívia. Com espontâneo tom hospitaleiro, falam-nos da gente boa, que tem umas “coisitas” numa pequena mercearia agregada ao único café da terra, mas que, para compras, arranja forma de ir à Mealhada. Contam-nos que ainda resistem algumas como utentes do Centro de Saúde do Luso, memórias de uma época em que isso era possível e que “bateram o pé” para que assim permanecesse.

Adélia Romano, Maria de Lurdes e Maria Olívia

Os filhos [mais filhas, ao que parece!], saídos pelo casamento, foram, na sua maioria, habitar as terras dos cônjuges. Regressam para olhar pelos seus, vigiando a saúde e o modo como a cuidam, e para colher algo do que a terra dá e da qual não desiste a teimosia dos que persistem.

“Diga que somos terra de gente boa”, atiram com espontaneidade quando desafiadas a resumir a identidade do local onde resistem como habitantes. “Somos os últimos do Concelho de Penacova”, desabafam, denunciando que ‘quem manda’ não os conhece. O que poderia ser um lamento, sente-se assumido como desafio à persistência de seguir em frente. Como se dissessem, ‘não faz mal, que nós cá nos arranjamos’. Os últimos serão mesmo os primeiros, já que a análise das ‘geografias’ depende sempre do ponto de vista e da circunstância no analista.

Uma caraterística diferenciadora

‘Lovely place’, local magnífico, encantador, foi a expressão que escutámos, quando perguntámos ‘porquê escolher a freguesia de Carvalho [lugar da Pendurada, no caso] para viver. A expressão está em língua inglesa porque foi exatamente assim que foi verbalizada. O espaço está impecavelmente reconstruído, com gosto e respeito pela memória, com o melhor do ‘urbano’ conjugado com a atmosfera rural.

Quisemos saber que mapa de encruzilhadas trouxera até ali aquele casal de ingleses em pleno gozo da reforma. Um cunhado descobrira S. Paulo, noutro canto da freguesia, e a sedução pelo espaço nasceu aí. Indagando um pouco mais, percebemos que a Escola Primária, há muito sem alunos, foi já comprada pela segunda família inglesa. Na terra há ainda outro casal estrangeiro. No Cerquedo, mais uma família, onde uma velhinha doce exclamava sorridente que “bom era haver também um inglês que comprasse a minha [casa], que eu ia viver com a minha filha”.

Com o David, outro cidadão britânico residente em Vale das Éguas, noutra extremidade da freguesia, a conversa foi mais longa. Vive ali há quatro anos e estava, na ocasião, acompanhado do filho Michael, que o visita regularmente porque considera aquele lugar muito melhor que a sua zona inglesa de origem.

O diálogo ocorreu no café ‘A Cerejeira’, no vizinho Alcordal [já concelho de Mortágua], o único estabelecimento comercial das redondezas. O anfitrião, José Maria Rodrigues diz que o que mais falta na terra são pessoas. Queixa-se que a emigração de hoje não transporta consigo nas férias a riqueza de antigamente. “Se não fosse os que cá estão, não era com os emigrantes que sobrevivia”, sentencia o proprietário.

Regressamos ao David, que nos fala de um lugar agradável, onde destaca as pessoas, a beleza natural e a empatia acolhedora da comunidade local. Reconhece que é a esposa que se relaciona mais com a vizinhança, porque a língua portuguesa ainda não é algo que domine.

Sente que a comunidade estrangeira poderia ser parte da solução para revigorar a vida da aldeia. Diz-nos que inclusivamente o grupo de britânicos se conhecesse, comunica e relaciona-se entre si. O David frequentou um curso de Português em Mortágua, interrompido pela pandemia, mas que não o entusiasma porque o colocaram a estudar com gente demasiado jovem, com expetativas e interesses muito distantes dos seus. Com Penacova tem uma relação escassa, conhecendo somente algo da dimensão turística.

O filho Michael confidencia que, no futuro, pretende estabelecer-se por cá. O trabalho é o problema, lamenta. O custo de vida é mais baixo que em Inglaterra, mas o trabalho por cá, além de muito pesado, é mal remunerado.

Estará certamente aqui um filão de futuro, a explorar, trabalhando a promoção, cuidando do acolhimento e potenciando pontes de integração social. A comunidade estrangeira que habita Carvalho é já muito significativa e será uma insuficiência estratégica ignorar este facto. Um morador local alertava que os proprietários aproveitam para inflacionar os preços e, na sua opinião, esta atitude tem enfraquecido o interesse da procura.

Os emigrantes

Vagueando pela freguesia neste período de Verão, as matrículas estrangeiras, na maioria francesas, não passam incógnitas.

Um habitante desabafa que, felizmente, a diferença entre os emigrantes e os locais não é tão avassaladora como antigamente. “Terminou aquele tempo em que um emigrante chegava ao café e pagava uma ‘rodada’ a quem estivesse”. Neste sentido, a emigração atual é hoje “menos forte”!

O João é um jovem oriundo de Vale das Éguas que vive com a família nos arredores de Paris. Nota-se a dificuldade com a língua portuguesa. Ainda estuda, tem o regresso muito longínquo em mente, mas, para ele, Carvalho ainda é ‘só’ o lugar do descanso e da diversão.

Talvez esteja igualmente na diáspora muito do [bom] futuro não desbravado da freguesia!

O longe, o perto e o ‘centro’ da freguesia

O Alcino, do lugar do Capitorno, diz que só vai a Penacova obrigado. A distância é semelhante, mas o acesso a Mortágua é francamente melhor. Tem tudo à porta, mesmo se um pouco mais caro. Admite que, para algumas coisas, compensa mais a deslocação ao Concelho vizinho. Mesmo a Carvalho só se vai à Junta, ao cemitério ou a alguma festa. O longe e o perto depende dos interesses, das motivações, dos meios e das facilidades/dificuldades de deslocação, ao nível dos transportes e ao nível do relevo físico.

Neste sentido, relata-nos que a Festa de Santo António do Cântaro é o único elemento que congrega a freguesia inteira. A música, a comida e a bebida são os motivos que se acrescentam à devoção e que são preparados para todos por uma comissão de 7 solteiros e 7 casados, nomeados dentre a freguesia inteira. Eis um centro com magnetismo natural e, quem sabe, a carecer de uma revitalização inteligente e criativa.

Possibilidades

Verter em texto a presença em Carvalho tem o objetivo de dar visibilidade a um lugar e de lançar questões.

Estradas e transportes serão, no imediato, a ponte relacional da freguesia com a sede de Concelho. Em paralelo, do lado da sede e nunca da periferia, fica a responsabilidade de ser significativa atração, para que não se transforme em irrelevante ou somente em burocrática e legalmente obrigatória. Por outro lado, uma terra de fronteira tem de se pensar e ser pensada em relação com os dois lados da fronteira, sem complexos de inferioridade ou superioridade. Além de que a margem é habitualmente o lugar mais interessante para se habitar.

Os estrangeiros que escolhem Carvalho para habitar têm de ser provocados a viver Carvalho. Para isso, a freguesia tem de se oferecer, disposta a ser enriquecida pela mundividência de quem chega. Um curso de Português e Cultura Portuguesa parece ser uma urgência fácil de implementar, nomeadamente com a presença da Escola Profissional Beira Agueira em Penacova. É preciso ir, para que venham. E para que possam trazer mais, no futuro.

Numa reflexão estratégica mais de longo prazo, uma ‘Aldeia-Lar’ poderia ser uma resposta ao modelo exclusivamente institucionalista de cuidar dos mais velhos. Elegendo uma aldeia ainda com alguma vida, integrando a comunidade de utentes, para que estes não sejam um ‘guetto’ marginalizado, mas pessoas respeitadas e promovidas na sua relação social. Os serviços da ‘Aldeia-Lar’ [alimentação, higiene, roupa, saúde, terapias várias…] poderiam beneficiar tanto os ‘institucionalizados’, como a fatia de comunidade ainda ativa. Neste sentido, a presença da Santa Casa com um Polo na Freguesia pode representar um começo.

Trabalhar a relação com a diáspora é uma obrigação. Suscitar a comunicação aumenta o conhecimento e promove a relação. Carvalho é quem vive [n]aqueles lugares e os que estão espalhados em Portugal e no Mundo.

Por fim, rever e replicar os centros aglutinadores, a partir da ideia de Santo António do Cântaro. Juntos poderão ser poucos, mas separados os habitantes que restam terão de se resignar à sobrevivência individual e tornar-se-á irrelevante a dimensão social, que é essencial à felicidade humana. Note-se que os estrangeiros, depois do ambiente físico, apontam as pessoas agradáveis como fator de sedução. Este é o ouro da terra!

Eu e a Minha Freguesia de Carvalho

Por momentos olhei para a minha freguesia, no seu passado, presente e calculei o futuro. Em relação ao passado, recordo as gentes pobres, com famílias numerosas, vivendo de produtos extraídos da sua terra. Chegada a década dos anos sessenta, eis a corrida à emigração para países da Europa, uns em busca de vida melhor enquanto os jovens fugiam à tropa, evitando a guerra em terrenos africanos. Recorriam a uma viagem de risco, levados pela mão de um tal «passador». Para trás deixavam esposas e mães, aguardando notícias pelo correio, único meio de comunicação existente. Nessa altura apenas existia um telefone, posto publico na freguesia. Desta forma, as povoações despovoadas.

Em 1974, quando da revolução, o fenómeno da emigração baixou e o nível de vida melhorou. Foram implantadas novas infraestruturas, nomeadamente ao nível da rede de estradas, à época quase inexistentes. Os habitantes passam a participar ativamente nos destinos da freguesia, propondo e sugerindo melhoramentos junto dos órgãos autárquicos, entretanto eleitos livremente.

Contudo, mesmo assim, os resultados continuaram a não satisfazer os anseios das nossas gentes e a emigração, embora com menos intensidade, continuou até aos dias de hoje, esvaziando as nossas aldeias.

No presente, das quatro escolas apenas uma funciona, mas com um número muito reduzido de alunos, correndo o risco de vir a fechar. De nada vale o empenho do Sr. Presidente de Junta para colocar a freguesia na ordem do dia. Parece em vão o seu esforço. Muitos dos nossos jovens até por cá se radicavam, mas dada a existência de tanta dificuldade, fogem para os concelhos vizinhos.

A dificuldade maior é o terreno para construção sabendo que temos uma grande área ótima para esse fim que vai do cruzamento da povoação do Caselho, Póvoa, Seixo, Lourinhal até Stº António do Cântaro. Este percurso está em grande parte dotado de conduta de água e linha elétrica, mas, nos anos noventa, a criação da RAN [reserva agrícola nacional] e da REN [reserva ecológica nacional] inseriu aqueles terrenos em tais organismos. Não sei para que servem e tenho algumas dúvidas que haja por cá alguém que saiba para que servem as ditas reservas. O certo é que servem para pôr travão aos nossos jovens. Vários são os interessados nos ditos terrenos, mas não têm tido sucesso, com as consequências irreparáveis para a freguesia. Ao que parece é um problema sem solução ou, pelo menos, não existe vontade por parte de quem tem o dever de o resolver.

Após esta avaliação, resta-me acreditar no futuro. Acredito nas gentes desta freguesia, nos jovens que ainda por cá ficaram, num progresso resultante da implantação de alguma indústria no setor agroalimentar, na retoma das nossas aldeias, no empenho dos nossos autarcas, nas potencialidades dos nossos recursos naturais na área da agricultura e floresta… Para tal, será necessário desbloquear muitos dos entraves que acabei de mencionar. Não basta implementar percursos pedestres, rota dos moinhos, reconstituições da batalha do Buçaco, dizer que temos a estrada real, a casa do marquês ou a casa da rainha, esta ainda pouco falada. Tudo isto faz sentido se, ao mesmo tempo, der lugar a incentivos que nem sempre são de subsídio monetário, mas sim de abertura de procedimentos, no sentido de melhorar e cativar os nossos jovens a apostar na sua terra e aí construírem o seu futuro. Até lá, como diz o povo, vamos teimando.

Arsénio Simões

A Santa Casa da Misericórdia de Penacova tem reconhecida a sua personalidade jurídica civil com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e exerce a sua atividade no âmbito da economia social no concelho de Penacova. Teve o seu primeiro alvará em 1902, mas foi em 1928 com a fundação do Hospital de Penacova que foi criada a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Penacova.

Centro de Dia de Carvalho da Santa Casa da Misericórdia de Penacova

A criação desta Santa Casa esteve inicialmente orientada para dar resposta às necessidades de pobreza que se faziam sentir no concelho, nomeadamente para apoiar os idosos nas suas necessidades quotidianas. Contudo ao longo do tempo veio a desenvolver a sua atividade em prol das carências da comunidade concelhia, alargando a sua intervenção para outras respostas, e outras freguesias, de modo a colmatar as dificuldades acrescidas da população tornando-se assim numa Instituição de referência na economia social concelhia.

Com a implementação do Programa Rede Social no Concelho de Penacova e com a consequente aprovação do Diagnóstico Social em 2004, que apontava a falta de respostas sociais em algumas freguesias do território concelhio, esta Santa Casa através de fundos próprios, com o apoio da Câmara Municipal e a candidatura ao PARES (Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais), criou duas respostas sociais para a freguesia de Carvalho.

Estas duas respostas sociais: Serviço de Apoio Domiciliário e Centro de Dia iniciaram em 2014 e são desenvolvidas a partir do novo Polo, criado na antiga escola primária da freguesia de Carvalho.

No presente com 19 utentes e 5 colaboradoras pretende-se com estas respostas sociais contribuir para a manutenção da pessoa idosa no seu meio sociofamiliar, proporcionando serviços que satisfaçam as suas necessidades básicas; evitar o isolamento através do fomento das relações interpessoais; colaborar na prestação de cuidados de saúde e contribuir para bem-estar bio-psico-social da pessoa utente e comunidade, através do apoio psicossocial prestado pelas Técnicas da Instituição (Assistentes Sociais e Psicóloga).

Como sinal de reformulação e melhoramentos constantes que esta Instituição tem efetuado, o serviço de cozinha, que conta com 3 colaboradoras, também passou a funcionar nas instalações do Polo de Carvalho. Esta cozinha confecciona diariamente uma média de 175 refeições, que são distribuídas pelas diversas respostas que a Instituição possui, desde a infância até à terceira idade, contando também com outros protocolos ou programas pontuais que possam ir surgindo.

Centro de Dia de Carvalho da Santa Casa da Misericórdia de Penacova

Face às necessidades crescentes de vagas para ERPI – Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, a Mesa Administrativa da Santa Casa decidiu requalificar o espaço do Pólo, criando uma ERPI cuja capacidade máxima será de 15 vagas. As obras iniciaram em 2019 e prevê-se que até ao final do ano de 2020 se encontrem concluídas.

Após a abertura da nova resposta, o Polo de Carvalho terá capacidade para 15 utentes em ERPI, 15 utentes em Serviço de Apoio Domiciliário e 12 utentes em Centro de Dia. Assim no curto prazo será necessário reforçar a equipa de recursos humanos, fazendo com que Santa Casa seja uma das entidades empregadoras da freguesia.

Todas as decisões tomadas pela Mesa Administrativa desta Santa Casa têm como principal objetivo, além da sustentabilidade da Instituição, a criação de respostas sociais que vão de encontro às necessidades primárias da população, nas freguesias onde atua e consequentemente melhorar o apoio social no nosso concelho.