As palavras que descem da Serra: As Vinhas da Ira de John Steinbeck

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Escolho para primeiro livro que vai descer a Serra “As vinhas da Ira” publicado em 1939. Foi por certo um livro da juventude de muitos dos que comigo partilharam as cadeiras da escola, mas é um daqueles gigantes intemporais escrito com mestria e transbordante de talento. É um ícone! Marcou-me… Marca-me.

 

As Vinhas da Ira de John Steinbeck

“- Havia lá um gajo que saiu em liberdade condicional. Ainda não tinha passado um mês e já estava de volta (…) perguntou-lhe porque quebrara a palavra.«Foi por isto – disse ele – : não há comodidade em casa do meu velho. Não há luz eléctrica nem chuveiro. Não há livros e a comida é asquerosa.» E disse que voltara para onde tinha algumas comodidades e onde comia regularmente.”

“Se um banco ou uma empresa financeira era o dono da terra, o seu delegado dizia: «O Banco – ou a Companhia – precisa, quer, insiste, exige”, como se o banco ou a companhia fosse um monstro, com ideias e sentimentos, que os tivesse apanhado na rede. Estes não tomavam responsabilidades em nome dos bancos ou das companhias porque eram homens e escravos, ao passo que os bancos eram ao mesmo tempo máquinas e patrões.”

SINOPSE

Steinbeck foi um dos escritores mais lido e mais discutido dos Estados Unidos. A sua escrita, sempre polémica, deixou marcas profundas nos meios cutural e social. A critica social, sempre presente nos seus livros, é forte. Esta pena pontiaguda nem sempre é bem vista por terras do Tio Sam, mesmo assim foi um autor reconhecido e amado.

Em “As Vinhas da Ira”, o autor conta-nos a história de uma família pobre que vive no Oklahoma, que depende da produção da terra para subsistir. Os rendimentos que a terra garante, por sua vez, dependem de muitos factores extrínsecos como o tempo climatérico, as pragas e o próprio mercado. Ao longo do tempo a miséria vai-se tornando maior e a necessidade de partir em busca de melhor sorte surge quando uma tempestade destrói todas as culturas: a família migra para o sul em busca de trabalho. Durante a viagem encontram outros caminhantes nas mesmas condições miseráveis, com histórias semelhantes e os mesmos sonhos na bagagem, aliás o maior peso da bagagem são mesmo os sonhos… Todos os membros da família vão ser postos à prova. A sua resistência vai ser testada até ao limite e assim o melhor e o pior de cada um vai aflorar a superfície.

Na Califórnia descobrem que o El Dorado não passa de uma lenda e ficam a saber que é possível ter menos do que nada quando se vêm privados da sua dignidade.

Resolvem empreender a viagem de regresso ao norte mas apercebem-se que aquilo que lhes pareceu uma ideia original foi pensada por muitos e uma vez mais vêm a estrada cheia de viajantes mais pobres do que antes.

A crítica social tão intensa e tão actual fazem desta obra uma criação intemporal que deve ser lida por todos.

É possível que se chorem umas lágrimas, serão poucos os momentos de alegria ou mesmo de ternura que o livro propicia, mas a humanidade de cada personagem é tão coerente que é difícil não falar com eles, não os amar e noutros instantes odiar com veemência. Boa semana, com livros!

Anabela Bragança