Editorial: Cuidar do micro e do macro e a ‘primeira pedra’ do que virá

0
421
Luís Francisco Marques, é chefe de redação do Penacova Actual

Hesitei entre o retorno do ano escolar como tema da semana ou o ‘surto’ de Covid-19 no concelho de Penacova, sobretudo por não ter certezas sobre os critérios que determinam o uso do qualificativo de surto. A realidade negativa impôs-se, confesso que contra uma efervescente vontade interior.

Não se trata, graças ao deus do bom senso, de um dado absoluto. Ainda assim, creio que suficientemente amplificado na sociedade para ser [des]considerado. Falo da compaixão natural com os sofredores de fatalidades distantes e da compulsão para o argumentário bélico contra os semelhantes nas fatalidades de ‘ao pé da porta’. Estou convencido que tal cenário, na contemporaneidade, é ampliado pelo uso das redes sociais sem ‘gramática’ para tal, para as quais se transportam os argumentos da ‘tasca’ [depois do álcool] e da ‘mercearia’ [depois de qualquer ‘escandaleira’ local], sem corretor ortográfico [ou de sintaxe], nem conhecimentos mínimos dos princípios da lógica e da retórica, nomeadamente os conhecidos ‘não misturar alhos com bogalhos’ e o ‘saber [minimamente] do que é que se está a falar’. Isto mina uma sociedade numa das bases onde nenhum decreto atua, nem para instaurar, nem para restaurar. Falo da coesão comunitária. Se isto é verdade sempre, é-o, por maioria de razão, num lugar como o nosso [Penacova], onde é difícil, dada a pequenez de escala, não tropeçar com os outros num passeio ou num qualquer espaço ‘fornecedor de necessidades básicas’. Obviamente que o contrário disto é o discurso crítico onde imperam os argumentos [sem fulanização], a urbanidade [sem deselegâncias] e a fundamentação [sem superficialidade e pura maledicência].

Todos, ou quase, já tocámos superfícies potencialmente contaminadas, já privámos por instantes em lugares onde hipoteticamente o vírus pode deambular sem toda a proteção individual, já dissemos ‘é só desta vez’, ‘era muito azar que fosse agora’ – ou tiradas semelhantes… Ou seja, todos, ou quase, já podíamos ter ficado doentes. Ou poderemos vir a ficar a qualquer instante. Só a partir de algum estado situado entre a ignorância e a maldade se pode ‘acusar’ um doente de o ter ficado propositadamente. O sofrimento gera grito em quem sofre e silêncio impotente em quem escuta.

Do ponto de vista público, entendo a ativação do plano de emergência como ‘facilitador de decisões’. Mas julgo não errar que, num espaço tão pequeno como Penacova, em circunstâncias como a que vivemos, é sempre ‘emergência’, no que toca a colocar no terreno TODOS os meios que possuímos para resolver ou atenuar os problemas surgidos. Assim, só a ‘leveza’ de não ter o ‘menino nos braços’ pode permitir a crítica leviana ou oportunista.

Estou convencido, no plano nacional, que a corte que coloca o rótulo de ‘inenarráveis’ em Marta Temido e Graça Freitas [para usar um dos termos ‘bonitos’ aplicados] fugiria ‘a mais que sete pés’ daquela responsabilidade, justamente porque as ideias só lhes surgem depois das decisões [eventualmente más] das duas protagonistas. ‘Mutatis mutandis’, localmente falando as conclusões não diferem na substância.

Certamente que há opções insuficientes [más, duvido] e caminhos alternativos [eventualmente mais ágeis]. Creio, ainda assim, que o momento é de deixar espaço ao trabalho de quem tem de decidir o ‘macro’ e de preocupação individual com o cuidado do ‘micro’, que nos diz diretamente respeito e onde podemos fazer a diferença. Sem insuportáveis ‘frases cor de rosa’, com proporcionalidade e verdade de comunicação e com coragem e ciência na decisão. Isto é exigível a quem manda, sem deixar de ter presente que são tão humanos, demasiadamente humanos, como nós.

Porque não podemos ser sempre o país dos melhores estudos e das execuções ausentes, apetece-me concluir com três inquietações.

É possível viver sem ‘risco’? Creio que esta tendência para um mundo puro do ponto de vista higiénico-sanitário esconde uma perversão patológica hipocondríaca. Viver com risco não equivale a insensatez irresponsável ou a insanidade antecipada. Equivale a viver fora dessa cápsula de conforto almofadado onde nos encerramos [ou somos encerrados] como lugar hiper seguro e à prova de todos os males. Porque isto, simplesmente, não existe. Nunca existiu e o mundo globalizado atual mais não fez que acentuar essa evidência. E o risco começa quando deixamos a placenta e nos expomos à vida extra uterina. E com o risco vem a necessidade de sermos cuidados. E, posteriormente, de cuidarmos de outros.

É possível viver sem toque? Para seres feitos de pele, esta película extensa que é a fronteira ténue para os outros, não me parece. A contradição expressa na expressão ‘distanciamento social’ repetida à saciedade pode conduzir a que se deixe de interiorizar que o caraterístico do ‘social’ é a proximidade. Os medos que podem tolher o começo de uma relação nas atuais circunstâncias, com os distúrbios de personalidade possíveis daí advindos, não parecem nas agendas de preocupação. Do mesmo modo, a pretensa ‘retirada’ do corpo da conjugalidade e os muros que aí se erguem. Ou os cuidados com doentes e idosos, sem pele e cedendo à fria desumanização das mediações dos equipamentos ou da tecnologia. Somos corpo e essa dimensão da pessoa não é amputável, sob pena daquela deixar de ser inteira.

O que vem aí? “Ninguém sabe se sabe”, canta Sérgio Godinho na recente canção ‘Novo Normal’. Ainda assim, certamente que o que virá não é o que já veio e passou. Será novo. Grassa na sociedade, em vários setores, uma tendência revivalista para regressar algures a um passado glorioso e perfeito, assumindo a tradição como realidade cristalizada e não como memória dinâmica que vai cimentando a etapa seguinte. O que aí vem é outra coisa. E esta pode ser a oportunidade para declarar o óbito, por morte natural, de algumas práticas comunitárias a que não fomos capazes de por termo, por querermos a todo o custo evitar aborrecimentos. Para que o novo, que inevitavelmente virá, nasça com a marca do nosso protagonismo e não somente com a tendência que os poderes apreciam impor. A primeira pedra, sem placa comemorativa, tem de ser nossa.

Luís Francisco Marques