História(s) mal contada(s) – A duvidosa ligação do Marquês de Pombal ao concelho de Penacova

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“Descendente dos Morgados de Carvalho, a história genealógica do Marquês de Pombal inicia-se na antiga Vila de Carvalho, Penacova, cujo Morgado havia sido instituído por Domingos Feirol e por sua esposa, D. Belida, em 1178.” – http://www.cm-penacova.pt/pt/pages/gentecomhistoria [acedido em 13.09.2020]

Descendente dos Morgados de Carvalho? Há quem entenda que não é bem assim! Pensa-se que o Marquês de Pombal, em rigor, não pertenceria a este ramo dos Carvalhos e que, pelo contrário, os seus antepassados se apropriaram indevidamente de títulos e de mercês a que não tinham direito, forjando documentos, corrompendo, comprando testemunhos. Veja-se, por exemplo, o caso Montalvão.

Durante muitos anos, aquele antigo vínculo foi disputado entre a Casa de Atouguia e os Carvalhos da Rua Formosa (família do futuro Marquês de Pombal).

Nas eleições de 1655, Fernão Teles de Carvalho venceu o candidato da outra linha, Sebastião de Carvalho, avô de Sebastião José, e em 1712 o 11º Conde de Atouguia, Luís Pedro Peregrino, triunfou também, agora perante o pai do futuro Marquês de Pombal. A Casa de Atouguia havia entrado na posse do Morgado de Carvalho pelo segundo casamento do 7º Conde de Atouguia, Jerónimo de Ataíde, com Leonor de Menezes. A partir do 8º Conde de Atouguia, Luís de Ataíde, a sucessão no vínculo manteve-se sempre nos Atouguia.

Vestígios do Solar dos Carvalhos, em Carvalho, Penacova

O Morgadio de Carvalho era o “mais antigo vínculo de Portugal, em que se sucedia, não pela primogenitura, mas pelo membro da família considerado mais apto. A decisão era assumida por um conselho presidido pelo alcaide de Coimbra.

Com o processo dos Távoras, o conde de Atouguia (genro daqueles) foi também liquidado. E, (mera coincidência?), mal tinha decorrido um mês sobre a sua execução, Sebastião José de Carvalho e Melo toma posse do morgadio que ficara vago com a morte daquele que tinha mandado matar!

Mais, o Marquês de Pombal, de modo a assegurar que a partir dali a posse do morgadio dos Carvalhos se mantivesse na sua descendência, alterou a cláusula que o beneficiou e extinguiu a sucessão irregular em todos os morgadios, acabando, neste caso,  com o privilégio da apresentação e eleição por parte da Câmara de Coimbra. Perpetuava-se assim o Morgado de Carvalho nos seus descendentes legítimos.

Mais: segundo Bivar Guerra, não terá sido por acaso que os dois filhos varões do 11º Conde de Atouguia, morto em Lisboa, foram internados em conventos. Pensa-se que, com receio de uma futura reivindicação, o Marquês de Pombal engendrou o maquiavélico plano de os encerrar, ainda crianças, durante anos e anos, nos conventos de Rilhafoles e Sacavém.

Seja como for, fica a sensação de que esta história está mesmo muito mal contada. E não sei até se, com isto tudo, é legítimo o site do município de Penacova continuar a manter Sebastião José de Carvalho e Melo na Galeria de “Gente com História”.

David G. de Almeida