Gripe em tempos de Covid-19: a importância da vacinação

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A gripe é uma doença aguda provocada pelos vírus influenza (dos tipos A, B e C), que afeta principalmente as vias respiratórias. Os vírus da gripe estão em constante modificação e a imunidade que conseguimos com a vacina não é, por isso, duradoura. Mudam-se os tempos e mudam-se os vírus também! A cada ano, a vacina é produzida de acordo com as variantes dos vírus que circularam no ano anterior. É por isso que é necessário que as pessoas se vacinem todos os anos.

Os vírus da gripe são transmitidos através de partículas de saliva de uma pessoa infetada, expulsas sobretudo quando fala, tosse ou espirra, mas também através do contacto direto com partes do corpo, como as mãos, ou superfícies contaminadas com o vírus. Por exemplo, quando tocamos com as mãos num objeto infetado e depois coçamos o nariz, estamos a fazer o transporte do vírus do objeto infetado para as nossas vias respiratórias – e é isto que queremos evitar!

Os vírus Influenza causam habitualmente uma doença de curta duração, com sintomas de intensidade ligeira ou moderada, sendo que a recuperação completa demora cerca de 1 a 2 semanas. Apesar disso, nos grupos de risco – pessoas com doenças crónicas e idosos – a recuperação pode ser mais longa e o risco de complicações é muito maior, podendo complicar com pneumonia ou descompensação das doenças crónicas (como a diabetes, doenças cardíacas ou pulmonares). Esta doença manifesta-se normalmente por mal-estar, cansaço, dores musculares e articulares, dores de cabeça, tosse seca, febre alta e arrepios – sintomas/sinais estes que se desenvolvem de forma muito rápida. Nas crianças, podem ainda surgir náuseas, vómitos e diarreia.

Apesar de vulgarmente ter uma evolução benigna, a gripe causa cerca de 250.000 a 500.000 mortes anuais em todo o mundo, e é por isso que é tão importante a população de risco ser vacinada anualmente. Em Portugal, segundo o Programa Nacional de Vigilância da Gripe apresentado pelo Instituto Ricardo Jorge, na época 2018/2019, houve 3331 mortes atribuídas à gripe. Estima-se que a vacina previna anualmente milhares de casos de doença e hospitalizações pelas suas complicações. É certo que a efetividade da vacina varia de época para época, consoante os vírus circulantes, mas também de acordo com a idade, estado imunitário do doente e as suas doenças. De qualquer forma, se temos forma de prevenir a doença não a devemos ignorar.

Aproveito para esclarecer que, ao contrário do que muitas vezes ouvimos, gripe e constipação não são a mesma doença. Os vírus que estão na origem da gripe e da constipação são diferentes. A constipação é provocada por cerca de duas centenas de vírus diferentes, sendo os mais comuns os Rhinovirus. Além disso, os sintomas/sinais da constipação limitam-se às vias respiratórias superiores, sendo vulgarmente a sensação de congestão nasal, espirros frequentes, olhos e garganta irritados e dor de cabeça. Raramente surgem febre alta ou dores musculares e o início dos sintomas é muito mais gradual. Ao contrário da gripe, a constipação raramente causa complicações graves.

Nos últimos anos, tem-se verificado que a atividade gripal em Portugal se regista maioritariamente entre dezembro e fevereiro. A verdade é que é durante esse período que passamos mais tempo em espaços fechados, mal ventilados e com mais pessoas, o que aumenta naturalmente o risco de transmissão dos vírus. O facto de se transmitirem com maior facilidade em ambientes frios contribui também para esta sazonalidade.

A vacina da gripe é a principal medida de prevenção desta doença e tem como objetivo proteger os grupos mais vulneráveis. Através da vacinação, reduz-se muito o risco de contrair a doença. Além disso, se for infetada, a pessoa vacinada terá um menor risco de sofrer complicações. A época de vacinação contra a gripe inicia-se normalmente em outubro e deve ser cumprida preferencialmente até ao fim do ano civil, embora possa ser administrada durante todo o outono e inverno. Este ano, temos já indicação da Direção Geral da Saúde de que o período de vacinação se iniciará mais cedo, numa tentativa de aumentar o número de vacinados, começando pelos profissionais de saúde/prestadores de cuidados, grávidas e idosos residentes em lares, por constituírem populações mais vulneráveis.

Segundo a Direção Geral da Saúde, por terem elevado risco de desenvolver complicações, a vacinação contra a gripe é fortemente recomendada a:

  1. Pessoas com idade igual ou superior a 65 anos (apesar de ser aconselhada também a pessoas com idade compreendida entre 60 e 64)
  2. Grávidas, para proteção de evolução grave da doença durante a gravidez e para proteção dos filhos durante os primeiros meses de vida
  3. Pessoas que tenham doenças crónicas dos pulmões, do coração, dos rins ou do fígado, Diabetes sob tratamento ou outras doenças/tratamentos que diminuam a resistência às infeções.
  4. Profissionais de saúde e outros prestadores de cuidados
  5. Residentes em instituições ou que usufruam de apoio domiciliário
  6. Doentes crónicos internados
  7. Reclusos em estabelecimentos prisionais

Para encontrar a lista completa de doenças/situações que conferem indicação para ser vacinado, assim como os grupos para os quais é gratuita, pode consultar este documento da Direção Geral da Saúde: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0062019-de-07102019-atualizada-a-14102019.aspx. Para quem não se inclui nos grupos para os quais a vacina é gratuita, esta pode ser adquirida nas farmácias, sendo necessária receita médica e beneficiando de uma comparticipação de 37%. A sua administração pode ser feita no seu Centro de Saúde ou na farmácia. No caso de optar por fazê-la na farmácia, é importante que informe o seu médico ou enfermeiro de família na sua próxima consulta, para que essa informação fique registada no seu processo.

As crianças até aos 8 anos, vacinadas pela primeira vez contra a gripe, devem fazer 2 doses com um intervalo de, pelo menos, 4 semanas. Nos restantes casos, a vacina é constituída por uma única dose anual. A vacina contra a gripe não contém vírus vivos, pelo que não pode provocar a doença. No entanto, as pessoas vacinadas podem contrair outras infeções respiratórias virais que ocorrem durante a época de gripe e para as quais não há vacina.

Em Portugal, estima-se que 50,2% das pessoas confia na segurança das vacinas, um número que sobe para 54,94% quando se avalia a sua eficácia. Os baixos níveis de confiança atribuem-se, na maior parte das vezes, à desinformação, considerando que essa é uma das principais ameaças ao sucesso dos programas de vacinação. Sempre que tiver dúvidas quanto à indicação, benefícios ou riscos de qualquer vacina, é fundamental que procure esclarecê-las junto do seu Médico, Farmacêutico ou Enfermeiro de Família – ficamos todos a ganhar!

Este ano, teremos uma época gripal diferente, pela circulação conjunta do novo coronavírus e dos vírus influenza, pelo que, relativamente à gripe, a vacina constitui, mais do que nunca, uma importante arma preventiva. A Fundação Portuguesa do Pulmão aconselha “veementemente todas as pessoas vulneráveis ou com indicação para a vacinação – de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde – a vacinarem-se contra a gripe.” Manter um bom estado de hidratação, fazer uma alimentação saudável e manter controladas as suas doenças crónicas de base, evitará também as complicações da doença. É igualmente importante que se melhorem os comportamentos preventivos comuns a ambas as infeções: evitar o contacto com pessoas infetadas, manter o distanciamento social, utilizar máscara em todos os espaços públicos, lavar frequente as mãos com água e sabão e nunca esquecer a etiqueta respiratória (é importante que ao espirrar ou tossir, protejamos a boca com um lenço de papel ou com o antebraço e não utilizemos nunca as mãos). Ao cuidar de si, estará a contribuir para o bem-estar de todos!

Joana Fernandes Duarte 
Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na USF Buarcos | Figueira da Foz