Regresso às Aulas: Olhar a Escola como o lugar mais seguro de todos

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Dra. Ana Clara, num exclusivo do Penacova Actual, no começo do novo ano escolar

Escutar a Dra. Ana Clara num momento em que se inicia um ano escolar em contexto tão peculiar era um imperativo. O que aí fica é um documento reflexivo que merece ser discutido por professores, estudantes, responsáveis autárquicos, famílias…

Mistura confiança e consciência da parcialidade das nossas opções diante do incontrolável. Aponta a cooperação institucional e a responsabilidade pessoal como caminhos complementares. Desafia a pensar de modo estrutural, conjugando serenidade e capacidade de rutura sem medo da mudança.

Pediu-me que resumisse a sua biografia. Optei por não o fazer, porque creio que residirá nesse itinerário do passado a semente do futuro que se intui vislumbra das suas palavras.

Francisco Cordeiro Marques

Penacova Actual  [PA] – Como se apresenta a Dra. Ana Clara, que assume a responsabilidade de dirigir o Agrupamento de Escolas de Penacova?

Ana Clara [AC] – Nasci em Figueiró da Granja, concelho de Fornos de Algodres e vivi em Santarém, Manteigas, Guarda e finalmente em Coimbra desde 1968. Estudei no Liceu Infanta D. Maria em Coimbra, tendo terminado em 1974, ano da revolução de Abril.

Ingressei na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no curso de Filologia Germânica em 1975. Em 1974, após a revolução de Abril, não houve acesso às universidades e todos tivemos, naquela altura, que fazer Serviço Cívico; fui para o Alentejo com um grupo de colegas, ajudar na plantação de pimentão. No mesmo ano, em outubro e, pertencendo já à Tuna Académica de Coimbra fui eleita para presidente daquele Organismo Autónomo. Ingressei na FLUC em 1975 em Filologia Germânica (Inglês e Alemão).

Fui rececionista e professora de Português a estrangeiros na International House de 1981 a 1983 e rumei, já como diretora pedagógica e com Gay Adamson a Viseu, abrindo lá a escola de Línguas, International House de Viseu em 1983.

Comecei a dar aulas de inglês em 1981 em Góis, mas só em 1984 ingressei definitivamente na carreira docente, abandonando a escola de línguas estrangeiras. Iniciei a docência em Mangualde, tendo-se seguido Sátão, Viseu, Belmonte, novamente Mangualde, Arganil e Coimbra. Em 1994 fiquei colocada Na Escola Secundária de Penacova, mas só em 1995 vim exercer funções de docente neste concelho.

Em 1997 fui eleita Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária de Penacova e como nessa altura os mandatos eram de 2 anos, em 1999 decidi não me recandidatar. Desde então, continuei a lecionar na Secundária de Penacova e acumulei funções com trabalhos de tradução para o Professor Doutor João Paiva da Faculdade de Química do Porto, e de formação a quadros superiores de empresas da região de Quiaios, Mealhada, Anadia e na NOVOTECNA – Associação para o Desenvolvimento Tecnológico. Em 2004 iniciei a lecionação de formação de Inglês na então Brigada Ligeira de Intervenção em Coimbra. Em 2003 iniciei a minha formação em Gestão Escolar e Pública no INDEG-ISCTE, Lisboa, terminando em Setembro de 2004 a pós-graduação em Gestão de Entidades Públicas e Autárquicas.

Em 2009 o regime de administração e gestão das escolas foi alterado e passou a ser um órgão unipessoal, na pessoa de um diretor/a. Candidatei-me ao primeiro mandato e fui eleita em Maio de 2009 Diretora do Agrupamento Vertical de Escolas de Penacova, passando a partir de 2010 a ser o Agrupamento de Escolas de Penacova, após a fusão com o Agrupamento de Escolas de São Pedro de Alva.

Desde 2009 que assumo as funções de Diretora em regime de exclusividade. Vivo em Coimbra mas passo o meu dia praticamente todo na escola sede em Penacova, deslocando-me às escolas que compõem o agrupamento, menos do que seria desejável. O trabalho administrativo e financeiro ocupa grande parte do meu tempo e, posso dizer, que, lamentavelmente, o trabalho pedagógico é muitas vezes relegado para segundo plano, dada a imensidão de trabalho de gestão que nos é exigido. Sem uma equipa bem preparada, jamais poderia levar a cabo com total sucesso a tarefa que me é exigida.

Levo já 36 anos de carreira com experiências diversificadas e muito enriquecedoras na perspetiva profissional mas também pessoal.

Estar perto das pessoas, ouvi-las, compreendê-las e conhecer a realidade das escolas e da região é muito importante, mesmo imprescindível, para levar a cabo o projeto que me propus defender e pôr em prática.

O meu lema de vida é respeitar, comunicar, partilhar, ouvir. O respeito é essencial como lema numa escola e, sem ele, a escola jamais poderá ser uma Escola.

PA – Com o aproximar do inicio do novo ano escolar, desta vez com o todo o contexto da Covid-19 presente, creio que o que toda a comunidade quer saber é se, em Penacova, vamos ter tudo preparado e com segurança.

AC – Com certeza que em Penacova estaremos tão bem preparados quanto se pode estar perante o contexto de pandemia que vivemos. Temos trabalhado no Agrupamento de Escolas de Penacova, em estreita colaboração com outras entidades no concelho, para preparar o regresso às atividades presenciais com a segurança possível e no cumprimento das diretivas emanadas pelas autoridades sanitárias. Não significa isto que não tenhamos de continuar a enfrentar algumas dificuldades, que teremos de saber ultrapassar, neste que tem sido, nos últimos meses, um caminho de intensa aprendizagem e adaptação a uma nova realidade, a um “novo normal”. Esperamos que as medidas que adotámos e que implementaremos nos estabelecimentos do Agrupamento possam contribuir positivamente para o controlo da pandemia na nossa comunidade e para o sentimento de vigilante segurança entre alunos e famílias.

PA – Neste sentido, haverá alguma grande novidade de fundo? Quais serão as maiores necessidades dos alunos, dos professores, trabalhadores não docentes e das famílias?

AC – Como resposta direta e imediata à situação que vivemos, teremos algumas alterações às rotinas da vida escolar. Como é óbvio, temos preparado um plano de contingência, elaborado inicialmente no início da pandemia, ainda com atividades presenciais, no 2º período do anterior ano letivo. Este plano de contingência foi já revisto, com o regresso parcial às atividades presenciais em final do 3º período e com o fim do confinamento. Agora foi atualizado, de acordo com as novas orientações que recebemos. Cumulativamente, preparámos um plano para aplicar em vários cenários possíveis: apenas atividades presenciais, que esperamos aplicar sem interrupções; de ensino misto; e de ensino a distância (E&D), caso a situação local sofra forte agravamento. A transição entre esses planos, a ocorrer, será sempre determinada superiormente, em coordenação com as autoridades de saúde / Proteção Civil.

Estes planos implicam, para já, alterações na grelha horária das turmas e percursos pré-definidos, para evitar concentração de alunos no acesso às salas e nos intervalos e manter o distanciamento social; turmas fixas em salas de aula e blocos, maximizando as medidas de higienização e facilitando a identificação de contactos; a alteração de funcionamento de alguns serviços, em especial da cantina na Escola sede, com a criação de 3 turnos de acesso às refeições; outras medidas que estão a ser preparadas e comunicadas à comunidade escolar. Claro que as medidas de auto proteção vão ser ponto essencial, pelo que decorrerá a distribuição a todos os elementos (alunos a partir do 2º CEB, docentes e assistentes) de um kit com máscaras reutilizáveis até 25 lavagens, com uso obrigatório em todo o espaço escolar.

Mas este ano letivo de 2020/21 estava já a ser preparado para ser um ano letivo com novidades, mesmo antes do surgimento da CoViD 19. No âmbito da Autonomia e Flexibilidade Curricular submetemos a aprovação um Plano de Inovação, elaborado com o apoio do Município e que mereceu a concordância da tutela. Teremos então implementadas, neste ano letivo de 2020/21, um conjunto de medidas que, pensamos, irão ter impacte positivo na satisfação das necessidades dos nossos alunos e na melhoria dos seus níveis de sucesso. Deste Plano de Inovação, a medida mais abrangente será a organização do ano letivo em semestres, mas conta também com a constituição de turmas de percurso curricular alternativo, com alteração da matriz curricular base, bem como alteração da matriz dos 1º e 2º anos do 1º CEB. Pensamos ser mais um passo na direção certa, na procura da satisfação das famílias, na tentativa de potenciar as capacidades de todos e de cada um, na melhoria das condições e aprendizagem e do sucesso.

PA – Quais são as grandes potencialidades do Concelho em termos Escolares? E as maiores fragilidades?

AC – Sobre as potencialidades do concelho, em termos escolares, permitam-nos lembrar uma notícia publicada em 27 de junho de 2020 (https://penacovactual.pt/2020/06/27/ensino-ranking-de-2019-coloca/), onde se pode ler: “Penacova é um dos concelhos do país cuja média do secundário ficou acima dos 62%, ocupando a 20ª posição a nível nacional, assim subindo 11 posições relativamente a 2018.” Será a prova, não só do grande potencial, mas também de como tem vindo a ser aproveitado.

Existem também fragilidades. A maior de todas será estrutural no território local, regional e até nacional: é a demografia, por vezes associada à mobilidade, com a notória redução da natalidade e incapacidade de renovação de gerações, traduzindo-se na redução do número de alunos. Por sua vez acarreta a redução do número de turmas e das ofertas formativas, algo que tentamos contrariar com todo o empenho.

PA – Observando de fora, parece que se discute há muito um conjunto de novos paradigmas – escola, professor, ensino, etc. – parecendo que, no final, a prática acaba por ir mantendo o que existe, tentando não criar muitas ruturas. Sente-se isso no Concelho?

AC – As ruturas são, por vezes, necessárias. Mas também é verdade que, especialmente no que toca à Educação, as ruturas não se podem só fazer pelo que se tem, mas principalmente pelo que se quer ter. Essa é talvez a discussão a fazer: não parcelar, mas global; não conjuntural, mas estrutural. Continuamos a acreditar numa escola com todos, humanista, próxima, onde se aprenda hoje a pensar no futuro. No Concelho está a decorrer o processo de transferência de competências, nesta área da Educação, para o Município. Pensamos que a excelente relação que tem existido entre o Município e o Agrupamento de Escolas permitirá a manutenção ou melhoria das boas práticas e poderá introduzir algumas inovações. Independentemente de opções que se venham a tomar, o mais importante será que elas aconteçam de uma forma estruturada, pensada, sem condicionalismos ideológicos, e sempre focadas naquilo que é central: a melhor formação das nossas crianças e jovens, a preparação de cidadãos plenos, a capacitação daqueles que são, já hoje, o futuro. Gostaríamos que, na avaliação que se faça da Educação em Penacova, não se pudesse dizer que não se avança por medo da mudança. Propomos, implementamos, mudamos. Vê-se nos projetos e Planos que temos e nos resultados que alcançamos.

PA – Questões como a diminuição do número de crianças e jovens, a eventual redistribuição dos equipamentos físicos/dificuldade de mobilidade, o ensino profissional e a educação de adultos, entre outras que povoam diversos fóruns de reflexão são passíveis de ser respondidas a médio prazo de modo antecipado ou será a realidade inevitável da ditar a lei?

AC – Existem efetivamente realidades e condicionalismos que inevitavelmente vão continuar – por exemplo, a dispersão do território de influência do Agrupamento de Escolas de Penacova ou as suas características físicas; outras, como a evolução demográfica, tem efeitos no período de gerações; outras ainda, poderão ser alteradas a médio prazo, com diferente (e verdadeiro) ordenamento do território; por último, algumas poderão ser alteradas no curto prazo, por opções políticas ou critérios técnicos. Teremos de ter a capacidade de priorizar a nossa atuação e manter o foco naquelas que podemos realmente mudar. Para isso é necessário definir estratégias, delinear processos, estabelecer objetivos. Pensamos que será sempre preferível antecipar em vez de, numa expressão popular, “correr atrás do prejuízo”. E acreditamos que muita da realidade é construída por nós, individual e coletivamente. Temos de, também individual e coletivamente, querer e saber querer.

PA – Em jeito de comunicado à sociedade civil, o que sente necessidade de dizer ao Concelho, no começo de mais um ano escolar?

AC – Pensamos que a mensagem essencial, sobretudo no período conturbado que vivemos, é uma mensagem de confiança: de confiança nas instituições e no trabalho que está a ser feito; de confiança nas pessoas e na comunidade; e, sobretudo, de confiança nas crianças e nos jovens, nos filhos e netos, nos nossos alunos – os “nossos meninos”. E que esta confiança seja acompanhada de responsável esperança – será assim, com responsabilidade individual e comunitária que poderemos fazer mais e melhor, esperando sempre atingir aquilo que possa agora parecer-nos distante.