Regresso às aulas: Educação, um trabalho cooperante, indo ao encontro das necessidades dos alunos

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Drª. Sandra Ralha, em exclusivo ao Penacova Actual, no começo de mais um ano letivo

A transversalidade da área da Educação, tocando toda a comunidade, de um modo mais ou menos direto, transforma-a numa área tão nuclear quanto sensível na construção do bem comum.

Nesse sentido, o Penacova Actual considerou incontornável ouvir a vereadora do Executivo Municipal responsável pelo pelouro da Educação. Sandra Ralha conjuga a responsabilidade política com a competência científica e pedagógica de professora e com a sensibilidade de mãe. Fala, por isso, a partir de uma posição privilegiada, que a converte numa voz incontornável relativamente a esta matéria.

Luís Francisco Marques

Penacova Actual [PA] – Sabemos que a Câmara não se imiscui em questões pedagógicas, mas na Divisão de Educação, pelouro tutelado pela Dra. Sandra Ralha, concentram-se talvez aquelas que são as maiores preocupações das famílias no começo de cada ano escolar: espaços físicos, transportes, refeições, recursos humanos, subsídios… Pergunto: está tudo pronto para retomar o ensino presencial? O que é mais fácil e já caminha em ‘velocidade de cruzeiro’? Quais são as maiores dificuldades?

Sandra Ralha [SR] – Permitam-me começar por dar as boas-vindas a todos os que estão a começar um novo ano letivo, com caraterísticas tão atípicas. Estamos todos no mesmo barco. Tudo é novo e esta “normalidade”, feita de incertezas e de receios, não é diferente para alunos, professores, dirigentes, autarcas… Portanto, cumpre-nos dar o melhor que temos e que sabemos, com empenho, agindo com conhecimento e boa-fé. Mas não tenho dúvidas de que essa tarefa não é exclusiva do Município, da Escola ou das famílias. É uma missão conjunta e só juntos conseguiremos ultrapassar as dificuldades globais com que nos confrontamos.

PA – Com o contexto de Covid-19 presente nas nossas vidas, impõe-se perguntar se as Escolas vão retomar com segurança? Que adaptações mais significativas tiveram de ser feitas? Sem criar alarme desnecessário, temos ‘plano b’ em caso de necessidade?

SR – O início do ano letivo preocupa sempre os pais e a nós também. Fizemos um planeamento antecipado, desde julho, com o Agrupamento de Escolas de Penacova [AEP], sempre num trabalho cooperante, indo ao encontro das necessidades dos alunos. A realidade tem vindo a mudar todos os dias. Por isso preparámo-nos para vários cenários. O que precisamos de assegurar a todos é que tem sido feito um planeamento sério e acautelado para iniciar o ano letivo.

Inclui-se nessas cautelas que, aqui no concelho de Penacova, e segundo proposta da Autoridade de Saúde Local, a Comissão Municipal de Proteção Civil determinou, por unanimidade, que o ano letivo 2020/2021 apenas pudesse iniciar no dia 21 de setembro de 2020. É um sinal inequívoco de que agimos na defesa do melhor interesse da saúde da nossa comunidade escolar.

A pandemia cria incerteza mas há uma expectativa positiva e confiante que a abertura vai decorrer de forma muito positiva. A direção do AEP, todos os seus professores e educadores, assim como as/os Assistentes Operacionais e Assistentes Técnicos, estão a fazer um trabalho imenso e intenso, desde há alguns meses, para que esteja tudo preparado e em segurança no arranque do novo ano letivo. Há uma mensagem de tranquilidade de que todos devemos ter consciência: se todos cumprirmos as medidas divulgadas pelo AEP, tudo decorrerá de forma positiva.

PA – Como será o dia a dia nas escolas?

SR – Para além das regras de segurança definidas pela DGS e pelo Ministério da Educação, que preveem, por exemplo, a utilização obrigatória de máscaras, a definição de circuitos de circulação ou o reforço da higienização dos espaços, o próprio funcionamento das escolas vai ser diferente. Existirão horários desfasados e alargados à organização das turmas, por sala, para minimizar o contacto entre alunos. São várias as mudanças que os alunos vão encontrar no primeiro dia e, por isso, o Agrupamento fez reuniões por videoconferência, com os pais para explicar as novidades.

PA – O regime de Educação em todo o país, este ano, será preferencialmente presencial…

SR – Segundo as orientações do Ministério da Educação, o ano letivo deve decorrer essencialmente numa vertente de ensino presencial. No entanto, o AEP tem também outros dois cenários: ensino misto e ensino a distância, caso venham a existir dificuldades no regime presencial, por causa da pandemia que vivemos. No entanto, este ano, confesso que a dificuldade de operacionalizar todas as ações aumentou, foi mais difícil, morosa e complexa. No entanto, está a existir um trabalho exemplar por parte do Agrupamento de Escolas de Penacova, na pessoa da Dra. Ana Clara. Elogio, por elementar justiça, toda a coordenação e trabalho desenvolvido em prol do sucesso escolar.

Baseamo-nos nas orientações da DGS e no documento “Referencial para as Escolas – 2020”. O Agrupamento preparou os Planos de contingência, divulgou-os e foram tomadas as medidas necessárias para que o arranque do ano seja feito em segurança. Mas este ano a complexidade quase triplicou, quer com a situação de pandemia, quer com o efetivo processo de descentralização de competências.

Em nome da segurança, o setor da Educação, que há meses tem vindo a preparar o novo ano letivo, observando as práticas internacionais e as recomendações de várias entidades, terá este ano um encargo adicional. Sendo que esta preparação foi decorrendo, particularmente no retomar dos alunos dos Jardins de Infância, em regime presencial, a 1 de junho e, agora acontecerá para a totalidade dos níveis de ensino.

PA – Sente que tudo está pronto para acolher os alunos?

SR – Estamos perante um grande desafio. Mas sem dúvida que, em articulação, podemos dizer que o Agrupamento de Escolas de Penacova está preparado para acolher os alunos, os pais, os professores, os Assistentes Operacionais e os Assistentes Técnicos. O futuro é incerto, mas tenho confiança que a abertura vai decorrer de forma muito positiva porque todos vamos conseguir cumprir as regras. Os pais, Encarregados de Educação e a Associação de Pais, têm um papel fundamental em todo este processo no sentido de ajudar a explicar aos alunos que o comportamento vai ter de ser diferente do normal, porque este ano as exigências pedidas a todos e em especial aos alunos são distintas das que havia em anos anteriores, em benefício da sua própria saúde.

PA – Várias entidades têm cooperado…

SR – Há uma parceria muito grande entre diversas entidades, para que tudo fique preparado atempadamente. As juntas de freguesia, que dão um apoio extraordinário, nomeadamente na manutenção dos espaços exteriores, na reposição de materiais de limpeza; a Proteção Civil Municipal, que dá um excelente contributo na área da segurança e verificação de Planos de Contingência elaborados pelo AEP, promove deslocações aos estabelecimentos para verificar a operacionalização desses documentos, a disponibilização de Equipamentos de Proteção Individuais, assim como as sinaléticas para facilitar a circulação em cada estabelecimento; os Bombeiros, que proporcionaram formação e sensibilização aos Assistentes Operacionais; isto, já a 1 de junho, aquando da reabertura dos Jardins de Infância. Com o Agrupamento há uma estreita relação, para que tudo se consiga operacionalizar com harmonia e profissionalismo.

PA – E quanto aos apoios atribuídos pelo Município?

SR – Os apoios diretos do Município aos alunos e famílias têm a configuração de Bolsas de Estudo, ao ensino secundário e ao ensino superior, e, brevemente, sairá um edital para as novas candidaturas; continua a ser dado apoio para Fichas de trabalho/cadernos de atividades para o 1ºCiclo e vales de material escolar adquirido no comércio local; oferecemos ainda transportes gratuito ao Pré-escolar, 1ºCiclo, 2º e 3ºCiclo, assim como apoio em 50 % nos passes escolares dos alunos do ensino secundário que estudam no AEP.

PA – Os transportes estão acautelados?

SR – Os transportes são sempre, todos os anos, uma dificuldade acrescida, na medida em que a própria rede de transportes públicos é complexa. A complexidade de operacionalização é difícil, até porque nem sempre há operadores para fazer o serviço. Estamos particularmente carentes de alguns circuitos de uma imensa rede que tem de existir, para que o Concelho fique coberta na sua amplitude. Ainda assim, mesmo com a rede existente, o Município tudo faz para que vá tendo melhorias ano após ano.

Como auxílio complementar, continuará a existir serviço de Apoio e Acompanhamento à Família, nos Estabelecimentos da Educação Pré-escolar, ajustado aos horários dos pais, por cada estabelecimento do Pré-Escolar.

PA – E quanto ao combate ao insucesso escolar e outras medidas inovadoras?

SR – Vamos continuar a dar continuidade a projetos, em parceria com a Comunidade Intermunicipal de Coimbra, com a 2ª Fase do Plano Inovador de Combate ao Insucesso Escolar. A implementação no ano letivo transato deste Plano de Inovação demonstrou, com os resultados, ser um sucesso, no âmbito da atuação da Equipa multidisciplinar; especifica e exclusivamente do Município teremos um projeto: MindFulness e Ambientes Inovadores.

Procuramos inovar trazendo tecnologia para o espaço de sala de aula, com a aquisição de Tablets, e melhorando a rede de Wifi e hotspots. Apesar de termos uma Educação de excelência no Concelho, procuramos sempre projetos diferenciadores, com o intuito de trabalhar para além dos resultados, trabalhar para os valores, para a criatividade e para desenvolver no aluno o espírito crítico, indo ao encontro do perfil do aluno deste século.

PA – O novo cartão do aluno traz novidades…

SR – No processo de transferência de competências, a ser já concretizada a sua transição este mês de setembro, já foi possível, em cooperação com o AEP e no sentido de todos terem cartão de estudante, alargar essa modalidade também aos alunos de São Pedro de Alva. O cartão do aluno permite, não só a identificação, como os carregamentos para refeições e outros. Nesta matéria, o AEP já clarificou, mas também o vou reforçar, referindo que os alunos do AEP, da escola sede de Penacova e da EBi de SPA, têm duas opções de carregamento:

1) a  que já existia, carregando diretamente na escola, na papelaria ou local a ajustar pelo AEP;

2) inovação a partir de este ano, com a possibilidade já tão desejada de fazer carregamentos online. Assim, cada Encarregado de Educação poderá escolher a opção que deseja. Nesta modalidade, a empresa detentora do sistema já veio comunicar que os carregamentos online implicam a cobrança de uma taxa de 3,75% diretamente nesse carregamento. Os pais devem tomar conhecimento das modalidades disponíveis e escolher aquela que servir a sua preferência.

PA – Como ficará o sistema de alimentação?

SR – Os alunos continuarão a beneficiar do Regime de Fruta e Leite Escolar em total articulação com o AEP. Ao nível das refeições escolares, mantemos aquilo que já existia nos estabelecimentos de ensino. Ou seja, para os alunos da Educação Pré-Escolar e 1ºCiclo, as IPSS´s garantem uma resposta de qualidade e temos a possibilidade de continuar com a sua excelente colaboração, a saber: FMCB; Grupo de SSRC de Miro; Centro Paroquial de Lorvão; CBEFigueira de Lorvão e Santa Casa da Misericórdia.

Nas escolas sede do AEP e EBi de SPA será a empresa Unicelf que ganhou o concurso ‘Acordo Quadro’, através da CIM, para efetuar o serviço de fornecimento de refeições.

 PA – A Diminuição do número de crianças e jovens, distância geográfica e dificuldades de mobilidade… Há um lote de questões que parecem convocar a necessidade de pensar questões e antecipar decisões, antes que a inevitabilidade obrigue a que sejam tomadas ‘à pressa’. O Concelho tem um documento estruturante, a Carta Educativa, que é um bom ponto de partida para a reflexão. Quer falar-nos das perspetivas futuras para o Concelho a este respeito?

SR – A diminuição do número de crianças e jovens é uma realidade nacional e europeia. Apostamos na diferenciação do Ensino e no robustecimento do nosso sistema. Isto é bem visível na oferta da Escola de Artes, por exemplo, que proporciona aquilo que nem em algumas cidades existe. Essa é claramente uma aposta ganha pelo Município e que não existia. Estamos também a reforçar a qualidade de equipamentos, como a construção de um novo Centro Escolar, em Figueira de Lorvão, para proporcionar melhores condições aos alunos e suas famílias. Com esse investimento, o Municipio contribui para criar e melhorar a rede escolar.

PA – Penacova acolhe uma Escola Profissional com um grande número de jovens oriundos de países africanos de expressão portuguesa e que são uma massa humana muito significativa em Penacova. Recentemente foi noticiada a criação de um grupo de trabalho para dinamizar uma maior integração comunitária destas pessoas? Que projetos estão pensados e em curso?

SR – Sim, Penacova acolhe a Escola Profissional Beira Agueira, que recebe um número significativo de alunos, em grande maioria jovens oriundos de países africanos de expressão portuguesa e, como tal, desde logo, esses jovens têm hábitos, costumes e cultura diferentes. Existe uma necessidade real de trabalhar no sentido de incentivar a sua integração, na escola e na própria comunidade, visto a sua maioria estar a viver em residências, na vila de Penacova.

Tem vindo a ser intensificada a cooperação e articulação entre entidades com papel preponderante ao nível da Educação, para que o aumento dessa cooperação e partilha exista, acompanhado por uma evolução que se revele determinante para a qualidade do Ensino e Formação Profissional em geral e para a integração dos jovens na comunidade.

Os alunos da EBA também participaram e continuarão a participar em projetos transversais, tais como o Plano Inovador de Combate ao Insucesso Escolar, particularmente na atividade  Climagir, entre outros projetos, numa vertente de âmbito ambiental. Há uma aposta forte na formação e certificação Profissional. Atualmente a EBA tem também um Centro Qualifica, que é, sem dúvida mais-valia para o concelho, sendo que o Municipio tem também uma parceria com a EBA nesta área.

PA – Como vê o seu papel à frente da área da Educação?

SR – Temos procurado fazer algo diferenciador para termos uma Educação de excelência. Quando entrei para o executivo liderado pelo Dr. Humberto Oliveira, em 2017, foi-me entregue esta pasta, que aceitei com grande espírito de missão. Como professora de carreira, tenho um gosto especial por trabalhar, ouvir e pensar em estratégias para proporcionar melhores condições de vida e ajudar a resolver problemas que diariamente as pessoas nos colocam e, claro, planear atividades, projetos e ações que contribuem para o enriquecimento, qualidade de vida e sucesso dos alunos, famílias e comunidade escolar.

PA – Em jeito de comunicado final, que diria a Vereadora da Educação à comunidade do Concelho, sobretudo àquela que está implicada na área da Educação?

SR – Quero poder continuar a dizer que temos uma Educação de excelência no Concelho de Penacova. E que, comparativamente com os Municípios em redor, estamos muito bem posicionados. Todos desejamos uma Educação inovadora, que vá ao encontro do que os munícipes pretendem. Uma Educação de excelência só é possível com este trabalho colaborativo e de proximidade da Câmara Municipal, do Agrupamento, da Escola Profissional Beira Aguieira, das juntas de freguesia, das entidades que fornecem refeições e transportes, da Proteção Civil, e, sobretudo, das famílias – todos os atores e intervenientes são uma peça chave para o sucesso.

Gostaria de agradecer a todos os funcionários do Municipio de Penacova, particularmente às equipas que trabalham mais diretamente com a Educação, desde Chefes de divisão, a Técnicos, Assistentes técnicos, Assistentes operacionais, Motoristas, membros da Proteção Civil… Todos aqueles que proporcionam as melhores condições para que estudar em Penacova continue a valer apena e que contribuem para o sucesso escolar de cada aluno.

E, claro, pronunciar o lema: É bom estudar em Penacova!