EN 2 a pé

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Gonçalo Bernardino, trabalhador da ferrovia, natural de Tomar e residente em Lisboa, conversou em exclusivo com o Penacova Actual sobre as férias inusitadas que está este ano a viver. O encontro decorreu na Altíssima Guesthouse, o mais recente espaço hoteleiro de Penacova, localizado na antiga Casa de Repouso.

“Quis fazer algo que não fizesse habitualmente”, respondeu-nos o Gonçalo quando incitado a desfiar o novelo das suas motivações. Sempre tive opções de férias algo exóticas e diferentes, desde um safari na Tanzânia a uma viagem à Coreia do Norte, nos dois último anos. Este ano, “no período de confinamento, decidi fazer algo diferente”, assumindo o compromisso pessoal de “deixar em Portugal o dinheiro que habitualmente gasto nas férias, sobretudo em quem precisasse.” O nosso interlocutor decidiu que quem precisava mais era a hotelaria e restauração, sobretudo as empresas situadas no interior do país.

Em conversa de amigos, Gonçalo diz que encontrou diversas pessoas que fizeram a EN2 de carro e de mota. “Sou mau condutor de carro, não conduzo mota e tenho bicicleta apenas para fazer 5km para ir trabalhar”. Deste modo, a única coisa que considera saber fazer bem é caminhar. Assim, decidiu lançar-se no percurso da EN2 a pé, fazendo até um pouco mais que a mítica estrada. O itinerário que projetou iniciou-se a 18 de setembro, em Vila Verde da Raia e espera que termine a 11/12 de outubro, em Faro, na praia.

Encontrou o país que esperava?

“Sinto que conheço razoavelmente Portugal. Corri o país inteiro, como músico de banda filarmónica e assisti à sua desertificação e progressivo envelhecimento. Mesmo sendo pequenos, a sensação que tenho é que tudo é demasiado longe de Lisboa, a todos os níveis.

Passei por duas linhas de comboio que funcionam. No meio do país, terei passado por poucas linhas e metade delas desativadas. O comboio foi construído para levar o progresso ao interior e a auto estrada trouxe as pessoas do interior para o litoral, despovoando aquele. É uma frase de um trabalho meu da escola que nunca esqueci.

A atual ministra da coesão territorial, Ana Abrunhosa, quando ainda não o era, disse ser necessário gerir a desertificação, ou seja, deixar morrer de forma controlada. Considero isso medonho.

Ainda assim, encontrei a grande riqueza do que somos nas pessoas, que me receberam e trataram ao longo do caminho.”

O caminho que faz não é só exterior certamente…

“Há uma reflexão interior. Estando com 42 anos, considero-me no meio da vida. Se alguém me propusesse viver o dobro, eu ‘assinaria’ desde já. Assim, este percurso serve para rever a vida, para pensar no que tenho andado a fazer e, sobretudo, no que ainda quero fazer.”

E como olha para Penacova quem chega a este local, que não sei se já conhecia?

“Já por cá tinha passado, mas hoje pareceu muito melhor. Talvez por vir cansado, por ter caminhado entre montes e dar de caras depois com esta vista esmagadora. Além disso, fui recebido de um modo muito entusiasta, quer na Câmara, quer no alojamento. Apesar de eu não ter redes sociais, aqui e em Pedras Salgadas foram os dois únicos sítios onde me perguntaram se me podiam seguir nessas plataformas, demonstrando um legítimo interesse pelo que ando a fazer. E isso é tocante.

Devo dizer que hoje, a chegar, estava sol e, de repente, senti uma lufada de vento, que me arrepiou e me emocionou à chegada. No caminho vou registando coisas que faço, pessoas que encontro, sensações que vou experimentando. Registei esse momento.”

Uma nota pessoal no final deste escrito.

O Gonçalo e um ciclista, também a percorrer a EN2, queriam jantar e pediram opinião e boleia até ao restaurante que escolheriam entretanto. Primeira escolha, fechado. Segunda escolha, fechado. Terceira escolha, fechado. Depois de uma volta de carro de cerca de meia hora, a cruzar a vila de Penacova, jantaram na quarta hipótese. Desejar acolher pessoas e promover a gastronomia local, não pode equivaler a que os visitantes ‘tragam farnel’. A rever, indubitavelmente, de modo concertado e numa discussão promovida por quem tem responsabilidade para tal, se a iniciativa individual não caminhar nesse sentido.