História(s) mal contada(s): Ainda o Morgado de Carvalho e as trafulhices do Marquês

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Voltamos ao assunto. Pode parecer que se esgotaram os temas para esta rubrica. Nada disso. É que no espaço de dois dias chegaram à nossa secretária mais dois elementos que parecem confirmar as observações que fizémos:  por um lado, a leitura de um livro (de que já tínhamos conhecimento) de Camilo Castelo Branco “Perfil do Marquez de Pombal” onde se fala na usurpação do Morgado de Carvalho; por outro lado, a revista “Visão” de hoje, tendo como tema de capa “Marquês de Pombal – A História Secreta”.

Neste artigo da Visão diz-se expressamente: “Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em 1699, em Lisboa, numa família tida como de fidalgos de terceira categoria – o avô homónimo e o pai, Manuel de Carvalho e Ataíde, eram meros capitães de cavalaria da Casa Real, com magros soldos e sem pagamentos em dia. Para contrariar a maledicência na corte sobre os “pergaminhos duvidosos” dos Carvalho e Melo, rumores que incluíam um suposto “sangue impuro” proveniente de uma africana e de uma cristã-nova, o pai de Sebastião José resolveu inventar um livro de genealogia. Impresso em 1702, em Nápoles, para fugir às autorizações necessárias em Portugal.”

Esse livro enquadrava-se numa querela “que o avô de Sebastião José, Sebastião de Carvalho e Melo, e o pai travaram até ao fim das suas vidas – e que perderam.” Mas, transcrevamos do texto de  J. Plácido Júnior, na Visão, o seguinte excerto: “Desdobravam-se em litigâncias judiciais com o objetivo de reaver para a família o morgado de Carvalho, uma terriola perto de Coimbra que lhes devolveria “nome” e “brasão”. Ou seja, tirá-los-ia da relativa penúria e da irrelevância. Nunca conseguiram, porém, ganhar a causa, devido a um obstáculo colocado por um seu próprio antepassado, o qual, tendo um filho bastardo que demorou a reconhecer, deixou escrito que “a eleição” da “administração e senhorio” do morgado caberia “à Câmara da cidade de Coimbra, para que a apresentasse na pessoa que lhe parecesse mais idónea das da sua geração, sem atender à sucessão de pai e filho conforme o direito”.

Continuando a ler, lá vem o resto da história, também eloquentemente descrita por Camilo no referido livro e que na crónica anterior sucintamente explanámos.

Com isto tudo, desculpem os leitores, mas voltamos a insistir: não sabemos quem se lembrou de incluir o Marquês de Pombal na honrosa galeria de “Gente com História”, que figura no site do Município, mas reconhecendo que todos nos podemos equivocar, ainda estamos a tempo de corrigir e, neste caso concreto, de deixar de ostentar em “Gente com História” a “falsa” descendência de Sebastião José de Carvalho e Melo dos “Carvalhos”, de Carvalho-Penacova.

David G. de Almeida