Editorial: Manchetes e rodapés

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Um ‘desporto sedentário’, sem aspirações a modalidade mais que supra regional, mesmo se decalcada de outras latitudes, que começa a ser conhecido como ‘arremesso de comunicados’ terá marcado a semana e [des]amplificado [n]o Concelho. Não quero dar para esse ‘peditório’. É discutível no conteúdo e na forma. Por norma, anacrónico, feito a destempo, marcado pela reação que ‘corre atrás do prejuízo’ e não pela proposição de caminhos. Extremado e maniqueísta, porque isola bem e mal com rótulos de aparente incompatibilidade. Fulanizado nos protagonistas e nos destinatários, parecendo assemelhar-se mais a acertos de contas pessoais, a alavancamento de legítimas aspirações pessoais e menos ao centramento no bem comum como interesse maior. A coisa pública não pode ficar refém desta mentalidade prática trauliteira e truculenta, porque perdemos todos.

Enquanto nesses bastidores se desenham táticas e calculam as quantificações dos retornos, a vida comum acontece.

As escolas acordaram todos os dias da semana e educaram crianças e jovens, transmitiram conhecimento, partilharam humanidade e saber. Os atores essenciais desse enredo, além dos alunos, professores, pessoal não docente, famílias concretas não estão imunes a incertezas e medos. Mas estiveram lá. E permanecerão no posto! Não o fazem apenas pelo pragmatismo do retorno financeiro de carreiras com tanta desproteção, mas lutam por missão e por aquelas compensações que o dinheiro não paga, de tão simples e humanas que são. Cuidam do melhor que temos e preparam o nosso futuro, tantas vezes com o absentismo da nossa colaboração, que apenas se faz presente na hora de reclamar. A simples existência do seu esforço silencioso devia convocar as nossas inteligências e, já agora, os nossos ‘bolsos’ para o lado bom e de oportunidade que emana de cada momento da história. E, no mínimo, impedir que nos dispersemos em ‘divertimentos’ desinteligentes e discussões ocas no conteúdo e inestéticas na forma. Pensar pouco e fazer aquém do possível, que, pelo menos, não tenha o atrapalhar como acrescento.

Penacova é um dos concelhos com maior densidade de população jovem a habitar a sede concelhia. Também esse processo de ‘repovoamento’ se refez durante a última semana. Falo dos estudantes da Escola Profissional Beira Aguieira, que retomou o seu projeto formativo. E isto devia ser um acontecimento, por trazer Mundo ao nosso território e nos transportar para outras paragens. É desafio para uma comunidade e não somente para a Escola. E merece ser notícia, não de manchete e fotografia apenas, mas de compromisso prático e consequente. Uma centena de africanos numa área tão exígua como a nossa são uma evidência incontornável, que não se pode fazer de conta que não existe ou transformar numa realidade periférica e da responsabilidade apenas da Instituição de acolhimento.

A desativação do Plano Municipal de emergência tem de ser, isso sim, uma manchete e não um rodapé. Significa que muita coisa fizemos e fazemos bem feito. E é preciso reconhecer isto, para lá das querelas pessoais e politiqueiras. Erguer a vida pessoal e pública depois de um surto, sem arrastamento interminável do sofrimento, não acontece por sorte. Resulta seguramente de sinergias e de coordenação, de serviços públicos e de vontades individuais, de competência de decisão e ação, misturada com a necessária criatividade que favoreça a superação da nossa insularidade periférica.

Ninguém com bom senso e honestidade intelectual pode arrogar-se dono da resposta certeira e eficaz. Ninguém que pense com seriedade imaginará que algum dos nossos quer o mal dos seus de modo propositado. Ninguém interessado em construir bem a coisa pública pode prescindir dos contributos consistentes e fundamentados dos diferentes, somente pelo facto de serem diferentes. Por maioria de razão numa escala de baixa densidade de pessoas como a nossa, onde a propensão para a reflexão consequente e comprometida parece situar-se numa escala ainda mais baixa que a demografia, substituída que está pelo interesse em sobreviver apenas no instante imediato e próximo.

Pessoalmente, não aprecio que se discuta ‘fora de sítio’, nomeada e recorrentemente pela mediação da tecnologia, não raro com medíocre superficialidade, e não consigo entender como os atores deste filme se conseguem saudar e cumprimentar à mesma mesa, depois de, em variados fóruns ‘à distância’, trocarem galhardetes e insinuações que reiteradamente se focam no ataque às pessoas e não na discussão legítima das inevitáveis ideias diferentes. Tudo como se nada fosse… Merecemos diferente! Até lá, este modo de fazer não pode merecer mais que um rodapé.

Luís Francisco Cordeiro Marques